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segunda-feira, 22 de março de 2010

Como ser brasileiro em Lisboa (sem dar muito na vista) / Minhas bunda

Sim, eu sei que não será culpa sua, mas, se você desembarcar em Lisboa sem um bom domínio do idioma, poderá ver-se de repente em terríveis “águas de bacalhau”. Está vendo? Você já começou a não entender. O fato é que como dizia Mark Twain a respeito da Inglaterra e dos Estados Unidos, também Portugal e Brasil são dois países separados pela mesma língua. Se não acredita veja só esses exemplos:
Um casal brasileiro, amigo meu, alugou um carro e seguia tranquilamente pela estrada Lisboa - Porto, quando deu de cara com um aviso: Cuidado com as bermas. Eles ficaram assustados – que diabo seria berma? Alguns metros à frente, outro aviso: “Cuidado com as bermas". Não resistiram, pararam no primeiro posto de gasolina, perguntaram o que era uma berma e só respiraram tranqüilos quando souberam que berma era o acostamento.
Você poderá ter alguns probleminhas se entrar numa loja de roupas desconhecendo certas sutilezas da língua. Por exemplo, não adianta pedir para ver os ternos – peça para ver os fatos, paletó é casaco. Meias são peúgas, suéter é camisola – mas não se assuste, porque calcinhas femininas são cuecas. ( Não é uma delícia?). Pelo mesmo motivo, as fraldas de crianças são chamadas cuequinhas de bebê. Atenção também para os nomes de certas utilidades caseiras. Não adianta falar em esparadrapo – deve-se dizer pensos. Pasta de dentes é dentifrício. Ventilador é ventoinha. E no caso (gravíssimo) de você tomar uma injeção na nádega, desculpe, mas eu não posso dizer porque é feio.
As maiores gafes de brasileiros em Lisboa acontecem (onde mais?) nos restaurantes, claro. Não adianta perguntar ao gerente do hotel onde se pode beliscar alguma coisa, porque ele achará que você está a fim de sair aplicando beliscões pela rua. Pergunte-lhe onde se pode petiscar. Os sanduíches são particularmente enganadores: um sanduíche de filé é chamado de prego; cachorros-quentes são simplesmente cachorros. E não se esqueça: Um cafezinho é uma bica; uma média é um galão, e um chope é uma imperial. E, pelo amor de Deus, não vá se chocar quando você tentar furar uma fila e alguém gritar lá de trás: "O gajo está a furar a bicha!" Você não sabia, mas em Portugal chama-se fila de bicha. E não ria.
Ah, que maravilha o futebol em Portugal Um goleiro é um guarda-redes. Só isso e mais nada. Os jogadores do Benfica usam camisola encarnada – ou seja, camisa vermelha. Gol é golo. Bola é esférico. Pênalti é penálti. Se um jogador se contunde em campo, o locutor diz que ele se aleijou, mesmo que se recupere com uma simples massagem. Gramado é relvado, muito mais poético, não é?(...)
Para entender as crianças em Portugal, pedagogia não basta. É preciso traçar também uma outra linguística. Para começar, não se diz crianças, mas miúdos. (Não confundir com miúdos de galinha, que são chamados de miudezas. Os miúdos de galinha portuguesa são os pintos). Quando um guri inferniza a vida do pai, este não o ameaça com a tradicional “dou-lhe uma coça!”, mas com "Dou-te uma tareia!", ou então com o violentíssimo “Eu chego a roupa à pele!"
Um sujeito preguiçoso é um mandrião. Um indivíduo truculento é um matulão. Um tipo cabeludo é um gadelhudo. Quando não se gosta de alguém, diz-se: "Não gamo aquele gajo". Quando alguém fala mal de você e você não liga, deve dizer: “Estou-me nas tintas", ou então: "Estou-me marimbando” (...) Um homem bonito, que as brasileiras chamariam de pão, é chamado pelas portuguesas de pessegão. E uma garota de fechar o comércio é, não sei por que, um borrachinho.
Mas o meu pior equívoco em Portugal foi quando pifou a descarga da privada do meu quarto de hotel e eu telefonei para a portaria: "Podem me mandar um bombeiro para consertar a descarga da privada"? O homem não entendeu uma única palavra. Eu devia Ter dito: “Ó pá, manda um canalizador para reparar o autoclisma da retrete".
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CASTRO, Ruy “Como ser brasileiro...” Viaje bem revista de bordo da VASP, ano Vlll n.3/78

Minhas bunda

A parte carnosa do corpo formada pelas nádegas.


A principal diferença entre a revista Playboy americana e a Playboy brasi¬leira é a língua? Errado. É a bunda.
Na americana, temos seios, úberes, verdadeiras tetas que mal cabem nas páginas duplas. Na nossa, temos bundas. Bundinhas de penugem loira, bundinhas de contorno marrom, até bundinhas cor-de-rosa.
Americano não gosta de bunda? Eu diria que americano não conhece a bunda. Aliás, no mundo inteiro, não existem bumbuns como os nossos, ou melhor, como as nossas. A bunda é um produto interno e bruto tipica¬mente brasileiro. Às vezes, a revista americana faz edições especiais sobre seios. Aqui, fazemos verdadeiros compêndios sobre (e sob) bundinhas. Narcisamente, o brasileiro adora a própria bunda.
Mas de onde veio a nossa bunda? Não das alvas portuguesas, muito menos das esparramadas italianas e, menos ainda, das desbundadas japone¬sas. Muito menos das amassadas índias. Sempre me intrigou esta tanajúrica pergunta. Quem arrebitou com pincel de ouro, com formão de prata, a bundinha brasileira?
Tinha essa dúvida até conhecer Cabo Verde, um país de dez vulcâni¬cas ilhas na costa oeste da África. Quase fora do mapa. Foi lá que tudo começou.
O país tem, atualmente, mais ou menos, 300 mil bundas ambulan¬temente espalhadas pelo arquipélago. Bundas livres de Portugal desde 1975. E a bunda brasileira, antes de chegar aqui, passou por lá, vindo do continente africano. Ou seja, foi lá que inventaram a fórmula, lúdico, o molde mais que esteticamente perfeito. A bunda politicamente correta. Tenho certeza dessa afirmação e vou tentar provar.
Foi em Cabo Verde que surgiram as primeiras mulatas. Apesar de a palavra mulata ter origem espanhola, o conteúdo foi uma criação dos ingleses, holandeses e dos franceses que por lá passavam desde o começo do século XVI, com seus navios negreiros trazendo escravos para o Brasil. Lá era o point no meio do Atlântico. E lá os brancos deixaram o sêmen (do latim sêmen, que significa semente) para a fabricação das mulatas com suas respectivas bundas. Gostavam tanto das cabo-verdianas que Sir Francis Drike, pirata-mor daqueles tempos, chegou até a saquear o país em 1590 a tal Companhia das Índias Ocidentais. O saque durou sete anos e milhares de sementes foram im(plantadas). Tinham sacado a bunda.
Esta mistura deu a cor atual das nativas. Não são negras como vizinhas senegalesas, são marrons. Ou castanhas, como preferem. E lindas. As cabo-verdianas são lindas. Uma espécie de Sônia Braga bem queimada. Olhos claros como dos piratas bisavós. Uma porção de Patrícia França.
Fica difícil descrever a bunda das mulheres de Cabo Verde. Tem que ver para crer. São Tome não acreditaria em seus próprios olhos. Mas olhando uma delas passar, você percebe que ela está no doce balanço a caminho do mar (do Brasil).
Um dia estava com um amigo português, o cineasta Paulo de Souza, especialista em cinema africano, numa praça de Mindelo, a capital intelectual do país e das bundas (a capital do país chama-se Praia, pode?). Eis que passa na nossa frente uma bunda vestida com uma minissaia verde. Justíssima. Não tivemos dúvida. Seguimos a bunda por vários quarteirões em homenageante silêncio, até que ela entrou numa casa e nós voltamos para a praça sem a necessidade de dizermos nenhuma palavra um para o outro. Era uma obra-prima da natureza aquela menina. De noite, lá pelas duas da manhã, estou eu no meu hotel a dormir e batem na porta. Era o Paulo que havia ido a uma boate. Estava trêmulo, suado:
— Vem, vem, lembra daquela bunda?
— Estava sonhando com ela.
— Veste, veste! Ela está na boate. A bunda está dançando na boate. E lá fomos nós dois para a boate. Não só a "nossa" bunda de verde (agora num fulgurante amarelo) dançava, mas uma infinidade delas, espetáculo.
Só que, no princípio, era o verbo e não a carne e, naquele tempo, na época do tráfico dos escravos, quando surgia a bunda no meio do Atlântico, qual ilha vulcânica, a bunda ainda não se chamava bunda. Como, aliás, até hoje em Portugal não se chama. Bunda só no Brasil. Em Portugal a bunda é um cu.
Mas foi na mesma África que fomos buscar a sonoríssima e mais do que adequada palavra bunda. Diz a lenda que a origem seria das danças dos africanos. Ficavam as mulheres dançando no meio e o crioléu em volta batendo tambor e fazendo som com a boca: bun-da!,bun-da! Mas isso é lenda. Na verdade, a palavra veio da língua quimbundo (kimbundu), da palavra bunda (mbunda, tubundas, elebunda?), lá para os lados de Angola, local onde viviam os bantos, raça negra sul-africana à qual pertenciam, en¬tre outros, os negros escravos chamados no Brasil angolas, cabindas, benguelas, congos, moçambiques.
Nós, brasileiros e cabo-verdianos, nascemos com a bunda virada para a lua.
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( PRATA, Mário. Minhas bunda. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007).


Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

UNIDOS POR UMA MESMA LÍNGUA

Por prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

Já não se fala mais português como antigamente. Todos os brasileiros que vão a Portugal voltam impressionados com as diferenças de expressões entre os dois países irmãos. Com o passar do tempo, deixamos de usar várias palavras, eles lá inventaram novas e nós aqui criamos também um monte delas. A verdade é que, se hoje um repórter português viesse de Portugal para o Brasil para fazer uma entrevista com o presidente Itamar, é bem provável que os dois necessitassem de um bom intérprete.

Repórter: Vossa excelência já deita ao desprezo o corrido nas celebrações do mardi-gras ou sente-se ressabiado?
Intérprete: O senhor não dá mais importância ao que aconteceu nas comemorações do Carnaval ou ainda está aborrecido?
Itamar: Claro que dou, mas o que interessa é desaparecer a miséria do nosso povo.
Intérprete: Óbvio que sim, porém o que me apetece é escafeder-se a dependura da nossa plebe.
Repórter: Consta cá que alguns dos seus ministros vivem a dize-tu-direi-eu. Vossa excelência não acha que é contra?
Intérprete: Dizem por aqui que alguns dos seus ministros vivem em grande discussão. O senhor não acha que isso é ruim?
Itamar: É mentira.
Intérprete: É peta.
Repórter: Pois. Se calhar também é peta o paredão dos voadores e hospedeiras que cá por pouco ocorreu?
Intérprete: Sei. Vai ver que também é mentira a greve dos pilotos e das aeromoças que aqui quase aconteceu?
Itamar: Não, não é mentira. Como também não é mentira acontecer greves dos bancários.
Intérprete: Quais peta quais nada. Como por suposto não é peta ocorrer paredões de amanuenses dos armazéns de finanças.
Repórter: E a inchação?
Intérprete: E a inflação?
Itamar: A inflação está sendo combatida. Temos agora um plano sensacional.
Intérprete: A inchação está a ser fustigada. Possuímos de momento um projeto bestial.
Repórter: E a questão do recato de feira no setor dos ordenadores? De que forma arranjou-se?
Intérprete: E o problema da reserva de mercado na área dos computadores? De que jeito foi solucionado?
Itamar: Pois não, isso não existe mais.
Intérprete: Pois sim, isto cá já não há.
Repórter: Por suposto a USA está a querer atalaiar as taxas sobre os vossos productos como os calçados de cabedal?
Intérprete: É claro que os Estados Unidos estão querendo controlar os impostos sobre os seus produtos, como os sapatos de couro.
Itamar: É.
Intérprete: Sim.
Repórter: Grato. Soube-me muito bem o cafezinho e a conferência.
Intérprete: Obrigado. Gostei muito do cafezinho e da entrevista.
Itamar: Não há de quê.
Intérprete: Não há de quê.
Repórter: Mas que coincidência, pá! Então vocês cá também dizem não há de quê?
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(Revista Veja, 15/03/1994: 22).In: TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2 º graus. São Paulo: Cortez, 1996.

Textos de gírias

Por Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

Texto 1.Transcrição de um vídeo exibido na Casa de Detenção, em São Paulo

“Aqui é bandido: Plínio Marcos! Atenção, malandrage! Eu num vô te pedir nada, vô te dá um alô! Te liga aí: Aids é uma praga que rói até os mais fortes, e rói devagarinho. Deixa o corpo sem defesa contra a doença. Quem pegá essa praga está ralado de verde e amarelo, do primeiro ao quinto, e sem vaselina. Num tem dotô que dê jeito, nem reza brava, nem choro, nem vela, nem ai, Jesus. Pegou Aids, foi pro brejo! Agora sente o aroma da perpétua; Aids passa pelo esperma e pelo sangue, entendeu?Pelo esperma e pelo sangue! (pausa)
Eu num tô dando esse alô pra te assombrá, então se toca!Não é porque tu tá na tranca que virou anjo. Muito pelo contrário, cana dura deixa o cara ruim! Mas é preciso que cada um se cuide, ninguém pode valê pra ninguém nesse negócio de Aids! Então já viu: transa só de acordo com o parceiro, e de camisinha! (pausa)
Agora, tu aí que é metido a esculachá os outros, metido a ganhá o companheiro na força bruta, na congesta! Para com isso, tu vai acabá empesteado! Aids num toma conhecimento de macheza, pega pra lá e pega pra cá, pega em home, pega em bicha, pega em mulhé, pega em roçadeira! Pra essa peste num tem bom! Quem bobeia fica premiado. E fica um tempão sem sabê. Daí, o mais malandro, no dia da visita, recebe mamão com açúcar da família e manda pra casa o Aids! E num é isto que tu quê, né, vago mestre? Então te cuida! Sexo, só com camisinha, (pausa)
Quem descobre que pegô a doença se sente no prejuízo e quer ir à forra, passando pros outros, (pausa) Sexo, só com camisinha! Num tem escolha, transá, só com camisinha.
Quanto a tu, mais chegado ao pico, eu tô sabendo que ninguém corta o vício só por ordem da chefia. Mas escuta bem, vago mestre, a seringa é o canal pro Aids. No desespero, tu não se toca, num vê, num qué nem sabê que, às vezes, a seringa vem até com um pingo de sangue, e tu mete ela direta em ti. Às vezes, ela parece que vem limpona, e vem com a praga! E tu, na afobação, mete ela direto na veia. Aí tu dança. Tu, que se diz mais tu, mas que diz que num pode aguentá a tranca sem pico, se cuida. Quem gosta de tu é tu mesmo, (pausa) E a farinha que tu cheira, e a erva que tu barrufa enfraquece o corpo e deixa tu chué da cabeça e dos peitos. E aí tu fica moleza pro Aids! Mas o pico é o canal direto pra essa praga que está aí. Então, malandro, se cobre! Quem gosta de tu é tu mesmo. A saúde é como a liberdade. A gente só dá valor pra ela quando ela já era!"
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(Vídeo exibido na Casa de Detenção, São Paulo) Créditos: Agência: Adag (1988). Realização: TV Cultura / São Paulo. Duração: 2 minutos e 48 segundos. In: TERRA, Ernani. Linguagem, língua e fala. São Paulo: Scipione, 1997. (Encarte de roteiro de estudo).

Texto 2.Papos e milongas

Dizia um:
- Meu lunfa,lalau azarado está aqui.Fiz um otário com cinco giripócas,dois enforcados e um abobrão;depois mandei a chuca de uma coroa,que só tinha uns picholés,mas um James Band estava na minha cola e, quando eu quis fazer o esquinaço,fui guindado. O tiruncho me tocou a bracelete e eu fui falar com o majurengo. Positão. Entrei no flagra. O papa-gente, na metralhadora, era uma coisa.Resultado: Água de Carandiru, meu irmão da ôpa.
Dizia o outro:
- Tu és um vagau pé de chinelo. O bonzão aqui, só mete a mão em cumbuca, por um pororó leguete; nem sou do espianto,nem do escruncho,nem do atraque. Meu negocio é tomar na maciota. Sou vigário linha de frente, meu chapa.Os estácios entram na minha, fácil, fácil. O meu pla é gostoso. E até hoje não caí do cavalo.Manja essa. Larguei o violino na mão do judeu do brexó,que me passou às mães,um arame firme;depois deixei a guitarra com o portuga do buraco quente,que abonou o papai com mil cruzeirão.Como tu vê,tou largando a minha brasa,na praça,e não vou entrar,caindo do burro.Para mim,na tiragem só dá olho de vidro.
E o outro:
- Pois eu,meu chaporeba,sou da marijuana. Faturo horrores ali no lixão. Numa só pavuna eu marreto várias pacáus, e cada fininho vale um Santos Dummont. Os tiras estão sempre de holofotes, mas o vivaldino tem vagólio na campana.Até hoje, só puxei uma, na casa do cão. Foi quando a Excelência me tocou três anos de galera e dois de medida.Mas agora estou na libertina e o negócio é levantar uma nota traficando a xibaba e, se os cherloques meterem uma escama em cima, tá na cara; um vai amanhecer com a boca cheia de formiga.Morou?
Ziriguidum pra você.
E outro ainda:
- Estás por fora, ó ligação. Vou salivar. Cruzei com uma mina e quase entrei de gaiato.Apanhei meu pé de borracha e fui sassaricar pela aí. Tirei linha com uma ragaza e ela gamou na hora. Se mandamos pro esquisito. O hotel das estrelas tava legal às pampas. Bitoca vai, bitoca vem, tu já se mancou, né? Mas na hora da onça beber água, lá se vem as mega de cara comprida. Positório . Partimos pruma candanga,que não foi bolinho,não. No meio da confusa a muxuxa deu o pirulito e o vagolino aqui, teve de se rebolar, porque os cavaleiros da meganha entraram firmes de rabo de galo.A dança de rato engrossou. Dei uma na tampa do milico, que o escamoso ainda está rodando; depois me arranquei no caranguejo e recebi uma chuva de azeitonas quentes; quase me queimaram as antenas.Meu liga, enfrentar a raça não é mole, não.
Depois o outro:
- Vê se te manca, ó migué. Pra mim esse papo é furado. Se quiseres um papo firme, mora na minha: Eu já puxei um mofo. Já fui, várias vezes cidadão Carandiru. Nunca fui da mazela. Meu negócio era tomar na morra, e nunca dei arrêglo a tira ravêsso. Já topei cada dança de rato de fechar o tempo. Arribite estourou na minha telha que nem pipocas no tacho. Quase me vestiram o camisolão.Mas hoje tou no cachimbo da paz. Tou limpo com os homens. Dou um duro lavando cavalo cego, pra dar uma papa de bom pra minha cachanga e os cagasebo.Larguei mão de ser vago-mestre. Pendurei as chuteiras.
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(SILVA,Felisberto da. Dicionário de Gíria: gíria policial,gíria humorística,gíria dos marginais.7.ed. São Paulo:Luzeiro Editora, s.d.p.9-11).

Texto 3.O pitoresco na justiça
(Num de seus inúmeros depoimentos na Justiça, Zé da Ilha, "o Saudoso", prestou esta declaração.)
Seu doutor, o patuá é o seguinte: depois de um gelo da coitadinha, resolvi esquiar e caçar uma outra cabrocha que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho de sabão. Quando bordejava pelas vias, abasteci a caveira, e troquei por centavos um embrulhador. Quando então vi as novas do embrulhador, plantado como um poste bem na quebrada da rua, veio uma pára-queda se abrindo. Eu dei a dica, ela bolou. Eu fiz a pista, colei. Solei, ela bronquiou. Eu chutei. Bronquiou mas foi na despistas porque, muito vivaldino, tinha se adernado e visto que o cargueiro estava lhe comboiando. Morando na jogada, o Zezinho aqui, ficou ao largo e viu quando o cargueiro jogou a amarração dando a maior sugesta na recortada. Manobrei e procurei engrupir o pagante, mas sem esperar recebi um cataplum no pé do ouvido. Aí, dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça, uma muquecada nos amortecedores e taquei os dois pés na caixa da mudança, pondo por terra. Ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas. Papai muito rápido, virou pulga e fez a Dunquerque, pois vermelho não combinava com a cor do meu linho. Durante o boogie, uns e outros me disseram que o sueco era tira e que iria me fechar o paletó. Não tenho vocação pra presunto e corri. Peguei uma borracha grande e saltei no fim do carretel, bem vazio, da Lapa, precisamente às quinze para a cor de rosa. Como desde a matina não tinha engulido gordura, o ronco do meu pandeiro estava me sugerindo sarro. Entrei no china pau e pedi um boi à Mossoró com confeti de casamento e uma barriguda bem morta. Engolia a gororoba e como o meu era nenhum, pedi ao caixa pra botá no pindura que depois eu ia esquentar aquela fria. Ia me pirá quando o sueco apareceu. Dizendo que eu era produto do mangue, foi direto ao médico legal pra me esculachar. Eu sou preto mas não sou o Gato Félix, me queimei e puxei a solingem. Fiz uma avenida na epiderme do moço. Ele virou logo América. Aproveitei a confusão pra me pirá, mas um dedo duro me apontou aos xipófagos e por isto estou aqui.

Atordoado, o juiz mandou chamar um "tradutor" que esclareceu o seguinte:

Tradução do depoimento

— Senhor Doutor, a história foi a seguinte: depois que fui abandonado por minha companheira, resolvi procurar uma outra que me preparasse a comida e lavasse meus ternos. Quando caminha¬va pela rua, entrei num botequim, tomei uma cachaça e comprei um jornal. Depois de ler as notícias do jornal, encostado num poste, na esquina da rua, vi que uma morena se aproximava toda faceira. Olhei-a, ela também. Segui-a de longe e olhando de soslaio para trás, vira que seu companheiro a seguia. Percebendo o jogo, fiquei de longe e vi quando ele a segurou pelo braço e mandou-a para casa. Fui saindo, mas antes de poder me afastar mais, o amásio da moça me agrediu. Revidei dando-lhe com o sapato um chute no peito, um soco no maxilar e de um salto, com outro chute no peito, joguei-o por terra. Ele sacou sua arma e atirou, mas eu já havia fugido, porque o sangue não combinava com a cor do meu temo. Durante a briga, disseram-me que o moço era policial e me mataria. Não tenho vocação para defunto. Corri e peguei um ônibus, descendo no fim da linha, no Largo da Lapa, precisamente às 15 para as seis horas (hora do crepúsculo). Como desde manhã não havia me alimentado, e meu estômago reclamava, entrei num restaurante chinês e pedi um bife a cavalo com arroz e urna cerveja preta bem gelada. Tomei a refeição e como não tinha dinheiro, pedi ao caixa para assentar no caderno que depois eu pagaria a conta. Ia sair quando o policial apareceu. Disse que eu era malandro, e foi direto ao cozinheiro para falar mal de mim. Eu sou preto, mas não sou Gato Félix, fiquei aborrecido e puxei da nava¬lha. Agredi o meu rival. Ele ficou todo ensangüentado. Aproveitei a confusão para fugir, mas alguém me delatou apontando-me aos "Cosme e Damião" e por isto eu estou aqui.
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MARCUSCHI, Luiz Antônio: Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2007.
Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

Conscientização e objetivos do ensino de Língua Materna

Por Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

Para que se dá aula de português a falantes nativos de português?
Para desenvolver a:
1.Competência Comunicativa – empregar a língua adequadamente nas mais diversas situações de comunicação .
2.Competência Gramatical ou Linguística – gerar sequências gramaticais (frases, orações) admissíveis, aceitáveis como uma construção lógica, própria e típica da língua em questão. Capacidade de ,com base nas regras da língua,gerar um número infinito de frases gramaticais.
3.Competência Textual
3.1.Capacidade Formativa – produzir e compreender textos diversos e avaliar a boa ou má formação de um texto dado.
3.2.Capacidade Transformativa – transformar um texto já existente em outro, modificando, reformulando, resumindo.
3.3.Capacidade Qualificativa – dizer que
a) gênero textual escrito pertence um dado texto:
um romance, uma anedota, uma reportagem, uma receita, uma carta, uma narração, uma descrição, uma dissertação, um discurso político, um sermão religioso, um artigo científico, um texto literário, um texto não-literário, um texto propaganda, uma crônica, um conto, uma fábula, uma parábola,textos didáticos, texto em forma de letra de música,circulares,instruções escolares,tabelas,gráficos,etc.
b) Gênero textual oral: aula expositiva, discussão de temas em grupos e em classes, resolução oral de exercícios, argumentação de pontos de vista, leitura em voz alta, etc.
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Referências Bibliográficas
TRAVAGLIA, Luis Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de 1o. e 2o. graus. São Paulo, Cortez, 1996, pp. 17,18.

São Paulo faz escola. Revista edição especial da proposta curricular de língua portuguesa da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, 2008, p.26.

Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

Rememórias Dois

Por Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

Texto 1: Rememórias Dois
Entrei numa lida muito dificultosa. Martírio sem fim o não entender nadinha do que vinha nos livros e do que o mestre Frederico falava. Estranheza colosso me cegava e me punha tonto. Acho bem que foi desse tempo o mal que me acompanha até hoje de ser recanteado e meio mocorongo. Com os meus, em casa, conversava por trinta, tinha ladineza e entendimento. Na rua e na escola — nada; era completamente afrásico. As pessoas eram bichos do outro mundo que temperavam um palavreado grego de tudo.
Já sabia ajuntar as sílabas e ler por cima toda coisa, mas descrencei e perdi a influência de ir à escola, porque diante dos escritos que o mestre me passava e das lições marcadas nos livros, fiquei sendo um quarta-feira de marca maior. Alívio bom era quando chegava em casa.
Os meninos que arrumei para meus companheiros eram todos filhos de baiano. Conversavam muito diferente do que estava escrito nos livros e mais diferente ainda da gente de minha parentalha. Custei a danar a aprender a linguagem deles e aqueles trancas não quiseram aprender a minha. Faziam era caçoar. Nestes casos, por exemplo: eu falava "sungar", os meninos da rua falavam "arribar", e mestre Frederico dizia "erguer". Em tudo o mais era um angu-de-caroço que avemaria.
Um dia cheguei atrasado e dei a desculpa de que o relógio lá de casa eslava "azangado". Aí o mestre entortou o canto da boca e enrugou o couro da testa e derreou a cabeça e ficou muito tempo assim de esguelha fisgado em mim, depois estralou:
- O relógio está o quê?!!
Ah, meu Deus... Tampei a cara com o livro, e uma coceira descomedida nas popas me pôs a retocar e a esfregar no banco, como quem tinha panhado bicho. Um menino que gostava muito de mim foi me salvar e embaraçou-se todo também:
— Ele está dizendo que o relógio da casa dele "escanchelou"! Mestre Frederico derreou a cabeça para o outro lado e tornou a estralar:
— O quê!!!
Ajuntou a boca no maior afinco de estancar um riso quase vertente, ínterim em que a risadagem já ia entornando na sala toda.
- Silên...cio!...
E, peculiarmente, a palmatória surrou miúdo no tampo da mesa. Em tudo o mais era nesse teor. Era — não: é. Vivi até hoje empenhado na peleja mais dura, com o viso de me acostumar a falar de acordo, e não sou capaz. Em estando muito prevenido é que às vezes dou conta de puxar mais ou menos os efes e erres, assim mesmo sujeito a desastrosas silabadas... Descuidei, que seja, resvalo, e quando quero acudir é tarde. Sem maior esforço, dou conta de arrumar direitinho um fraseado com apa¬rência de erudito, e em pouco prazo estiro no papel uma chorola certinha, conforme preceitua a gramática. Contar um caso bem contado, com cautela de não dar motivos a enjoamento em quem vai ler, é que não sou capaz porque tolhido dentro das regras que Mestre Frederico me ensinou nunca pude armar uma estória que prestasse. A coisa não se expressa, fica tudo pálido, enxabido, um negócio maninho que não há quem traga.
Só desaçaimado de tudo quanto é fiscalização de regras e formas, sou capaz de ajeitar uma prosa sofrível. Aí vou desalojando de dentro de mim as palavras e as formas que trago na massa do sangue, olvido o mundo que me cerca e me engolfo numa lembrança qualquer mal apagada e, assim, às vezes arrumo uma escrita que não enfada muito.
Vocabulário:
Ao ler o texto, você deve ter encontrado algumas palavras que não fazem parte de seu repertório lingüístico. Você não as conhece porque algumas delas são palavras e expressões características da cultura rural da região Centro-Oeste, onde o autor foi criado. Outras, além de pertencerem ao léxico regional, também são arcaicas, isto é, já não são usadas com freqüência, tendo sido preservadas na cultura de grupos sociais mais isolados, como é o caso das comunidades rurais. Há ainda no texto expressões que são mais comuns na língua oral do que na escrita. Veja:

1. Lida: trabalhar ou lutar.
2. Colosso: estranheza.
3. Recanteado: esconderijo, temperamento introvertido.
4. Ladineza: astuto, esperto.
5. Afrásico: afrasia - impossibilidade de falar ou de compreender as palavras ordenadas em frases.
6.Descrencei:regionalismo que significa descri.Perder o interesse.
7.Perder a influência: perder a animação;o entusiasmo de ir à escola.
8.Um quarta-feira de marca maior: perder o interesse pela escola.
9.Baiano: no Centro-Oeste costuma-se usar esse termo para referir-se a brasileiros provenientes do Norte e do Nordeste.
10.Parentalha: parentela.
11.Tranca: empecilho;mau caráter.
12.Olhar de esguelha: olha de lado;olhar enviesado.
13.Derrear: inclinar(a cabeça)
14.Estalar: xingar;esbravejar.
15. Peleja: esforço; trabalho.
16. Chorola: texto informal.
17. Enxabido: sem sabor; insípido.
18. Maninho: Estéril; não aproveitável.
19. Desaçaimado: sem-cabresto; sem repressão.
20. Engolfar: penetrar; mergulhar.

O texto de Carmo Bernardes, além de nos ensinar muitas palavras e expressões novas, que ilustram a riqueza da cultura e da linguagem rurais, nos conduz a uma reflexão sobre a língua portuguesa no Brasil, suas características e sua variação, especialmente as diferenças entre o Brasil urbano e o Brasil rural.
......................................

BERNARDES, Carmo. Rememórias Dois, Goiânia: Leal, 1969, p. 18-20. In: BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Educação em língua materna: a sociolinguística na sala de aula. São Paulo: Parábola, 2004, p.13, 14.
Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

Texto 2: Sou cem por cento nordestino

SÓ quem é NORDESTINO entende!...

Botão de som é pitôco;
Se é muito miúdo é pixotinho;
Rascunho é borrão;
Machucar ferimento é desmentir;
Lápis de cor é coleção;
Bom demais é pai d´égua;
Fazer uma travessura é fazer uma arte;
Se for resto é cotôco;
Tudo que é bom é massa ;
Tudo que é ruim é peba;
Rir dos outros é mangar;
Brigar é arengar;
Ficar cheio de não me toque, frescura , é pantim;
Já faltar aula é gazear, turistar;
Colar na prova é filar;
Quem é franzino (pequeno e magro) é xôxo;
O bobo se chama leso;
E o medroso se chama acagaçado, frouxo;
Tá com raiva é invocado;
Vai sair, diz vou chegar;
'Caba' (homem) , sem dinheiro é liso;
A moça nova é boyzinha;
Pernilongo é muriçoca;
Chicote se chama relho,açoite;
Quem entra sem licença emburaca;
Sinal de espanto é 'vôte;
Tá de fogo, tá bicado;
Quando tá folgado, tá folote ou afolozado;
Quem tem sorte é cagado;
Pedaço de pedra é xêxo (seixo);
Sangrar, transbordar é esborrotar!
Lombada é catabilho;
Estilingue é baladeira, bodoque;
Cabide é ombreira, cruzeta;
Colisão é abalroada!
Surfar caminhão é morcegar;
Lagartixa é briba;
Pedaço de barbante é Imbira;
Eita que é engraçado sô!!!
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Disponível em: .Acesso em: 24 jan.2010
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Exercícios
Texto 1:Rememórias Dois
1. Com se sentia o personagem nos seguintes meios sociais em que ele vivia:
(a) Em sua casa?Por quê?
(b) Na rua?Por quê?
(c) Na sala de aula da escola que frequentava?Por quê?
2. No texto há alguma semelhança no seu viver cotidianamente, em relação às dificuldades com a língua, hoje? Se há, por quê?E o que você tem feito para superar essas dificuldades?
3. Qual a função social do texto?
Texto 2: Sou cem por cento nordestino
1. Explique como se sente o emissor do texto, em relação à sua região, ao seu povo,à sua cultura,quando ele diz:
“Sou cem por cento nordestino”
“Só quem é NORDESTINO entende!...”
2. O que acha das palavras e expressões estranhas a você, encontradas no texto? Estão “erradas”?Por quê?
3. Qual a função social do texto?
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Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

Síntese de alguns elementos coesivos

Por Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

1.Indicadores de oposição, contraste, adversão
Preposições,conjunções e locuções:
mas, porém, todacia,contudo,entretanto,no entanto,embora, contra, apesar de, não obstante,ao contrário , etc.

2.Indicadores de causa e consequência
Preposições,conjunções e locuções:
porque, visto que, em virtude de, uma vez que, devido a, por motivo de, graças a, sem razão de, em decorrência de, por causa de, etc.

3.Indicadores de finalidade
Preposições,conjunções e locuções:
afim de, a fim de que, com o intuito de, para, para a, para que, com o objetivo de, etc.

4.Indicadores de esclarecimento
Preposições,conjunções e locuções:
vale dizer, ou seja, quer dizer, isto é, etc.

5.Indicadores de proporção
Preposições,conjunções e locuções:
à medida que, à proporção que, ao passo que, tanto quanto, tanto mais, a menos que, etc.

6.Indicadores de tempo
Preposições,conjunções e locuções:
em pouco tempo, em muito tempo, logo que, assim que, antes que, depois que, quando, de quando em quando, sempre que,etc.

7.Indicadores de condição
Preposições,conjunções e locuções:
se, caso, contanto que, a não ser que, a menos que, etc.

8.Indicadores de conclusão
Preposições,conjunções e locuções:
portanto, então, assim, logo, por isso, por conseguinte, pois, de modo que, em vista disso, etc.
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Referência bibliográfica

CITELLI, Adilson. O texto argumentativo. São Paulo: Scipione,1994.

Organização do Texto Dissertativo Argumentativo

TÉCNICAS DE REDAÇÃO
Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

Organização do Texto Dissertativo Argumentativo

Condições básicas para um texto Dissertativo Argumentativo:

1. Ter uma tese ou premissa. A tese é uma hipótese ou idéia possível de ser desenvolvida, justificada, comprovada, posta na situação de poder sustentar-se enquanto verdade. Ter possíveis respostas a serem dadas ao problema, colocando argumentos contrários, ou a favor. E, para isso, é comum nos textos argumentativos usar-se números, tabelas, depoimentos de especialistas no assunto, citações de pesquisas. E para a sustentação do ponto de é necessário que o argumentador realize pesquisas para se informar sobre o tema. (cf. Citeli, 1994).

2. Ter a consciência da variabilidade linguística, criando registros verbais adequados ao público ou tipo de leitor que pretende atingir (doméstico, professor, aluno, médico, engenheiro, advogado, camponês, raça, credo religioso, sexo, idade, condição social e cultural, etc) observando, para isso, o veículo de comunicação, ou seja, que meio de comunicação será usado, pois, dependendo dele, o mesmo assunto pode sofrer várias modificações com relação ao discurso. Porque cada meio de comunicação de massa tem um público alvo, por exemplo, o jornal O Estado de São Paulo é considerado de um nível lingüístico mais solene e rebuscado, a Folha de São Paulo, um nível intermediário e o Notícias Populares (hoje, Agora São Paulo), uma seleção vocabular mais corrente, construindo frases curtas e diretas. E, todos esses cuidados têm um único objetivo: a persuasão ou o convencimento, pois do contrário, a mensagem veiculada não alcançará os objetivos. ( cf. op. cit. p.12)

COMO SE FORMA O PONTO DE VISTA?

A construção do ponto de vista e visão das coisas decorrem de “experiências que acumulamos, leituras realizadas, informações obtidas, do desenvolvimento da capacidade de compreender e, sobretudo, ‘traduzir’ para as outras pessoas aquilo que desejamos dizer. (...) Apenas a presença de tais requisitos não garante a existência de textos argumentativos proficientes, mas sua ausência comprometerá os pretendidos objetivos de convencimento e persuasão.” (op. cit. p. 17)

O QUE FORMA O PONTO DE VISTA?

“Ao lermos os artigos de jornais que defendem certas teses, por exemplo, favoráveis ou não à pena de morte, ao aborto, à gratuidade do ensino superior, ao pagamento da dívida externa, (...) aos debates e comentários feitos pela televisão e pelo rádio, aos anúncios publicitários, aos discursos políticos ou religiosos, à discussão acalorada sobre futebol ou Fórmula 1, estamos diante da formação de visões de mundo, pontos de vista, concepções que pretendem, em última instância, influenciar nos conceitos, idéias, opiniões das pessoas.” (op. cit. p. 17,18)

POR QUE SE FORMA O PONTO DE VISTA?

A constituição do ponto de vista “decorre do fato de alguém operar a partir de um lugar social - a igreja, o sistema financeiro, a indústria, o trabalho assalariado - o cruzamento das várias formações discursivas; (...) um discurso ...marcado por outros discursos... a trajetória cultural das pessoas: leituras realizadas, convivências mantidas, informações às quais teve acesso.
Para “quem deseja ler ou escrever textos argumentativos... não basta aguçar a percepção ou está ‘ligado’ nas coisas do mundo; é necessário, ainda, trabalho de leitura, pesquisa, busca de informação; algo que envolve reconhecimento, análise, compreensão, sistematização e formalização do que pretendemos fazer crer aos outros.” (op. cit. p.19)


OBSERVAÇÃO IMPORTANTE:

Ao se criar uma TESE, ela tem que ser unívoca, que todos compreendam a mesma coisa. Univocidade X Ambigüidade. A tese tem que ser objetiva, direta, afirmativa ou negativa.

ELEMENTOS BÁSICOS PARA O TEXTO ARGUMENTATIVO (A Coesão Textual)

. Unidade Textual: Esta mantém a coerência e a lógica do pensamento. Manter a referência, o assunto, o tema, a tese de ponta aponta. Isso dá unidade ao texto. Qualquer digressão deve-se voltar ao assunto.
. Consistência do raciocínio lógico.
. Organização das provas de maneira que sejam pertinentes à tese.
. Argumentos de autoridades, exemplos, citações, estatísticas, mapas, refutações, tabelas etc.

FORMAS DE SE INTRODUZIR UM TEXTO DISSERTATIVO ARGUMENTATIVO

“Ao se produzir ou ao se organizar um texto, seja ele constituído de um parágrafo, de vários parágrafos ou até mesmo um livro inteiro, procura-se inicialmente situar o leitor a respeito do assunto (referência) e da abordagem ao assunto (tematização), [recorte do assunto = tema ] com o intuito de que a leitura possa fluir de maneira mais eficaz e o desenvolvimento do assunto esteja assentado em bases mais sólidas, conferindo assim maior credibilidade à abordagem que se está dando à referência do texto.
A este início dá-se o nome de ANCORAGEM, que significa fundar, fundamentar, basear, ancorar o desenvolvimento do texto numa informação que serve de apoio, de base, de ponto de partida. A ancoragem tem a função de situar adequadamente o leitor dentro do texto e permitir que o assunto seja coerentemente abordado.
Diversas são as formas de se introduzir um texto, porque vários são os fatores que interferem, dependendo da natureza do assunto, da sua complexidade, da intenção do autor ao abordá-lo, do veículo de comunicação em que se fará a divulgação, a que tipo de leitor se destina etc.(SAYEG-SIQUEIRA, 1995: 14)
Para se introduzir um texto dissertativo, “quatro maneiras foram consagradas, através das pesquisas e estudos feitos... e a elas nos ateremos.” (op. cit. p. 15)

1. Ancoragem com base num saber partilhado: conhecimento tomado como sendo de consenso – entendimento coletivo, acordo. Este saber partilhado pode aparecer explícita ou implicitamente.

2. Ancoragem com base em fatos: é feita a partir de um fato ou de vários dados contíguos – próximos, semelhantes, vizinhos. A partir deles, chegar a uma proposição que possa agrupá-los numa só afirmação.

3. Ancoragem com base numa citação: é assentada na palavra de uma autoridade. Esta dá credibilidade à opinião do autor.

4. Ancoragem com base num problema: é feita a partir do levantamento de um problema detectado pessoalmente ou através de relatos de outras pessoas. (cf. op. cit. p. 15 a 18)

Agora vejamos os exemplos para cada tipo de ancoragem com um texto apropriado.

1. Exemplo com ancoragem baseada no saber partilhado EXPLÍCITO
“O ator é um homem que trabalha em público com o seu corpo, oferecendo-o publicamente. Se o corpo é simplesmente mostrado como é - o que qualquer pessoa pode fazer - não realiza um ato artístico. Se é explorado por dinheiro, ou para ganhar favores do público, a arte do ator aproxima-se da prostituição. É um fato que, durante muitos séculos, o teatro andou associado à prostituição, num ou noutro sentido da palavra. Houve tempo em que as palavras ‘atriz’ e ‘cortesã’ eram sinônimas. Hoje estão separadas por uma linha um pouco mais nítida, não devido a mudanças no mundo do ator, mas porque a sociedade se modificou. Hoje, a diferença entre a mulher respeitável e a cortesã é que se tornou imprecisa.” (José Oliveira Barata. Estética Teatral – Antologia de Textos. Lisboa, Moraes, 1980, p. 194. In: Sayeg-Siqueira, 1995:15)

2. Exemplo com ancoragem baseada no saber partilhado IMPLÍCITO

“Muitas vezes a repetência escolar não é sinônimo de vadiagem. Segundo os especialistas, quando uma criança tem problemas de visão, todo o seu desenvolvimento pode ser afetado e é muito importante que a deficiência visual seja logo detectada e tratada. Mas a maioria dos pais não desconfia que seus filhos possam ter algum problema de visão.
O garoto Jorge Mota, de 12 anos, é um exemplo. Quando não passava de ano, sua mãe achava que ele era preguiçoso e não estudava, mas um exame oftalmológico indicou que ele precisava usar óculos. Segundo os médicos, os testes mostraram problemas na retina do garoto que, provavelmente, surgiram durante a gravidez da mãe, que ingeriu carne de porco contaminada por algum microorganismo. Atualmente, o desempenho escolar de Jorge, que já tinha repetido três vezes, melhorou muito.
O programa Ação Preventiva da Saúde Visual, realizado no ano de 88 em 47 escolas da Zona Leste da Capital, testou 22 mil alunos. Desse total, 3.353 apresentaram algum tipo de deficiência visual. Os dados mostraram que de 100 crianças, 15 apresentaram necessidade de passar por consulta oftalmológica e, destas, oito precisavam de óculos, ou seja, 8% do total dos alunos matriculados. ”(Diário Popular. São Paulo, 06.05.90.p. 04. In: op.cit. p.16)”.

3. Exemplo com ancoragem baseada em fatos

“Winston Churchill foi um aluno medíocre. Albert Einstein teve um desempenho tão ruim no 2º. grau que seus professores o aconselharam a desistir. E o escritor cubano Cabrera Infante costumava dizer: ‘Minha educação foi interrompida aos 4 anos , quando entrei no jardim de infância’. Longe de querer insinuar que as crianças que não se dão bem com estudos têm maiores chances de se tornar primeiro-ministro, gênio ou romancista famoso, os exemplos acima apenas demonstram um fato: Ter filhos que desenvolvem verdadeira alergia pelo ensino é mais comum do que se pensa e ocorre nas melhores famílias.” (Revista Cláudia, São Paulo:Abril, junho/ 1990. P. 129. In: op. cit. p. 17)

4. Exemplo com ancoragem baseada numa citação

SOBRE REMADORES E PROFESSORES

Eu gostaria de começar estas reflexões sobre o problema da pesquisa em educação com esta citação que retirei de A Imaginação Sociológica, de C. Wright Mills:
‘ A precisão não é o único critério para a escolha do método e não deve ser confundida, como ocorre, com freqüência, com o empírico ou o verdadeiro. Deveríamos ser tão precisos quanto formos capazes em nosso trabalho sobre os problemas objetos de nossa atenção. Mas nenhum método, como tal, deveria ser usado para delimitar os problemas que tomamos, quanto menos não fosse pelo fato de que as questões mais interessantes e difíceis de método começam, habitualmente, quando são aplicáveis a técnicas consagradas.’
Introduzo o problema do método logo de saída, porque freqüentemente a ciência é definida em função do seu método. Pensa-se que produzir conhecimento científico é a mesma coisa que produzir um conhecimento metodologicamente rigoroso, ignorando-se totalmente a significação ou relevância do conhecimento produzido. Michael Polanyi, uma discussão deste assunto, cita o caso do físico alemão Friedrich Kohlrausch (1840-1910), que declarou, numa discussão acerca dos objetivos das ciências naturais, que ele estaria perfeitamente feliz em simplesmente determinar com precisão a velocidade da água que se escoa pelo esgoto. Ele se equivocou totalmente acerca da natureza do valor científico, Polanyi observa; pois a precisão de uma observação não a torna automaticamente de valor para a ciência.
Não há dúvidas de que uma das marcas da ciência é o método de que lança mão. Mas o uso rigoroso de um método não pode ser o critério inicial e final na determinação da pesquisa. Muitas questões absolutamente irrelevantes podem ser tratadas com rigor metodológico, como a velocidade da água escorrendo no esgoto. Depois de uma pesquisa realizada nos Estados Unidos acerca das tendências de meninos e meninas, na escola primária, os pesquisadores chegaram a conclusão de que os meninos se inclinam para atividades do tipo carpintaria e esportes, enquanto as meninas preferem brincar com bonecas. E para justificar a trivialidade das conclusões obtidas com métodos sofisticados acrescentaram: Antes nós simplesmente pensávamos que era assim. Agora nós sabemos que é assim.”(Rubem Alves. Conversas com Quem Gosta de Ensinar. São Paulo:Cortez, 1981. pp. 65-66.In: op. cit. p. 18)

5. Exemplo de uma ancoragem baseada num problema

“Até onde sei, por conhecer várias pessoas que têm filhos em idade escolar, há muitos anos as crianças não aprendem como se faz redação. Não se aplica mais o ditado. Agora é só trabalho de grupo. Os pais têm de comprar cartolina, procurar figuras e ter máquinas de escrever, pois muitas vezes os professores exigem que o trabalho seja datilografado. Não me consta que a criança saiba escrever à máquina e é aquela guerra em casa. A criança cola a figura, escreve qualquer coisa e o trabalho é apresentado. As crianças que têm pais instruídos ficam em melhor situação. As que não têm, acabam sem saber coisa alguma.” (Carta do leitor L.C.C. O Globo. Rio de Janeiro, 20.03.1977. In: op. cit. p. 18,19)
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Referências bibliográficas

SAYEG-SIQUEIRA, João Hilton. Organização do Texto Dissertativo: São Paulo: Selinunte, 1995

CITELLI, Adilson. O Texto Argumentativo: São Paulo: Scipione, 1994

terça-feira, 16 de março de 2010

Minhas bunda

Por Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

A parte carnosa do corpo formada pelas nádegas.


A principal diferença entre a revista Playboy americana e a Playboy brasi¬leira é a língua? Errado. É a bunda.
Na americana, temos seios, úberes, verdadeiras tetas que mal cabem nas páginas duplas. Na nossa, temos bundas. Bundinhas de penugem loira, bundinhas de contorno marrom, até bundinhas cor-de-rosa.
Americano não gosta de bunda? Eu diria que americano não conhece a bunda. Aliás, no mundo inteiro, não existem bumbuns como os nossos, ou melhor, como as nossas. A bunda é um produto interno e bruto tipica¬mente brasileiro. Às vezes, a revista americana faz edições especiais sobre seios. Aqui, fazemos verdadeiros compêndios sobre (e sob) bundinhas. Narcisamente, o brasileiro adora a própria bunda.
Mas de onde veio a nossa bunda? Não das alvas portuguesas, muito menos das esparramadas italianas e, menos ainda, das desbundadas japone¬sas. Muito menos das amassadas índias. Sempre me intrigou esta tanajúrica pergunta. Quem arrebitou com pincel de ouro, com formão de prata, a bundinha brasileira?
Tinha essa dúvida até conhecer Cabo Verde, um país de dez vulcâni¬cas ilhas na costa oeste da África. Quase fora do mapa. Foi lá que tudo começou.
O país tem, atualmente, mais ou menos, 300 mil bundas ambulan¬temente espalhadas pelo arquipélago. Bundas livres de Portugal desde 1975. E a bunda brasileira, antes de chegar aqui, passou por lá, vindo do continente africano. Ou seja, foi lá que inventaram a fórmula, lúdico, o molde mais que esteticamente perfeito. A bunda politicamente correta. Tenho certeza dessa afirmação e vou tentar provar.
Foi em Cabo Verde que surgiram as primeiras mulatas. Apesar de a palavra mulata ter origem espanhola, o conteúdo foi uma criação dos ingleses, holandeses e dos franceses que por lá passavam desde o começo do século XVI, com seus navios negreiros trazendo escravos para o Brasil. Lá era o point no meio do Atlântico. E lá os brancos deixaram o sêmen (do latim sêmen, que significa semente) para a fabricação das mulatas com suas respectivas bundas. Gostavam tanto das cabo-verdianas que Sir Francis Drike, pirata-mor daqueles tempos, chegou até a saquear o país em 1590 a tal Companhia das Índias Ocidentais. O saque durou sete anos e milhares de sementes foram im(plantadas). Tinham sacado a bunda.
Esta mistura deu a cor atual das nativas. Não são negras como vizinhas senegalesas, são marrons. Ou castanhas, como preferem. E lindas. As cabo-verdianas são lindas. Uma espécie de Sônia Braga bem queimada. Olhos claros como dos piratas bisavós. Uma porção de Patrícia França.
Fica difícil descrever a bunda das mulheres de Cabo Verde. Tem que ver para crer. São Tome não acreditaria em seus próprios olhos. Mas olhando uma delas passar, você percebe que ela está no doce balanço a caminho do mar (do Brasil).
Um dia estava com um amigo português, o cineasta Paulo de Souza, especialista em cinema africano, numa praça de Mindelo, a capital intelectual do país e das bundas (a capital do país chama-se Praia, pode?). Eis que passa na nossa frente uma bunda vestida com uma minissaia verde. Justíssima. Não tivemos dúvida. Seguimos a bunda por vários quarteirões em homenageante silêncio, até que ela entrou numa casa e nós voltamos para a praça sem a necessidade de dizermos nenhuma palavra um para o outro. Era uma obra-prima da natureza aquela menina. De noite, lá pelas duas da manhã, estou eu no meu hotel a dormir e batem na porta. Era o Paulo que havia ido a uma boate. Estava trêmulo, suado:
— Vem, vem, lembra daquela bunda?
— Estava sonhando com ela.
— Veste, veste! Ela está na boate. A bunda está dançando na boate. E lá fomos nós dois para a boate. Não só a "nossa" bunda de verde (agora num fulgurante amarelo) dançava, mas uma infinidade delas, espetáculo.
Só que, no princípio, era o verbo e não a carne e, naquele tempo, na época do tráfico dos escravos, quando surgia a bunda no meio do Atlântico, qual ilha vulcânica, a bunda ainda não se chamava bunda. Como, aliás, até hoje em Portugal não se chama. Bunda só no Brasil. Em Portugal a bunda é um cu.
Mas foi na mesma África que fomos buscar a sonoríssima e mais do que adequada palavra bunda. Diz a lenda que a origem seria das danças dos africanos. Ficavam as mulheres dançando no meio e o crioléu em volta batendo tambor e fazendo som com a boca: bun-da!,bun-da! Mas isso é lenda. Na verdade, a palavra veio da língua quimbundo (kimbundu), da palavra bunda (mbunda, tubundas, elebunda?), lá para os lados de Angola, local onde viviam os bantos, raça negra sul-africana à qual pertenciam, en¬tre outros, os negros escravos chamados no Brasil angolas, cabindas, benguelas, congos, moçambiques.
Nós, brasileiros e cabo-verdianos, nascemos com a bunda virada para a lua.

( PRATA, Mário. Minhas bunda. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007).

UNIDOS POR UMA MESMA LÍNGUA

Já não se fala mais português como antigamente. Todos os brasileiros que vão a Portugal voltam impressionados com as diferenças de expressões entre os dois países irmãos. Com o passar do tempo, deixamos de usar várias palavras, eles lá inventaram novas e nós aqui criamos também um monte delas. A verdade é que, se hoje um repórter português viesse de Portugal para o Brasil para fazer uma entrevista com o presidente Itamar, é bem provável que os dois necessitassem de um bom intérprete.

Repórter: Vossa excelência já deita ao desprezo o corrido nas celebrações do mardi-gras ou sente-se ressabiado?
Intérprete: O senhor não dá mais importância ao que aconteceu nas comemorações do Carnaval ou ainda está aborrecido?
Itamar: Claro que dou, mas o que interessa é desaparecer a miséria do nosso povo.
Intérprete: Óbvio que sim, porém o que me apetece é escafeder-se a dependura da nossa plebe.
Repórter: Consta cá que alguns dos seus ministros vivem a dize-tu-direi-eu. Vossa excelência não acha que é contra?
Intérprete: Dizem por aqui que alguns dos seus ministros vivem em grande discussão. O senhor não acha que isso é ruim?
Itamar: É mentira.
Intérprete: É peta.
Repórter: Pois. Se calhar também é peta o paredão dos voadores e hospedeiras que cá por pouco ocorreu?
Intérprete: Sei. Vai ver que também é mentira a greve dos pilotos e das aeromoças que aqui quase aconteceu?
Itamar: Não, não é mentira. Como também não é mentira acontecer greves dos bancários.
Intérprete: Quais peta quais nada. Como por suposto não é peta ocorrer paredões de amanuenses dos armazéns de finanças.
Repórter: E a inchação?
Intérprete: E a inflação?
Itamar: A inflação está sendo combatida. Temos agora um plano sensacional.
Intérprete: A inchação está a ser fustigada. Possuímos de momento um projeto bestial.
Repórter: E a questão do recato de feira no setor dos ordenadores? De que forma arranjou-se?
Intérprete: E o problema da reserva de mercado na área dos computadores? De que jeito foi solucionado?
Itamar: Pois não, isso não existe mais.
Intérprete: Pois sim, isto cá já não há.
Repórter: Por suposto a USA está a querer atalaiar as taxas sobre os vossos productos como os calçados de cabedal?
Intérprete: É claro que os Estados Unidos estão querendo controlar os impostos sobre os seus produtos, como os sapatos de couro.
Itamar: É.
Intérprete: Sim.
Repórter: Grato. Soube-me muito bem o cafezinho e a conferência.
Intérprete: Obrigado. Gostei muito do cafezinho e da entrevista.
Itamar: Não há de quê.
Intérprete: Não há de quê.
Repórter: Mas que coincidência, pá! Então vocês cá também dizem não há de quê?
......................
(Revista Veja, 15/03/1994: 22).In: TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2 º graus. São Paulo: Cortez, 1996.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O que faz de alguém um escritor?

Situação de aprendizagem 2 – O que faz de alguém um escritor?

Conteúdos e temas: conceito e definição de argumentação; texto argumentativo: artigo de opinião; co-nectores: conjunções.
Competências e habilidades: distinguir enunciados objetivos e enunciados subjetivos; reconhecer as lin¬guagens como elementos integradores de comunicação.


Atividade 1- Exercício de sondagem

1. Os trechos a seguir foram retirados de jor¬nais. Indique quais são parte de uma notícia (ou reportagem) e quais são parte de um artigo de opinião:

Trecho I: "(...) O Brasil precisa de agricultura livre de transgênicos para suprir o mercado inter¬no com alimentos saudáveis e baratos e, de¬pois, vender aos ricos mercados da Europa, Japão e China, que rejeitam OGMs. (Organismos Geneticamente Modificados) Eles pa¬gam até 10% a mais para se ver livres do mi¬lho 'frankenstein'*. A soja certificada como não-transgênica recebe dos europeus prêmio de até 8 dólares por tonelada (...)."

Trecho II: "(...) A discussão em torno da possível criação de uma zona livre da plantação de grãos transgênicos nos Estados do Paraná e de Santa Catarina causou reação do gover¬no do Rio Grande do Sul. Enquanto para¬naenses e catarinenses analisam supostas vantagens econômicas com a produção de alimentos sem modificação genética, gaú¬chos apostam que os produtores irão rejei¬tar determinações contrárias à libertação do cultivo de sementes transgênicas (...)."

Trecho III: (...) Na última safra, mais de 80% da soja plantada no Estado (RS) foi transgênica. Os agricultores gaúchos esperam a deci¬são do governo para saber se poderão uti¬lizar sementes do organismo modificado geneticamente para a próxima safra ou não.Publicamente, já disseram que, mesmo que sem permissão, pretendem repetir o uso (...)•"


2. Justifique sua resposta à questão anterior dizendo por que definiu os textos como notí¬cia ou como artigo de opinião.
3. Qual o assunto dos três textos?
4. Identifique nos trechos de opinião qual questão está sendo discutida e qual a posição do autor em relação a ela.

Atividade 2

"Em um texto dissertativo, o objetivo do autor é mostrar para seus leitores que ele tem razão em pensar daquela maneira."

Leia o texto seguinte para responder o que é sugerido

A redação e o vestibular

A redação nos chamados grandes ves¬tibulares não é bem o que se apregoa no Ensino Médio. Para atender ao que Unicamp, Unesp e USP, por exemplo, pedem a seus fu¬turos alunos, o candidato deve conseguir su¬perar o modelo oferecido pela maioria dos colégios e cursinhos.
Uma redação que siga uma estrutura mui¬to divulgada de introdução, com resumo do assunto abordado, desenvolvimento genérico do tema proposto e conclusão retomando a introdução, consegue no máximo uma nota mediana. Muitas redações mal pontuadas escondem o triste paradoxo de o candidato acreditar que havia feito um bom trabalho. (...) Antes de tudo, o perfil que as consideradas grandes universidades procuram é o do aluno que tenha algo a dizer. Por exemplo, o tema des-te ano da FUVEST, o tempo, exigia uma abstração ao mesmo tempo científica, sociológica e filosó¬fica, que não é comum na escola brasileira e não faz parte do cardápio usual dos cursinhos.
Sobre um tema como o tempo, muitos con¬seguiriam, nesse último vestibular, citar concei¬tos de sala de aula como "o tempo é relativo" ou "o passado explica o presente". Contudo é re¬duzido o número dos que justificariam razoavel¬mente tais teses fugindo de clichês mal formula¬dos, como "se Hitler tivesse estudado o passado, não teria repetido o erro de Napoleão, ao inva¬dir a Rússia no inverno". Poucos pensariam na possibilidade de Hitler dispor de um arma¬mento superior ao que Napoleão utilizara um século antes. A questão poderia ser não de desconhecimento histórico, mas de orgulho e crença na tecnologia da época.

1. Qual o assunto tratado e a opinião do autor a respeito. Escreva essa opinião em uma frase.

2. Qual o argumento que sustenta a opinião do autor apresentada na introdução do
artigo A redação e o vestibular!Que exemplo ele fornece de seu argumento?
.............................................................
Uma boa argumentação exige que se discu¬ta uma questão controversa ou polêmica.

O que é uma questão controversa?
Nes¬te nosso estudo, chamamos de questão controversa, questão polêmica ou tese a afirmação cuja resposta não seja única, per¬mitindo, então, que se assumam diferentes posicionamentos. Se eu disser "A água é importante para a vida humana", não temos uma questão controversa, pois ninguém, com alguma medida de boa saú¬de mental, vai questionar essa afirmação. No entanto, se eu disser que "o trabalho infantil des¬respeita os direitos da criança", algumas pessoas concordarão; outras discordarão. Trata-se, cer¬tamente, de uma questão controversa. As questões controversas podem tanto ser de caráter particular como geral. A decisão entre "ficar" com um (a) menino (a) ou não é uma questão particular e não seria matéria para um artigo de opinião. Entretanto, ques¬tões sobre política, assuntos científicos, sociais e culturais são de interesse geral, visto que afe¬tam de uma forma ou de outra, grande núme¬ro de pessoas direta ou indiretamente. Além disso, não podemos confundir ques¬tão polêmica (ou tese) com assunto. Quando falo "o aborto" ou "as drogas" não tenho uma questão polêmica, mas um assunto. Sobre aborto e drogas eu posso ter as mais diferentes questões polêmicas. Por exemplo:
O aborto é um crime; o aborto é uma solução; as drogas prejudicam a saúde humana; as drogas prejudicam a economia de um país.

Atividade 3

Leia atentamente os trechos a seguir e identifique a questão controversa subjacente.

Trecho I: Prevenir é um grande trunfo para vence mais algumas batalhas contra a Aids; no entanto isso muitas vezes é ofuscado pelo desejo e esperança que cercam a busca pela cura: a pesquisa científica, a vacina, o avanço no desenvolvimento de medicamentos e a melhoria na assistência que apresenta um caráter de maior urgência e de resultados imediatos. Assim, de maneira geral a prevenção acaba ocupando uma posição secundária dentro das políticas de saúde voltada à Aids, sendo abordada em ações pontuais e isso ladas e desarticuladas entre si, que não resultam em mudanças de impacto e sustentáveis.

Trecho II: O que me espanta é que os jovens se quei¬xem de que têm poucas fontes de conhecimen¬to da sexualidade. Só nas últimas décadas, a escolas começaram a introduzir o tema nas salas de aula, assim mesmo com ênfase na hi¬giene corporal, tendo em vista as DSTs. A fa¬mília, aos poucos, começa a derrubar tabus exceto nas classes populares, onde a falta de conhecimento obriga os jovens a aprenderem “na rua", como se dizia na minha geração, Hoje. "aprende-se" na televisão. Primeiro, com a exacerbação do voyeurismo, tipo Big Brother. É o bordel despejado, via eletrônica, no quarto das crianças ou na sala da casa. Sem que famílias, escolas e igrejas cuidem da educação do olhar de crianças e jovens.

Trecho III: As empresas de motoboys estavam a mil, cada motoqueiro ganhava um salário que compensava o risco, assim como também foram os lotações. Agora vai começar o cadastramento, o controle, e a verdade é que o Estado está organizado para não deixar que a elite perca poder econômico e político, es¬tão todos preparados para boicotar qualquer tentativa de crescimento da classe tida por eles como mais baixa, que na real somos nós.
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Frankenstein'*: Está relacionado a um romance de terror gótico com inspirações do movimento romântico, de autoria de Mary Shelley, escritora britânica nascida em Londres. O romance relata a história de Victor Frankenstein, um estudante de ciências naturais que constrói um monstro em seu laboratório (Disponível em: . Acesso em: 15 mar.2010).
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Referência bibliográfica
São Paulo (Estado). Secretaria da Educação. Caderno do professor: Língua Portuguesa. Ensino Médio, 2ª série. vol. 1,pp. 18-28/2009.
(prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

sábado, 13 de março de 2010

EMPRÉSTIMOS: ACEITÁ-LOS OU “DELETÁ-LOS”?

Por prof. CELSO ANTÔNIO BACHESCHI

Considerações iniciais

É escusado dizer que a língua é parte integrante da cultura de um povo. É por intermédio da língua que vemos o mundo, e o uso da língua é onipresente em nossas atividades sociais cotidianas. O próprio significado da palavra “vernáculo” – “aquilo que é próprio de determinado povo” e “a língua falada por determinado povo” – atesta a forte ligação entre língua e cultura.
No entanto, a língua, como a cultura, não é estática; e um dos fatores que levam a alterações culturais e lingüísticas – que caminham pari passu – é o contato entre povos de culturas e línguas diversas. Esse não é um fato novo, fruto da globalização; prova disso é o fato de que muitas palavras do grego nos chegaram através do latim. A influência grega na língua latina foi tão forte, que as letras k e z foram incorporadas ao alfabeto latino no século I, para serem empregadas na grafia de certas palavras gregas. A língua latina, contudo, não se descaracterizou devido a essa “ameaça externa”; ao contrário, enriqueceu-se, frutificou e gerou pelo menos dez “descendentes diretas”, entre elas, o português. Além disso, forneceu grande parte do léxico de outras línguas modernas como o alemão e o inglês. O declínio do latim e do grego clássico foi simples fruto da evolução desses idiomas.
O português vem recebendo influência de diversas línguas desde seus primórdios. Uma língua de camponeses, que dispunham de um léxico limitado para as necessidades do dia-a-dia, para fornecer meios que permitissem a expressão de conceitos mais elevados, teve de ampliar seu léxico; e, no caso do português, era natural que se recorresse à língua matriz, o latim. Isso explica o fato de os cultismos terem feições latinizadas, em comparação com as palavras que percorreram, na boca do povo, todo o longo caminho desde a origem latina até sua forma atual. Paralelamente, novas palavras são formadas dentro da própria língua portuguesa por meio de processos conhecidos (composição, sufixação, derivação regressiva etc.).
Uma terceira fonte vem então compor o léxico da língua portuguesa: o empréstimo. Esta fonte, no português, também não constitui inovação contemporânea. Os árabes, que dominaram a Península Ibérica entre os séculos VIII e XV, contribuíram com várias palavras, algumas delas de uso cotidiano como “zero” e “açúcar”. Com a influência da cultura provençal, mais palavras eram incorporadas ao português. O espanhol, dada a proximidade geográfica, naturalmente foi outra fonte de empréstimos. No Brasil, a língua portuguesa recebeu também a influência de línguas indígenas locais e africanas. Além dessas línguas, ainda são fontes do léxico português muitas outras como o alemão, o francês, o inglês, o italiano, o japonês, o chinês, o sânscrito, o persa, o cingalês, o malaio e outras. Apesar de todas essas influências, não sentimos dificuldades ao lermos, hoje, um soneto camoniano, composto no século XVI, porque a sintaxe da língua pouco se alterou de lá para cá.

1. A defesa da língua

A primeira medida de política lingüística adotada no Brasil ocorreu ainda no período da Colônia, quando o Marquês de Pombal, temendo pelo desaparecimento da língua portuguesa em nossas terras, proibiu o uso da língua geral – ou das línguas gerais, que eram línguas indígenas amplamente faladas no Brasil. Se essa medida foi correta ou não, parece-nos totalmente inócuo discutir.
No século XIX, a França era o grande centro irradiador de cultura do mundo. No Brasil, os escritores franceses alcançavam grande sucesso (considerando o pequeno público leitor brasileiro), e tudo que fosse francês era tido como moderno e progressista (cf. Hallewell, 1985: 129). Em conseqüência, multiplicavam-se os galicismos que se integravam ao português. Os defensores do purismo da linguagem dessa época propunham listas de neologismos, cunhados a partir do latim, para substituí-los. Um dos poucos a serem aceitos foi cardápio, formado pelo filólogo Castro Lopes, para substituir o galicismo menu. A influência também se fazia sentir na sintaxe, e os puristas condenavam o uso de expressões como estar ao telefone. A reação foi baldada, e o abajur triunfou inexoravelmente sobre o lucivelo e o quebra-luz. Em alguns casos, como bufê (ou bufete), a reação foi contrária; e muitos falantes preferem a forma francesa, seja por ignorar a forma aportuguesada, seja por achar a forma gálica mais “chique”.
No século XX, com o advento do futebol, vários anglicismos foram introduzidos no português. Propôs-se substituir o próprio nome do esporte, que passaria a chamar-se ludopédio, mas a tentativa novamente não obteve sucesso. Com o tempo, as palavras foram-se conformando ao gênio da língua portuguesa e gerando outras, como goleiro, de gol (< inglês goal) + -eiro. A palavra gol, no entanto, não se adaptou ao sistema flexional do português; e o plural gols, tachado de barbarismo, prevaleceu sobre as formas gois e goles (cf. Houaiss, 2001). Com o desenvolvimento da tecnologia norte-americana, os anglicismos proliferaram; e alguns deles, como air bag, até hoje não têm formas vernáculas equivalentes. O grande afluxo logo gerou modismos, como o anglicismo sintático de expressões como “vou estar fazendo”. Também quanto aos anglicismos, algumas formas aportuguesadas parecem, por algum motivo, menos prestigiadas que suas correspondentes “puros-sangues”, como no caso do vocábulo recorde, em cuja pronúncia freqüentemente ocorre o hiperbibasmo, à moda ianque: *récorde.
Recentemente, o Deputado Federal Aldo Rebelo propôs um projeto de lei para combater o uso de palavras e expressões estrangeiras, prevendo punição aos infratores. O projeto, a nosso ver, contém alguns equívocos. Em primeiro lugar, porque pressupõe que a língua seja homogênea e estática, enquanto a sabemos heterogênea e dinâmica. Além disso, parece interpretar ipsis litteris a imagem de Saussure segundo a qual todos os falantes de uma língua dispõem de um mesmo “dicionário”, do qual fazem uso a cada ato de fala, esquecendo-se de que língua é sintaxe, e não léxico. Sabe-se que o inglês e o alemão, como já dissemos, sofreram, devido à ocupação romana, profunda influência do léxico latino e, ainda assim, não se tornaram línguas neolatinas, nem a estas se assemelham quanto à estrutura sintática. A influência estrangeira sobre a sintaxe portuguesa é praticamente desprezível e, muitas vezes, não se sustenta devido a sua própria estranheza, como no caso do quasímodo “vou estar fazendo”. A isso ainda se pode acrescentar que parte considerável dos estrangeirismos são modismos e, como tal, não perduram. Aqueles que perduram, como sinuca (< inglês snooker), geralmente acabam-se conformando à língua portuguesa quanto à fonologia, à flexão e, finalmente, ao sistema ortográfico (com raras exceções, como o citado plural gols). Por fim – e este nos parece o maior equívoco –, o projeto parece estar baseado no princípio simplista da onipotência da lei, segundo o qual basta que se crie uma lei para que um determinado problema seja resolvido.

2. Mas, afinal, por que se usam estrangeirismos?

Partindo do conceito saussuriano de significante e significado, ou seja, a associação que se faz entre um conceito e uma imagem acústica (Saussure, s/d: 79), podemos compreender uma das razões dos empréstimos: com o surgimento de um novo conceito, este, ao difundir-se para além das fronteiras do país em que surgiu, carrega consigo a imagem acústica à qual é associado em sua origem.
No caso de um país como o Brasil, em que o hábito é receber palavras por empréstimo, quatro caminhos podem ser seguidos:

1. conservação pura e simples do estrangeirismo em sua forma original, como show;
2. aportuguesamento do estrangeirismo, como contêiner, adaptando-o ao sistema flexional vernáculo (plural: contêineres);
3. tradução do estrangeirismo, como disco rígido por hard disc;
4. criação de neologismo para substituir o estrangeirismo, como em cardápio por menu.

As opções 3 e 4, a nosso ver, só têm possibilidade de prosperar quando a forma vernácula é amplamente acolhida pelos meios de comunicação em massa. Numa breve pesquisa nos manuais de redação dos jornais de maior circulação no Brasil, constatamos que não há um posicionamento em relação ao emprego de estrangeirismos, mas apenas listas indicando como grafá-los.
Grande parte dos estrangeirismos, no entanto, não surge em função de novos conceitos, técnicas e produtos. Há os que não trazem nenhum significado novo, não vêm suprir nenhuma necessidade de expressão e vão de encontro ao conteúdo do item 4 da enumeração acima, ou seja, são palavras estrangeiras que são empregadas em substituição às vernáculas. Dificilmente encontraremos um falante que possa explicar coerentemente por que prefere fashion a moda, delivery a entrega, pole position a primeira posição; ou saiba diferenciar inicializar de iniciar.
Lembremo-nos dos dois significados da palavra “vernáculo”, com que iniciamos estas considerações, e concluiremos que o âmago da questão está na relação entre o povo e a língua. Língua é tradição, e o povo que valoriza suas tradições valoriza sua língua, o que não implica necessariamente propostas xenofóbicas ou antiimperialistas de banimento de estrangeirismos. O Brasil definitivamente está longe de ser um país em que existe apego às tradições. Não cultuamos grandes figuras históricas, não reconhecemos o valor de nossos melhores escritores, temos baixa auto-estima, e convivemos com uma opinião geral de que qualquer produto importado é, por definição, melhor que o nacional. Isso também explica por que, mesmo em produtos feitos no Brasil para o mercado interno, lê-se “power” e não “ligar”, “open” e não “abrir”, “push” e não “aperte”, sem esquecer o singular caso do botão “delete” dos teclados, que deu origem ao verbo “deletar”. Os nomes de batismo são particularmente reveladores da nossa cultura, dada a valorização que se dá aos nomes grafados de modo divergente do sistema ortográfico do português (com ph, th, ch – como Christina –, k, w, y e consoantes geminadas como nn, ll, pp, tt etc.), a Washington, Jefferson, Michele e, às vezes, a criações teratológicas como Maicon (por Michael), Deivid, Ueliton etc.
São conhecidos os casos de personalidades públicas de destaque que alcançaram grande popularidade porque “falavam bem”, “falavam difícil”. Essas pessoas sabiam que o cidadão comum – que julga não saber “falar bem” – valoriza o que, muitas vezes, não compreende. O mesmo ocorre quanto ao empréstimo. Um falante, ao construir um enunciado cheio de intercalações de termos técnicos e em língua estrangeira, sente que se está colocando acima do “povo comum” e julga que será visto como uma pessoa sofisticada, que provavelmente conhece o exterior e domina uma língua de maior prestígio. Sendo a língua um instrumento de poder, o estrangeirismo gera, no falante, uma impressão de estar associando-se aos poderosos.

Considerações finais

Vimos que o empréstimo não constitui uma inovação das línguas contemporâneas, uma vez que já era comum na Antigüidade, assim como o foi no português arcaico e em outras línguas. Isso nos leva a concluir que – hoje, talvez, mais do que ontem – se trata de um fato contra o qual é inútil lutar, por mais que os abusos e as formações estranhas ao espírito do português possam incomodar-nos.
A questão do empréstimo está diretamente ligada à questão do prestígio, e o que se passa em relação à língua é um reflexo da sociedade. Devemos sempre apoiar as iniciativas que visem a valorizar a língua portuguesa, sem confundi-las com a xenofobia ideológica, nem recorrer a soluções punitivas. Concluímos, finalmente, que só se muda a relação que entre a sociedade e a língua, mudando-se a própria sociedade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HALLEWELL, Laurence. O Livro no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz, 1985.

HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico Houais da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 1 CD-ROM.

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Lingüística Geral. 11. ed. São Paulo: Cultrix, s/d.

Narrativa Oral

Narrativa Oral – uma jovem de 17 anos de idade,Rio de Janeiro,1993.

Texto Original

F1 - e::...Claire ...agora pra terminar ...eu quero que voce ...dê a sua opiniao pra mim...ou sobre...amizade...namoro...vocaçao...vestibular...

F2 – eh ...eu vou falar sobre a minha família....sobre os meus pais...o que eu acho deles....como eles me tratam....bem...eu tenho uma família....pequena ...ela é composta pelo meu pai...pela minha mãe .... pelo meu irmão ...eu tenho um irmão pequeno de ... dez anos...eh o meu irmão não influencia em nada.... a minha mãe é uma pessoa superlegal...sabe?
ela ...é uma pessoa que conversa comigo...é minha amiga...ela...me mostra sempre a realidade da vida...ela nunca...ela nunca...esconde nada de mim...né? tenta ver o melhor para mim...me mostra a vida como ela é....entendeu?
o meu pai não...o meu pai já é uma pessoa ....ah....ele ...já....é uma pessoa muito fechada...e... triste...porque a juventude dele...a criação dele...foi uma coisa...foi uma coisa/como é que eu vou dizer? eh ...ele foi criado/os pais dele por um clima de ...autoritarismo...entendeu? meu avô era autoritário...ele não via a justiça ...sabe?entendeu?ele foi criado no Norte...no interior...então aque/as pessoas do interior geralmente têm uma mente mais fechada...entendeu?são uma pessoa tipo...entre aspas...ignorantes...nê?entendeu?então é isso que o meu pai ( ) uma visão assim da vida...então é isso que ele passa pra mim...eu não acho certo...ele acha que...ele acha que a pessoa tem que estudar....trabalhar...entendeu?ele não vê nada...ele não conversa comigo...ele não amostra os pontos de vista dele...a minha família ...nesse ponto...eu acho que é....errada...entendeu?porque eu acho que meu pai ...ele tinha que conversar mais comigo...ele tinha que me amostrar mais os fatos...é isso que eu acho errado...às vezes eu fico revoltada com isso ...ele sabe criticar...criticar...me criticar...me recriminar...dizer que eu estou errada...entendeu? é isso que eu acho da minha família...que eu não acho que é um exemplo ...só isso....
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MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita. Atividade de retextualização, 2.ed.,São Paulo:Cortez,2001,p.112,113.
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Uma das possibilidades de retextualização.
Por prof. Eliorefe Cruz Lima

F1: Claire, para terminar, dê-me a sua opinião sobre amizade, namoro, vocação ou vestibular.

F2: Vou falar sobre a minha família.Ela é pequena, composta pelos meus pais e um irmão de dez anos que não influencia em nada.
A minha mãe é uma pessoa muito amiga.Conversa comigo, mostra-me a realidade da vida.Nunca esconde nada de mim.
Já o meu pai é uma pessoa muito fechada e triste.Ele foi criado no Norte num clima de autoritarismo pelos meus avós.Por isso ele tem uma mente muito fechada.Não tem um ponto de vista próprio nem dialoga comigo.Só sabe me recriminar e criticar.Ele acha que a vida é só trabalhar e estudar.Eu acho esse tipo de comportamento errado.Isso às vezes me deixa revoltada. As atitudes dele contribuem para que a minha família não seja um bom exemplo.

A EXPRESSIVIDADE DA GÍRIA: A GÍRIA DOS VENDEDORES DE CALÇADOS DE SÃO PAULO

Por prof. Celso Antônio Bacheschi

A expressividade da gíria: a gíria dos vendedores de calçados de São Paulo

Considerações iniciais

Em um diálogo ocorrido em um estabelecimento comercial de São Paulo, ouve-se o seguinte enunciado:

O s entrou, procurando forma h, e eu fui dar a matada, quando o M chegou, dizendo que era s procura e me deu uma bicicleta, mas que nada! O s era forma n: encaroçou, encaroçou e, no final, deu-lhe um noventa-e-seis.

O período acima é ”artificial” e foi elaborado apenas para ilustrar o caráter criptológico da linguagem dos vendedores das lojas de calçados de São Paulo. A seguir, apresentamos sua “tradução”:

O cliente entrou, procurando um sapato para homem, e eu fui atendê-lo, quando o Maurício chegou, dizendo que o cliente queria ser atendido por ele e tomou a minha vez, mas não era isso. O cliente, na verdade, não queria comprar. Deu-lhe muito trabalho e, no final, foi embora, sem levar nada.

Este trabalho não tem a pretensão de definir precisamente o que é gíria, nem de estabelecer critérios para se diferenciar gíria de jargão; parece-nos significativo, no entanto, que se faça uma certa delimitação do conceito de gíria com o qual se pretende trabalhar. A gíria, dentro dos limites que propomos, será entendida basicamente como linguagem peculiar àqueles que exercem a mesma profissão; portanto, trataremos, sobretudo, da gíria de grupo, ou seja, aquela utilizada pelo falante dentro de um grupo social específico e composta por vocábulos cujo significado foge à compreensão dos indivíduos que não pertencem ao grupo no qual ela é falada. Em posição à gíria de grupo, temos a gíria comum, que é aquela que, originária de um determinado grupo, por meio da interação social, passa a fazer parte do repertório de falantes que não fazem parte do grupo do qual ela se originou. Trataremos desta apenas nos casos em que, ainda que não seja um traço distintivo do grupo pesquisado, um signo de grupo, faça parte de seu vocabulário para fins de interação dentro do grupo. Para demarcar a questão de grupo social, observamos que a gíria dos vendedores de lojas de calçados é uma gíria de grupo secundário (Horton, P. B. & Hunt, C. L. 1981), ou seja, de um grupo constituído para um determinado fim, o que pode explicar o predomínio de vocábulos técnicos sobre os expressivos (Guiraud, P. 1956), como veremos a seguir. Finalmente, em oposição a essas definições, a linguagem de que a gíria não faz parte será chamada, doravante, de linguagem comum.
Este trabalho também não utilizará dados estatísticos quanto à ocorrência dos vocábulos nem de sua origem; mas ocupar-se-á, máxime, dos vocábulos do ponto de vista de sua formação.

1. Breve referencial teórico

Como referencial teórico deste trabalho, utilizamos os conceitos de grupo social presentes em Horton e Hunt (1981). Para análise dos vocábulos, foi utilizado o modelo de Cabello (1991) e o conceito de vocábulos técnicos e vocábulos expressivos de Guiraud (1956). Os conceitos de gíria de grupo e gíria comum foram retirados de Preti (1996).

2. Notícia sobre o material pesquisado

O corpus da presente pesquisa foi obtido por meio de entrevistas realizadas com vendedores e ex-vendedores de lojas de calçados de São Paulo entre os dias 4 e 18 de maio de 2004. Foram entrevistados treze vendedores e quatro ex-vendedores dos bairros de Tucuruvi, Vila Guilherme, Santana (Zona Norte), Alto da Lapa (Zona Oeste) e Vila Maria (entre a Zona Norte e a Zona Leste). Apresentamos, anexo à análise dos exemplos, um modelo do questionário utilizado.

3. Análise dos exemplos

3.1. Vocábulos técnicos e vocábulos expressivos

Entre os vocábulos citados nas entrevistas, há, em maior número, vocábulos técnicos, constituídos em grande parte por simples letras (r, s, l, m, n, h, t, p) ou grupos de letras (st), que, muitas vezes aparecem apostas à palavra-eixo forma (leia-se sempre “fôrma”). O emprego de letras pode ser tomado por abreviatura (h = homem, t = troca, m = mulher, l = ladrão, p = preferência), embora isso não ocorra na maioria dos casos, em que as letras têm, de fato, caráter próprio de código. Empregam-se também alguns números (nove, noventa-e-seis, treze) com o mesmo escopo das letras.
Quanto aos vocábulos expressivos, podemos destacar matada e mata-mata. Para compreendê-los, é necessário um breve esclarecimento. Existem, segundo os vendedores, dois sistemas de atendimento de clientes nas lojas de calçados de São Paulo. Há o sistema de vez, que é organizado como uma fila, em que cada vendedor tem a sua vez de atender o cliente, voltando, após o atendimento ao final da “fila”, independentemente de ter realizado a venda e o sistema de matada ou mata-mata, em que atende o cliente o primeiro vendedor que dele se aproximar. Nesse sistema, o vendedor pode, ao ver o cliente, caracterizar a “matada” através da expressão “s”, dirigida aos demais vendedores, que, nesse caso, tem o significado de “esse cliente é meu”, “sou eu quem vai atender esse cliente”. Matada e mata-mata parecem-nos claramente expressivos, designando, metaforicamente, o cliente como “caça”, “presa” e o vendedor como “caçador”, “predador”.
Outros vocábulos claramente expressivos são caroço e encaroçar, com sentido de “coisa desagradável”, “obstáculo”. O primeiro refere-se ao cliente que dá trabalho ao vendedor, experimentando vários modelos de sapato e, na maioria das vezes, saindo sem comprar; o caroço é o cliente que “encaroça”.
Bicicleta, que significa, nas lojas que adotam o sistema de vez, a ação de um vendedor atender o cliente na vez de outro, parece-nos também expressivo. Associando-se a bicicleta, metaforicamente, à velocidade, o vendedor mais rápido toma a vez do mais lento (ultrapassa-o). Essa interpretação, no entanto, não foi confirmada nas entrevistas.
A metáfora vitamina (cliente) também é bastante expressiva, pois o cliente, mediante a compra e, conseqüentemente, a comissão, representa o que sustenta o vendedor; portanto, metaforicamente, é o que o alimenta. Advirta-se que essa interpretação é nossa e não houve confirmação nas entrevistas.
Quanto ao termo ponta (o melhor vendedor), a associação parece clara: estar à frente. Note-se que essa acepção pode ser encontrada, na linguagem comum, em expressões como “tecnologia de ponta”.
A metáfora chiquita (mercadoria barata) é de uso depreciativo. Atente-se ao fato de que o diminutivo é freqüentemente empregado com sentido pejorativo (povinho, gentinha, timinho etc.).
Finalmente, temos cria (criança), que aparece nas expressões forma com cria [cliente (mulher) com criança] e forma h com cria [cliente (homem) com criança] e foi a única metáfora pesquisada em que há associação a animais; seu uso, porém, é antes criptológico do que pejorativo.
Os demais vocábulos expressivos são tomados da gíria comum. Entre eles, temos mula, mala (redução de mala sem alça, com idéia de coisa difícil de ser manejada), que, entre os vendedores de calçados, equivalem a “caroço”, embaçar (mesmo que “encaroçar”), encalhe (mercadoria pouco vendida), borrachudo, voador, turista e flutuante (cheque ou cheque sem fundos), rodar (perder a venda), estes nitidamente depreciativos, além de grana e pagode, este último associado a pagamento. Observe-se que os vocábulos da gíria comum ocorrem em número bastante reduzido, uma vez que, por não conter o caráter de código, não têm a mesma função da gíria de grupo. Dessa mesma forma, explica-se também o fato de os vendedores preferirem “encaroçar” a “embaçar”, “tomar um noventa-e-seis” a “rodar” e “caroço” a “mala”. O vocábulo treze foi a única ocorrência a revelar a penetração da gíria de outro grupo. Treze (ou código treze), na gíria policial, tem o sentido de “louco” e, na gíria dos vendedores, equivale a “caroço”. Não constituindo signo de grupo, seu uso parece bastante restrito, tendo sido citado uma única vez. A análise dos vocábulos expressivos não revelou a formação de grandes redes metafóricas.

3.2. Formação

Do ponto de vista da formação dos vocábulos, a gíria dos vendedores de calçados mostra-se limitada a poucos processos, sendo predominante a redução em casos como casa (de cliente da casa), vita (de vitamina), nove (de noventa-e-seis), mala (de mala sem alça, este da gíria comum) e, possivelmente, cria (de criança), embora esta última pareça de origem metafórica, a redução às letras iniciais do vocábulo em h (homem), t (troca), m (mulher), l (ladrão), p (preferência), n (noventa-e-seis). Há poucos casos de derivação sufixal: chiquita e borrachudo, ambos de uso pejorativo, além de vocábulos não formados na gíria como matada, flutuante e voador. Mata-mata é caso único de repetição. Os demais vocábulos caracterizam-se pela sua função de código, de linguagem secreta.

3.3. Palavra-eixo

Como palavra-eixo, encontramos forma, que é facilmente associada a sapato (peça de madeira que imita o pé, usada no fabrico de calçados) e que pode ocorrer isolada ou em combinações: forma, forma com cria, forma h, forma h com cria, forma l, forma m, forma n, forma r e forma t.

3.4. Construções verbais

Como observa Cabello (1991), o verbo preferido em construções da gíria é o verbo dar. No corpus pesquisado, ele aparece nas construções dar uma bicicleta, dar uma matada, dar um borrachudo ou dar um voador, dar um noventa-e-seis ou dar um nove e dar um r (vender o produto acima do preço, para ficar com a diferença) ao lado do verbo tomar, que ocorre em tomar uma bicicleta, tomar um noventa-e-seis ou tomar um nove.

3.5. Efemeridade

Em geral, a vida da gíria dentro da língua segue um percurso definido: a gíria surge no interior de um determinado grupo social como signo de grupo (gíria de grupo); com as interações entre os grupos, a gíria se difunde para grupos que têm contato com o seu grupo de origem, passando, assim, para a linguagem comum (gíria comum). Desse momento em diante, há duas possibilidades: a gíria cristaliza-se (como legal, cafona, bacana, já dicionarizadas como linguagem comum informal), ou se arcaíza (boco-moco, broto etc.). A partir do momento em que a gíria passa a fazer parte da linguagem comum, ela perde a sua função dentro do grupo e é rapidamente substituída. “Daí a grande efemeridade da gíria. É um vocabulário em constante transformação” (Preti, D. 1996). Essa efemeridade explica o fato de poucas palavras da gíria serem dicionarizadas.
A gíria dos vendedores de lojas de calçados de São Paulo foge a essa regra, porque, segundo a unanimidade dos depoimentos vendedores entrevistados, essa gíria nunca é usada fora do trabalho, conservando sua condição de gíria de grupo. Como a gíria não se torna conhecida por pessoas que não pertencem ao grupo, não há necessidade de substituição; e isso explica o fato, também apoiado na unanimidade dos depoimentos, de que não há substituição de palavras dessa gíria. Note-se que essas afirmações partiram, em alguns casos, de pessoas que estão no ramo de lojas de calçados há vinte anos ou mais; e alguns entrevistados, que afirmaram ter deixado o ramo há dez, doze e até mais de vinte anos, citaram os mesmos vocábulos que foram citados pelas pessoas atualmente em atividade no ramo.
É importante lembrar que, além das interações entre grupos, outro fator concorre para a passagem de vocábulos da gíria de grupo para a gíria comum: a aceitabilidade social. Nos casos pesquisados, como vimos, grande parte dos vocábulos são formados por abreviaturas ou simples letras, e tais formações são pouco comuns na gíria comum (excetuam-se c. d. f., fazer um h, hora h, este por associação a dia d). Vocábulos que expressam situações específicas da profissão, como casa, bicicleta, provavelmente jamais passariam à gíria comum com os mesmos significados, uma vez que seriam muito raras as oportunidades de emprego. Outros vocábulos, no entanto, dada a sua expressividade, poderiam perfeitamente passar à gíria comum. Caroço, por exemplo, tem o mesmo sentido de chato e pentelho; chiquita, de cacareco e tralha. Embora esta pesquisa seja bastante restrita e não autorize asserções peremptórias, parece-nos claro que o único obstáculo à passagem dessas gírias expressivas à gíria comum seja o fato de não serem usadas fora do ambiente de trabalho e que, em não ocorrendo essa passagem, a substituição não se faça necessária.

3.6. Abrangência

Quanto à abrangência da gíria dos vendedores de calçados, pode-se afirmar que os vocábulos pesquisados são empregados em várias regiões da cidade de São Paulo. Foram entrevistados vendedores de diferentes regiões, alguns com experiência em locais diversos dos locais em que atualmente trabalham e todos afirmaram que os mesmos vocábulos da gíria são empregados em todas as regiões da cidade.

3.7. Preconceito

Entre as pessoas entrevistadas na pesquisa, constatou-se uma aceitação irrestrita da gíria. Os vendedores consideram que a gíria facilita o seu trabalho, ressaltam a importância de não serem compreendidos pelos clientes e também destacam o seu caráter “divertido”, sua natureza cripto-lúdica. Houve depoimentos, porém, em que os vendedores afirmaram que seus chefes não aprovam o uso desse vocabulário e até um caso em que o gerente proibiu seu emprego, por considerá-lo “linguagem de malandros”. A proibição, entretanto, era respeitada apenas na presença do gerente. Apesar de o preconceito contra a gíria ter-se reduzido nos últimos anos com a penetração de vocábulos gírios na mídia, como demonstra Preti (2000), nota-se que ainda permanece a associação entre a gíria e a marginalidade.

3.8. Glossário
1. bicicleta: ação ou efeito de tomar a vez de outro vendedor;
2. borrachudo: cheque;
3. caroço: cliente que dá trabalho ao vendedor; cliente que não compra;
4. casa: cliente habitual;
5. chiquita: mercadoria de baixo valor;
6. código: preço;
7. embaçar: dar trabalho ao vendedor;
8. encalhe: mercadoria que está em estoque há muito tempo;
9. encaroçar: dar trabalho ao vendedor; “embaçar”;
10. flutuante: cheque;
11. forma (ô): cliente (mulher);
12. forma (ô) com cria: cliente (mulher) com criança;
13. forma (ô) h: sapato para homem; cliente homem;
14. forma (ô) h com cria: cliente (homem) com criança;
15. forma (ô) l: indivíduo que entra na loja com o objetivo de furtar;
16. forma (ô) m: cliente (mulher);
17. forma (ô) n: cliente que dá trabalho;
18. forma (ô) r: vender sapato de número diferente do qual o cliente procurava;
19. forma (ô) t: troca;
20. grana: dinheiro;
21. h: cliente (homem);
22. h com cria: cliente (homem) com criança;
23. mala: cliente que dá trabalho ao vendedor; cliente que não compra;
24. matada: atendimento, sistema em que não há uma ordem de atendimento para os vendedores; “mata-mata”;
25. mata-mata: atendimento, sistema em que não há uma ordem de atendimento para os vendedores; “matada”;
26. mula: cliente que dá trabalho ao vendedor; cliente que não compra;
27. n: venda perdida; “noventa-e-seis”;
28. nove: venda perdida; “noventa-e-seis”;
29. noventa-e-seis: venda perdida;
30. p: cliente habitual;
31. paçoca: cliente;
32. pagode: dinheiro;
33. ponta: melhor vendedor;
34. preferência: cliente habitual;
35. r: mercadoria pouco vendida; mercadoria que está em estoque há muito tempo; preço; vender sapato de número menor para não perder a venda;
36. rodar: perder a venda;
37. s: cliente;
38. s caroço: cliente que dá trabalho ao vendedor; cliente que não compra;
39. s procura: cliente à procura de um determinado vendedor;
40. st: troca de mercadoria;
41. t: troca de mercadoria;
42. treze: cliente que dá trabalho ao vendedor; cliente que não compra;
43. turista: cheque;
44. vita: cliente;
45. vitamina: cliente;
46. voador: cheque;

Considerações finais

É clara a consciência de que uma pesquisa como a que realizamos não é abrangente o bastante para nos permitir fazer afirmações sobre a totalidade dos vendedores de calçados da cidade de São Paulo, e não se está propondo que as constatações a que chegamos sejam aceitas como uma realidade incontestável. Acreditamos, porém, ter apresentado uma visão da gíria de um grupo social em suas características básicas, ressaltando, como traço peculiar, a sua permanência.

Referências bibliográficas

CABELLO, Ana Rosa Gomes. Processo de formação da gíria brasileira. São Paulo: Alfa, 1991.

GUIRAUD, Pierre. L’ Argot. Paris: P. U. F., 1956.

HORTON, Paul B.; HUNT Chester L. Sociologia. São Paulo: Makron, 1981.

PRETI, Dino. A gíria na cidade grande. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo, vol. 54, jan./dez., 1996.

________. (org.). Fala e escrita em questão. São Paulo: Humanitas Publicações, 2000.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Modelo de Requerimento de 1833 extraído de O Juiz de Paz da roça de Martins Pena

Competências e habilidades:
Conhecer as mudanças da língua e da estrutura do requerimento com o passar dos anos
Aprender a usar a linguagem e estrutura do requerimento moderno do século XXI.

Requerimento de Inácio José

Diz Inácio José, natural desta freguesia e casado com Josefa, sua mulher na face da Igreja, que precisa que Vossa Senhoria mande o Gregório degradado para fora da terra, pois teve o atrevimento de dar uma umbigada em sua mulher, na encruzilhada do Pau-Grande, que quase a fez abortar, da qual umbigada fez cair a dita sua mulher de pernas para o ar. Portanto, pede a Vossa Senhoria mande o dito Gregório degradado para Angola. Espera receber mercê.8

Requerimento / abaixo-assinado de Francisco Antônio

“O abaixo-assinado vem dar os parabéns a V.Sa. por ter entrado com saúde no novo ano financeiro. Eu, Ilmo Sr. Juiz de Paz, sou senhor de um sítio que está na beira do rio, aonde dá muito boas bananas e laranjas, e como vem de encaixe, peço a V. Sa. o favor de aceitar um cestinho das mesmas que eu mandarei hoje à tarde. Mas, como ia dizendo, o dito sítio foi comprado com o dinheiro que minha mulher ganhou nas costuras e outras coisas mais; e, vai senão quando, um meu vizinho, homem da raça do Judas, diz que metade do sítio é dele. E então, que lhe parece, Sr. Juiz, não é desaforo? Mas, como ia dizendo, peço a V. Sa. para vir assistir à marcação do sítio. Manuel André. Espera receber mercê.”

Requerimento de João de Sampaio

Diz João de Sampaio que, sendo ele “senhor absoluto de um leitão que teve a porca mais velha da casa, aconteceu que o dito acima referido leitão furasse a cerca do Sr. Tomás pela parte de trás, e com a sem-cerimônia que tem todo o porco, fossasse a horta do mesmo senhor. Vou a respeito de dizer, Sr. juiz, que o leitão, carece agora advertir, não tem culpa. porque nunca vi um porco pensar como um cão, que é outra qualidade de alimária e que pensa às vezes como um homem. Para V. Sa. não pensar que minto, lhe conto uma história: a minha cadela Tróia, aquela mesma que escapou de morder a V. Sa. naquela noite, depois que lhe dei uma tunda, nunca mais comeu na cuia com os pequenos. Mas vou a respeito de dizer que o Sr. Tomás não tem razão em querer ficar com o leitão só porque comeu três ou quatro cabeças de nabo. Assim, peço a V. Sa. que mande entregar-me o leitão. Espero receber mercê.”

Modelo de Requerimento Moderno – Século XXI

“Se algum dia você precisar se dirigir a uma autoridade para fazer um pedido para o qual necessite ter amparo na lei,deve fazê-lo através de um requerimento.{Este} obedece a uma estrutura bem definida, aceitando-se poucas variações. Em alguns órgãos públicos ou instituições é possível mesmo que exista um modelo pronto para ser copiado ou somente preenchido pelo interessado”.Assim, “requerimentos são instrumentos utilizados para os mais diferentes tipos de solicitações às autoridades ou órgãos públicos.” Vale lembrar de não esquecer de observar o pronome de tratamento adequado para o qual nos dirigimos,para isso,consulte uma boa gramática ,ou outro suporte que trate do assunto.O requerimento pode ser transcrito à mão, geralmente em folha de papel almaço (duplo, se forem anexados outros papéis solicitados), ou datilografado/ digitado em papel (tamanho ofício) sem pauta.

Observe a estrutura simplificada de um requerimento:

Invocação - indicada no alto da folha, na margem esquerda. O pronome de tratamento adequado deve ser seguido do título ou do cargo da autoridade a quem nos dirigimos. Quando o requerimento é datilografado/ digitado, costuma-se escrever a invocação com letras maiúsculas, embora não seja incorreto empregar somente as iniciais em maiúsculas.

Sr. Diretor do Hospital Municipal Ana Nery EXMO. SR. PREFEITO DO MUNICÍPIO DE UBERABA
Texto do Requerimento - após a invocação, deixa-se um espaço de aproximadamente 10 linhas para o início do texto, em espaço dois quando datilografado{ou digitado}.

Deve-se começar o corpo do texto pelo nome do requerente (em maiúsculas ou caixa-alta), seguido de seus dados de identificação- nacionalidade, estado civil, endereço, número da identidade, número do CPF e outros dados exigidos pelo requerimento. Em al¬gumas situações específicas, menciona-se a filiação e os números de outros documentos, como carteira de trabalho, registro profissional, matrícula, etc.

MÁRIO REIS KLEIN, brasileiro, solteiro, residente na Rua Sá Salgueiro, 36, nesta cidade, portador da carteira de identidade n° 3 039 876 -1 (IFP-BA), CPF 665 565 434 - 8
ou

NEILA FRIAS, brasileira, solteira, filha de Nei Frias e Laura Teles Frias, residente nesta cidade, na R. Marfim Ferraz, 156, portadora da cédula de identidade n° 21 324 456 - 2, CPF 221 734 568 - 34, carteira de habilitação 49 974 961 547...
Após a identificação, inicia-se a exposição do que está sendo solicitado. O texto deve ser conciso e bem claro, seguido da justificativa para o que se está re¬querendo (apoio legal, documentos comprobatórios).Emprega-se sempre a terceira pessoa do singular: "vem requerer...")

Fecho - Deve estar situado cerca de três linhas abaixo do corpo do texto, do lado direito da folha (caso se adote a disposição em bloco compacto, deve ficar na margem esquerda).

Em geral o fecho obedece a uma forma fixa, apresentando as seguintes variações:

a)linha única:

Termos em que pede deferimento.
ou
Pede e aguarda deferimento.

b)em duas linhas:

Termos em que
Pede deferimento.
Nestes termos,
Pede deferimento.
Termos em que
Pede e aguarda deferimento.

c)com abreviaturas:

P. A. deferimento.
T. em que
P deferimento.
N. termos,
P deferimento.

Data- Cerca de duas linhas abaixo do fecho escreve-se o nome da localidade e a data completa. A data pode ficar na margem esquerda ou direita, depen¬dendo da disposição adotada.

Goiânia, l 2 de junho de 1996

(À esquerda, quando se utiliza a disposição em bloco compacto.)
Assinatura - A cerca de duas linhas abaixo da data. Não é necessário datilografar/digitar o nome do re-querente abaixo da assinatura, pois já foi menciona¬do no texto.
Deve-se entregar o requerimento, mediante recibo, à seção de Protocolo do órgão ao qual é digido. A informação sobre o despacho da autoridade competente - deferido ou indeferido - também deve ser solicitada nessa mesma seção.
Veja ,a seguir,um “ exemplo de requeri¬mento que você pode tomar como modelo,” e que pode ser adaptado para os diferentes casos.

MODELO 1:
Sr. Diretor da Faculdade de Administração da Universidade Anísio Teixeira
AMANDA LIMA GOMES, brasileira, solteira, residente na R. Gomes Silva, 45, nesta cidade, portadora da carteira de identidade n° 67 231 312 - 2 (IFP-RJ), CPF 234 645 231 - 34, tendo concluído o Curso de Administração de Empresas, nesta instituição, no ano de 1995, vem requerer a concessão de seu diploma de bacharel.

P.A. deferimento.

Niterói, 28 de maio de 1996
Amanda Lima silva
Anexo: Declaração de conclusão de curso

MODELO 2

SOLICITAÇÃO DE INSTALAÇÃO DE DISTRITO POLICIAL

Exmo. Senhor
Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo

Senhor Secretário,

__(nome completo)___, brasileiro(a),__(estado civil)__, __(profissão)__, portador da Cédula de Identidade R.G. nº ___________, residente na Rua _____________, nº ______, Bairro de _________, cidade e Município de _______________, vem à presença de V.Exa. para expor e requerer o que segue:

(Texto e justificativa )
Na localidade em que o requerente reside tem aumentado muito o número de assaltos, agressões e até mortes, dada a insegurança que passou a existir no local nos últimos tempos. Já não é possível transitar com o mínimo de tranquilidade nem mesmo durante o dia. Diante do exposto, a fim de garantir a segurança dos moradores e facilitar o acesso à Polícia, requer a V.Exa. sejam adotadas as providências necessárias para a instalação de um Distrito Policial no bairro, bem como a presença ostensiva de policiamento.


Pede Deferimento



__________________________
Local/data



____________________

Nome/assinatura


Referências Bibliográficas

BORGES, Márcia M. & NEVES, Maria Cristina B. Redação empresarial. Rio de Janeiro: SENAC, 2000.
Sindicato dos Empregados no Comércio de Santos. Disponível em: .Acesso em: 02 mar.2010
PENA, Marins. O Juiz de Paz da roça.