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terça-feira, 16 de março de 2010

UNIDOS POR UMA MESMA LÍNGUA

Já não se fala mais português como antigamente. Todos os brasileiros que vão a Portugal voltam impressionados com as diferenças de expressões entre os dois países irmãos. Com o passar do tempo, deixamos de usar várias palavras, eles lá inventaram novas e nós aqui criamos também um monte delas. A verdade é que, se hoje um repórter português viesse de Portugal para o Brasil para fazer uma entrevista com o presidente Itamar, é bem provável que os dois necessitassem de um bom intérprete.

Repórter: Vossa excelência já deita ao desprezo o corrido nas celebrações do mardi-gras ou sente-se ressabiado?
Intérprete: O senhor não dá mais importância ao que aconteceu nas comemorações do Carnaval ou ainda está aborrecido?
Itamar: Claro que dou, mas o que interessa é desaparecer a miséria do nosso povo.
Intérprete: Óbvio que sim, porém o que me apetece é escafeder-se a dependura da nossa plebe.
Repórter: Consta cá que alguns dos seus ministros vivem a dize-tu-direi-eu. Vossa excelência não acha que é contra?
Intérprete: Dizem por aqui que alguns dos seus ministros vivem em grande discussão. O senhor não acha que isso é ruim?
Itamar: É mentira.
Intérprete: É peta.
Repórter: Pois. Se calhar também é peta o paredão dos voadores e hospedeiras que cá por pouco ocorreu?
Intérprete: Sei. Vai ver que também é mentira a greve dos pilotos e das aeromoças que aqui quase aconteceu?
Itamar: Não, não é mentira. Como também não é mentira acontecer greves dos bancários.
Intérprete: Quais peta quais nada. Como por suposto não é peta ocorrer paredões de amanuenses dos armazéns de finanças.
Repórter: E a inchação?
Intérprete: E a inflação?
Itamar: A inflação está sendo combatida. Temos agora um plano sensacional.
Intérprete: A inchação está a ser fustigada. Possuímos de momento um projeto bestial.
Repórter: E a questão do recato de feira no setor dos ordenadores? De que forma arranjou-se?
Intérprete: E o problema da reserva de mercado na área dos computadores? De que jeito foi solucionado?
Itamar: Pois não, isso não existe mais.
Intérprete: Pois sim, isto cá já não há.
Repórter: Por suposto a USA está a querer atalaiar as taxas sobre os vossos productos como os calçados de cabedal?
Intérprete: É claro que os Estados Unidos estão querendo controlar os impostos sobre os seus produtos, como os sapatos de couro.
Itamar: É.
Intérprete: Sim.
Repórter: Grato. Soube-me muito bem o cafezinho e a conferência.
Intérprete: Obrigado. Gostei muito do cafezinho e da entrevista.
Itamar: Não há de quê.
Intérprete: Não há de quê.
Repórter: Mas que coincidência, pá! Então vocês cá também dizem não há de quê?
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(Revista Veja, 15/03/1994: 22).In: TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2 º graus. São Paulo: Cortez, 1996.

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