Páginas

terça-feira, 15 de novembro de 2011

1 “Ensino de Português: origens das práticas e necessidades dos alunos hoje”

Por Eliorefe Cruz Lima


Sempre que surge algo novo na sociedade como, por exemplo, uma nova tecnologia ou uma doença, surgir também um novo vocábulo para nomear a tal novidade.
A eclosão da AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) no início da década de 1980 trouxe mudanças no comportamento da sociedade, principalmente em relação à sexualidade. E com a língua não foi diferente. Algumas expressões surgiram como “soropositivo”, “vírus da imunodeficiência humana - VIH” ou HIV - sigla em inglês - e o adjetivo “ aidético” .

Da mesma forma com a era da informática e principalmente da Internet muitos vocábulos novos são usados, alguns lexicalizados e outros não. Por exemplo, alguns verbos: “tuitar, “blogar”, “teclar” “deletar”. Alguns substantivos: “blog”, “ twitter”, “orkut”, “MSN”, “facebook”, “e-book” ,“e-mail”, entre outros. Todos esses verbos e substantivos e outros estão em uso na língua corrente, principalmente dos adolescentes.

A reflexão acima faz-nos refletir sobre nossa prática pedagógica em sala de aula. Podemos observar que o ensino de português, não acompanha ou não acompanhou a evolução da tecnologia. Assim, as aulas ficam obsoletas e longe dos interesses e necessidades dos alunos deste início do século XXI. Para isso acontecer o professor precisa saber as origens e os motivos das práticas de ensino, e a partir daí, inovar a sua prática docente.

Os grandes acontecimentos conforme mencionados na agenda 3 - 17 a 23/10/2011 sob tema 1 De fins do séc. XIX a 1960 e Tópico 3: dos anos 50 ao final dos anos 60 como a inauguração de Brasília , os anos rebeldes, “ as experiências com drogas, os hippies e a contracultura, a revolução sexual, o feminismo, os protestos dos jovens universitários contra os governos, os movimentos civis em favor dos negros e homossexuais.”1 No campo musical “os Beatles, Juan Baez, Jimmi Hendrix e Bob Dylan, os Festivais de Música Popular Brasileira (das TV Excelsior, Tupi e Record), o Tropicalismo,[...]”2. Ainda a “[...] as tendências comunistas de Jango Goulart, [...] o golpe militar de 1964, que depõe Goulart e institui uma ditadura militar [...]”3, parece que tudo isso não foi motivo de se repensar as mudanças também no ensino de português.

Além de todos os acontecimentos citados, outro fator importante era a dependência curricular que as escolas tinham com a instituição modelo do ensino secundário da época, o Colégio Pedro II. Além dessa subordinação, segundo “o ensino de Português contemplava apenas o estudo da gramática, exercícios ortográficos, retórica e poética, como a leitura literária e a recitação”. 4

Diante do exposto, ainda podemos verificar, ainda hoje, que as reflexões de leitura da Agenda 2 - Tema 1: De fins do séc. XIX a 1960 , o Tópico 2: O surgimento da disciplina de “Português”, e do artigo História da Disciplina Português na Escola Secundária Brasileira , realmente confirmam as práticas em sala de aula em decorrência do que será exigido nos Exames Vestibulares. Um exemplo clássico de muitas escolas fundamentarem seus conteúdos de ensino vem dos grandes vestibulares da USP e da UNICAMP. Estas mantêm uma lista unificada de leituras obrigatórias para o vestibular (triênio 2010, 2011,2012) sem mudar os títulos conforme segue: Auto da barca do inferno – Gil Vicente; Memórias de um sargento de Milícias – Manuel Antônio de Almeida; Iracema – José de Alencar; Dom Casmurro – Machado de Assis; O Cortiço – Aluísio Azevedo; A cidade e as serras – Eça de Queirós; Vidas secas – Graciliano Ramos; Capitães da areia – Jorge Amado; Antologia poética - Vinícius de Moraes. E, já se cogita o próximo triênio (2013,2014 e 2015) de leituras obrigatórias dos próximos vestibulares. Com isso, os cursos preparatórios, os manuais didáticos das escolas privadas ou públicas ficam a serviço dessa lista de obras para estruturarem os seus conteúdos de ensino.

Diante disso, parece que não se prepara mais os jovens para a vida, mas para passar no vestibular. Se o aluno não tiver êxito, há uma enxurrada de cursos preparatórios para o vestibular. Estes fazem suas propagandas ostentando seus alunos bem colocados nas melhores universidades do país. Seria essa a única finalidade do Ensino Fundamental e Médio neste início do século XXI?

Estarmos num grande impasse: Como sair dele passou a ser o nosso grande desafio. Como fazer que as escolas tenham autonomia curricular e atender a demanda de sua clientela levando em conta seu contexto social? No entanto, é fato que todos os estabelecimentos de ensino, públicos ou privados, usam da violência simbólica com seus currículos. Continuam a impor conteúdos e práticas pedagógicas não atrativas aos alunos. Talvez a libertação desse jugo – de seguir o que as grandes universidades cobram dos alunos nos vestibulares – seriam trabalhar com conteúdos a partir da realidade desses alunos, mas não ficar apenas na realidade deles, mas a partir dessa realidade, transformá-la para outra realidade com objetivos de uma sociedade mais justa e igualitária, concernente aos direitos de uma educação de qualidade para todos.

...................................
1 RAZZINI, Marcia P. G. “História da Disciplina Português na Escola Secundária Brasileira”.
Revista Tempos e Espaços em Educação. Universidade Federal de Sergipe, Núcleo de Pós-
Graduação em Educação. v. 4, jan./jun. 2010, p. 43-58. ISSN: 1983-6597.
2loc. cit.
3loc. cit.
4loc. cit.

Nenhum comentário: