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segunda-feira, 22 de março de 2010

Textos de gírias

Por Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

Texto 1.Transcrição de um vídeo exibido na Casa de Detenção, em São Paulo

“Aqui é bandido: Plínio Marcos! Atenção, malandrage! Eu num vô te pedir nada, vô te dá um alô! Te liga aí: Aids é uma praga que rói até os mais fortes, e rói devagarinho. Deixa o corpo sem defesa contra a doença. Quem pegá essa praga está ralado de verde e amarelo, do primeiro ao quinto, e sem vaselina. Num tem dotô que dê jeito, nem reza brava, nem choro, nem vela, nem ai, Jesus. Pegou Aids, foi pro brejo! Agora sente o aroma da perpétua; Aids passa pelo esperma e pelo sangue, entendeu?Pelo esperma e pelo sangue! (pausa)
Eu num tô dando esse alô pra te assombrá, então se toca!Não é porque tu tá na tranca que virou anjo. Muito pelo contrário, cana dura deixa o cara ruim! Mas é preciso que cada um se cuide, ninguém pode valê pra ninguém nesse negócio de Aids! Então já viu: transa só de acordo com o parceiro, e de camisinha! (pausa)
Agora, tu aí que é metido a esculachá os outros, metido a ganhá o companheiro na força bruta, na congesta! Para com isso, tu vai acabá empesteado! Aids num toma conhecimento de macheza, pega pra lá e pega pra cá, pega em home, pega em bicha, pega em mulhé, pega em roçadeira! Pra essa peste num tem bom! Quem bobeia fica premiado. E fica um tempão sem sabê. Daí, o mais malandro, no dia da visita, recebe mamão com açúcar da família e manda pra casa o Aids! E num é isto que tu quê, né, vago mestre? Então te cuida! Sexo, só com camisinha, (pausa)
Quem descobre que pegô a doença se sente no prejuízo e quer ir à forra, passando pros outros, (pausa) Sexo, só com camisinha! Num tem escolha, transá, só com camisinha.
Quanto a tu, mais chegado ao pico, eu tô sabendo que ninguém corta o vício só por ordem da chefia. Mas escuta bem, vago mestre, a seringa é o canal pro Aids. No desespero, tu não se toca, num vê, num qué nem sabê que, às vezes, a seringa vem até com um pingo de sangue, e tu mete ela direta em ti. Às vezes, ela parece que vem limpona, e vem com a praga! E tu, na afobação, mete ela direto na veia. Aí tu dança. Tu, que se diz mais tu, mas que diz que num pode aguentá a tranca sem pico, se cuida. Quem gosta de tu é tu mesmo, (pausa) E a farinha que tu cheira, e a erva que tu barrufa enfraquece o corpo e deixa tu chué da cabeça e dos peitos. E aí tu fica moleza pro Aids! Mas o pico é o canal direto pra essa praga que está aí. Então, malandro, se cobre! Quem gosta de tu é tu mesmo. A saúde é como a liberdade. A gente só dá valor pra ela quando ela já era!"
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(Vídeo exibido na Casa de Detenção, São Paulo) Créditos: Agência: Adag (1988). Realização: TV Cultura / São Paulo. Duração: 2 minutos e 48 segundos. In: TERRA, Ernani. Linguagem, língua e fala. São Paulo: Scipione, 1997. (Encarte de roteiro de estudo).

Texto 2.Papos e milongas

Dizia um:
- Meu lunfa,lalau azarado está aqui.Fiz um otário com cinco giripócas,dois enforcados e um abobrão;depois mandei a chuca de uma coroa,que só tinha uns picholés,mas um James Band estava na minha cola e, quando eu quis fazer o esquinaço,fui guindado. O tiruncho me tocou a bracelete e eu fui falar com o majurengo. Positão. Entrei no flagra. O papa-gente, na metralhadora, era uma coisa.Resultado: Água de Carandiru, meu irmão da ôpa.
Dizia o outro:
- Tu és um vagau pé de chinelo. O bonzão aqui, só mete a mão em cumbuca, por um pororó leguete; nem sou do espianto,nem do escruncho,nem do atraque. Meu negocio é tomar na maciota. Sou vigário linha de frente, meu chapa.Os estácios entram na minha, fácil, fácil. O meu pla é gostoso. E até hoje não caí do cavalo.Manja essa. Larguei o violino na mão do judeu do brexó,que me passou às mães,um arame firme;depois deixei a guitarra com o portuga do buraco quente,que abonou o papai com mil cruzeirão.Como tu vê,tou largando a minha brasa,na praça,e não vou entrar,caindo do burro.Para mim,na tiragem só dá olho de vidro.
E o outro:
- Pois eu,meu chaporeba,sou da marijuana. Faturo horrores ali no lixão. Numa só pavuna eu marreto várias pacáus, e cada fininho vale um Santos Dummont. Os tiras estão sempre de holofotes, mas o vivaldino tem vagólio na campana.Até hoje, só puxei uma, na casa do cão. Foi quando a Excelência me tocou três anos de galera e dois de medida.Mas agora estou na libertina e o negócio é levantar uma nota traficando a xibaba e, se os cherloques meterem uma escama em cima, tá na cara; um vai amanhecer com a boca cheia de formiga.Morou?
Ziriguidum pra você.
E outro ainda:
- Estás por fora, ó ligação. Vou salivar. Cruzei com uma mina e quase entrei de gaiato.Apanhei meu pé de borracha e fui sassaricar pela aí. Tirei linha com uma ragaza e ela gamou na hora. Se mandamos pro esquisito. O hotel das estrelas tava legal às pampas. Bitoca vai, bitoca vem, tu já se mancou, né? Mas na hora da onça beber água, lá se vem as mega de cara comprida. Positório . Partimos pruma candanga,que não foi bolinho,não. No meio da confusa a muxuxa deu o pirulito e o vagolino aqui, teve de se rebolar, porque os cavaleiros da meganha entraram firmes de rabo de galo.A dança de rato engrossou. Dei uma na tampa do milico, que o escamoso ainda está rodando; depois me arranquei no caranguejo e recebi uma chuva de azeitonas quentes; quase me queimaram as antenas.Meu liga, enfrentar a raça não é mole, não.
Depois o outro:
- Vê se te manca, ó migué. Pra mim esse papo é furado. Se quiseres um papo firme, mora na minha: Eu já puxei um mofo. Já fui, várias vezes cidadão Carandiru. Nunca fui da mazela. Meu negócio era tomar na morra, e nunca dei arrêglo a tira ravêsso. Já topei cada dança de rato de fechar o tempo. Arribite estourou na minha telha que nem pipocas no tacho. Quase me vestiram o camisolão.Mas hoje tou no cachimbo da paz. Tou limpo com os homens. Dou um duro lavando cavalo cego, pra dar uma papa de bom pra minha cachanga e os cagasebo.Larguei mão de ser vago-mestre. Pendurei as chuteiras.
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(SILVA,Felisberto da. Dicionário de Gíria: gíria policial,gíria humorística,gíria dos marginais.7.ed. São Paulo:Luzeiro Editora, s.d.p.9-11).

Texto 3.O pitoresco na justiça
(Num de seus inúmeros depoimentos na Justiça, Zé da Ilha, "o Saudoso", prestou esta declaração.)
Seu doutor, o patuá é o seguinte: depois de um gelo da coitadinha, resolvi esquiar e caçar uma outra cabrocha que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho de sabão. Quando bordejava pelas vias, abasteci a caveira, e troquei por centavos um embrulhador. Quando então vi as novas do embrulhador, plantado como um poste bem na quebrada da rua, veio uma pára-queda se abrindo. Eu dei a dica, ela bolou. Eu fiz a pista, colei. Solei, ela bronquiou. Eu chutei. Bronquiou mas foi na despistas porque, muito vivaldino, tinha se adernado e visto que o cargueiro estava lhe comboiando. Morando na jogada, o Zezinho aqui, ficou ao largo e viu quando o cargueiro jogou a amarração dando a maior sugesta na recortada. Manobrei e procurei engrupir o pagante, mas sem esperar recebi um cataplum no pé do ouvido. Aí, dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça, uma muquecada nos amortecedores e taquei os dois pés na caixa da mudança, pondo por terra. Ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas. Papai muito rápido, virou pulga e fez a Dunquerque, pois vermelho não combinava com a cor do meu linho. Durante o boogie, uns e outros me disseram que o sueco era tira e que iria me fechar o paletó. Não tenho vocação pra presunto e corri. Peguei uma borracha grande e saltei no fim do carretel, bem vazio, da Lapa, precisamente às quinze para a cor de rosa. Como desde a matina não tinha engulido gordura, o ronco do meu pandeiro estava me sugerindo sarro. Entrei no china pau e pedi um boi à Mossoró com confeti de casamento e uma barriguda bem morta. Engolia a gororoba e como o meu era nenhum, pedi ao caixa pra botá no pindura que depois eu ia esquentar aquela fria. Ia me pirá quando o sueco apareceu. Dizendo que eu era produto do mangue, foi direto ao médico legal pra me esculachar. Eu sou preto mas não sou o Gato Félix, me queimei e puxei a solingem. Fiz uma avenida na epiderme do moço. Ele virou logo América. Aproveitei a confusão pra me pirá, mas um dedo duro me apontou aos xipófagos e por isto estou aqui.

Atordoado, o juiz mandou chamar um "tradutor" que esclareceu o seguinte:

Tradução do depoimento

— Senhor Doutor, a história foi a seguinte: depois que fui abandonado por minha companheira, resolvi procurar uma outra que me preparasse a comida e lavasse meus ternos. Quando caminha¬va pela rua, entrei num botequim, tomei uma cachaça e comprei um jornal. Depois de ler as notícias do jornal, encostado num poste, na esquina da rua, vi que uma morena se aproximava toda faceira. Olhei-a, ela também. Segui-a de longe e olhando de soslaio para trás, vira que seu companheiro a seguia. Percebendo o jogo, fiquei de longe e vi quando ele a segurou pelo braço e mandou-a para casa. Fui saindo, mas antes de poder me afastar mais, o amásio da moça me agrediu. Revidei dando-lhe com o sapato um chute no peito, um soco no maxilar e de um salto, com outro chute no peito, joguei-o por terra. Ele sacou sua arma e atirou, mas eu já havia fugido, porque o sangue não combinava com a cor do meu temo. Durante a briga, disseram-me que o moço era policial e me mataria. Não tenho vocação para defunto. Corri e peguei um ônibus, descendo no fim da linha, no Largo da Lapa, precisamente às 15 para as seis horas (hora do crepúsculo). Como desde manhã não havia me alimentado, e meu estômago reclamava, entrei num restaurante chinês e pedi um bife a cavalo com arroz e urna cerveja preta bem gelada. Tomei a refeição e como não tinha dinheiro, pedi ao caixa para assentar no caderno que depois eu pagaria a conta. Ia sair quando o policial apareceu. Disse que eu era malandro, e foi direto ao cozinheiro para falar mal de mim. Eu sou preto, mas não sou Gato Félix, fiquei aborrecido e puxei da nava¬lha. Agredi o meu rival. Ele ficou todo ensangüentado. Aproveitei a confusão para fugir, mas alguém me delatou apontando-me aos "Cosme e Damião" e por isto eu estou aqui.
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MARCUSCHI, Luiz Antônio: Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2007.
Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

10 comentários:

As DeliciaS' disse...

ruim d+

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Anônimo disse...

legal...
mas precisa colocar um pouco mais de humor nos textos.

telma_carvalho disse...
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Anônimo disse...

qqqqqqqqquuuuuuuuuuueeeeeeeeeeeeeeeee podre mano

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

antigas

Anônimo disse...

fiz uma "tradução" de um desses textos, da gíria para a linguagem formal, onde os mesmos são ótimos para se praticar.

Anônimo disse...

gostaria de ver essa texto nas gírias atuais...