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segunda-feira, 22 de março de 2010

Rememórias Dois

Por Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

Texto 1: Rememórias Dois
Entrei numa lida muito dificultosa. Martírio sem fim o não entender nadinha do que vinha nos livros e do que o mestre Frederico falava. Estranheza colosso me cegava e me punha tonto. Acho bem que foi desse tempo o mal que me acompanha até hoje de ser recanteado e meio mocorongo. Com os meus, em casa, conversava por trinta, tinha ladineza e entendimento. Na rua e na escola — nada; era completamente afrásico. As pessoas eram bichos do outro mundo que temperavam um palavreado grego de tudo.
Já sabia ajuntar as sílabas e ler por cima toda coisa, mas descrencei e perdi a influência de ir à escola, porque diante dos escritos que o mestre me passava e das lições marcadas nos livros, fiquei sendo um quarta-feira de marca maior. Alívio bom era quando chegava em casa.
Os meninos que arrumei para meus companheiros eram todos filhos de baiano. Conversavam muito diferente do que estava escrito nos livros e mais diferente ainda da gente de minha parentalha. Custei a danar a aprender a linguagem deles e aqueles trancas não quiseram aprender a minha. Faziam era caçoar. Nestes casos, por exemplo: eu falava "sungar", os meninos da rua falavam "arribar", e mestre Frederico dizia "erguer". Em tudo o mais era um angu-de-caroço que avemaria.
Um dia cheguei atrasado e dei a desculpa de que o relógio lá de casa eslava "azangado". Aí o mestre entortou o canto da boca e enrugou o couro da testa e derreou a cabeça e ficou muito tempo assim de esguelha fisgado em mim, depois estralou:
- O relógio está o quê?!!
Ah, meu Deus... Tampei a cara com o livro, e uma coceira descomedida nas popas me pôs a retocar e a esfregar no banco, como quem tinha panhado bicho. Um menino que gostava muito de mim foi me salvar e embaraçou-se todo também:
— Ele está dizendo que o relógio da casa dele "escanchelou"! Mestre Frederico derreou a cabeça para o outro lado e tornou a estralar:
— O quê!!!
Ajuntou a boca no maior afinco de estancar um riso quase vertente, ínterim em que a risadagem já ia entornando na sala toda.
- Silên...cio!...
E, peculiarmente, a palmatória surrou miúdo no tampo da mesa. Em tudo o mais era nesse teor. Era — não: é. Vivi até hoje empenhado na peleja mais dura, com o viso de me acostumar a falar de acordo, e não sou capaz. Em estando muito prevenido é que às vezes dou conta de puxar mais ou menos os efes e erres, assim mesmo sujeito a desastrosas silabadas... Descuidei, que seja, resvalo, e quando quero acudir é tarde. Sem maior esforço, dou conta de arrumar direitinho um fraseado com apa¬rência de erudito, e em pouco prazo estiro no papel uma chorola certinha, conforme preceitua a gramática. Contar um caso bem contado, com cautela de não dar motivos a enjoamento em quem vai ler, é que não sou capaz porque tolhido dentro das regras que Mestre Frederico me ensinou nunca pude armar uma estória que prestasse. A coisa não se expressa, fica tudo pálido, enxabido, um negócio maninho que não há quem traga.
Só desaçaimado de tudo quanto é fiscalização de regras e formas, sou capaz de ajeitar uma prosa sofrível. Aí vou desalojando de dentro de mim as palavras e as formas que trago na massa do sangue, olvido o mundo que me cerca e me engolfo numa lembrança qualquer mal apagada e, assim, às vezes arrumo uma escrita que não enfada muito.
Vocabulário:
Ao ler o texto, você deve ter encontrado algumas palavras que não fazem parte de seu repertório lingüístico. Você não as conhece porque algumas delas são palavras e expressões características da cultura rural da região Centro-Oeste, onde o autor foi criado. Outras, além de pertencerem ao léxico regional, também são arcaicas, isto é, já não são usadas com freqüência, tendo sido preservadas na cultura de grupos sociais mais isolados, como é o caso das comunidades rurais. Há ainda no texto expressões que são mais comuns na língua oral do que na escrita. Veja:

1. Lida: trabalhar ou lutar.
2. Colosso: estranheza.
3. Recanteado: esconderijo, temperamento introvertido.
4. Ladineza: astuto, esperto.
5. Afrásico: afrasia - impossibilidade de falar ou de compreender as palavras ordenadas em frases.
6.Descrencei:regionalismo que significa descri.Perder o interesse.
7.Perder a influência: perder a animação;o entusiasmo de ir à escola.
8.Um quarta-feira de marca maior: perder o interesse pela escola.
9.Baiano: no Centro-Oeste costuma-se usar esse termo para referir-se a brasileiros provenientes do Norte e do Nordeste.
10.Parentalha: parentela.
11.Tranca: empecilho;mau caráter.
12.Olhar de esguelha: olha de lado;olhar enviesado.
13.Derrear: inclinar(a cabeça)
14.Estalar: xingar;esbravejar.
15. Peleja: esforço; trabalho.
16. Chorola: texto informal.
17. Enxabido: sem sabor; insípido.
18. Maninho: Estéril; não aproveitável.
19. Desaçaimado: sem-cabresto; sem repressão.
20. Engolfar: penetrar; mergulhar.

O texto de Carmo Bernardes, além de nos ensinar muitas palavras e expressões novas, que ilustram a riqueza da cultura e da linguagem rurais, nos conduz a uma reflexão sobre a língua portuguesa no Brasil, suas características e sua variação, especialmente as diferenças entre o Brasil urbano e o Brasil rural.
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BERNARDES, Carmo. Rememórias Dois, Goiânia: Leal, 1969, p. 18-20. In: BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Educação em língua materna: a sociolinguística na sala de aula. São Paulo: Parábola, 2004, p.13, 14.
Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

Texto 2: Sou cem por cento nordestino

SÓ quem é NORDESTINO entende!...

Botão de som é pitôco;
Se é muito miúdo é pixotinho;
Rascunho é borrão;
Machucar ferimento é desmentir;
Lápis de cor é coleção;
Bom demais é pai d´égua;
Fazer uma travessura é fazer uma arte;
Se for resto é cotôco;
Tudo que é bom é massa ;
Tudo que é ruim é peba;
Rir dos outros é mangar;
Brigar é arengar;
Ficar cheio de não me toque, frescura , é pantim;
Já faltar aula é gazear, turistar;
Colar na prova é filar;
Quem é franzino (pequeno e magro) é xôxo;
O bobo se chama leso;
E o medroso se chama acagaçado, frouxo;
Tá com raiva é invocado;
Vai sair, diz vou chegar;
'Caba' (homem) , sem dinheiro é liso;
A moça nova é boyzinha;
Pernilongo é muriçoca;
Chicote se chama relho,açoite;
Quem entra sem licença emburaca;
Sinal de espanto é 'vôte;
Tá de fogo, tá bicado;
Quando tá folgado, tá folote ou afolozado;
Quem tem sorte é cagado;
Pedaço de pedra é xêxo (seixo);
Sangrar, transbordar é esborrotar!
Lombada é catabilho;
Estilingue é baladeira, bodoque;
Cabide é ombreira, cruzeta;
Colisão é abalroada!
Surfar caminhão é morcegar;
Lagartixa é briba;
Pedaço de barbante é Imbira;
Eita que é engraçado sô!!!
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Disponível em: .Acesso em: 24 jan.2010
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Exercícios
Texto 1:Rememórias Dois
1. Com se sentia o personagem nos seguintes meios sociais em que ele vivia:
(a) Em sua casa?Por quê?
(b) Na rua?Por quê?
(c) Na sala de aula da escola que frequentava?Por quê?
2. No texto há alguma semelhança no seu viver cotidianamente, em relação às dificuldades com a língua, hoje? Se há, por quê?E o que você tem feito para superar essas dificuldades?
3. Qual a função social do texto?
Texto 2: Sou cem por cento nordestino
1. Explique como se sente o emissor do texto, em relação à sua região, ao seu povo,à sua cultura,quando ele diz:
“Sou cem por cento nordestino”
“Só quem é NORDESTINO entende!...”
2. O que acha das palavras e expressões estranhas a você, encontradas no texto? Estão “erradas”?Por quê?
3. Qual a função social do texto?
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Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

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