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terça-feira, 2 de março de 2010

O JUIZ DE PAZ DA ROÇA

Martins Pena
Sinopse:Francisco Antonio casa-se com Rosa de Jesus e trouxe-lhe como recompensa, uma égua. Esta tem um filho(eguinha).José da Silva questiona que a eguinha é dele porque se parece com um cavalo que ele tem,malhado.Por fim, Francisco ganha a causa,deixando José revoltado por não haver averiguação dos fatos antes de o juiz dar a sentença.O enredo desta peça desenrola-se numa roça e retrata, de forma humorística, a simplicidade e a inocência das gentes das roças do Brasil, no século XIX. O juiz de paz, um homem corrupto, usa a autoridade e a inteligência para lidar com a absurda inocência daquela gente que lhe apresenta os casos mais cômicos e despropositados. Não intencionalmente corrupto, o escrivão é o seu servo mais próximo e é ele que dá seguimento às suas ordens, surpreendendo-se, por vezes, com algumas das suas decisões.
CENA XI
Inácio José, Francisco Antônio, Manuel André e Sampaio entregam seus requerimentos.
JUIZ — Sr. Escrivão, faça o favor de ler.
ESCRIVÃO, lendo — Diz Inácio José, natural desta freguesia e casado com Josefa, sua mulher na face da Igreja, que precisa que Vossa Senhoria mande o Gregório degradado para fora da terra, pois teve o atrevimento de dar uma umbigada em sua mulher, na encruzilhada do Pau-Grande, que quase a fez abortar, da qual umbigada fez cair a dita sua mulher de pernas para o ar. Portanto, pede a Vossa Senhoria mande o dito Gregório degradado para Angola. Espera receber mercê.8
JUIZ — É verdade, Sr. Gregório, que o senhor deu uma umbigada na senhora?
GREGÓRIO — É mentira, Sr. Juiz de Paz, eu não dou umbigadas em bruxas.
JOSEFA — Bruxa é a marafona de tua mulher, malcriado! Já não se lembra que me deu uma umbigada, e que me deixou uma marca roxa na barriga? Se o senhor quer ver, posso mostrar.
JUIZ — Nada, nada, não é preciso; eu o creio.
JOSEFA — Sr. Juiz, não é a primeira umbigada que este homem me dá; eu é que não tenho querido contar a meu marido.
JUIZ — Está bom, senhora, sossegue. Sr. Inácio José, deixe-se destas asneiras, dar umbigadas não é crime classificado no Código. Sr. Gregório, faça o favor de não dar mais umbigadas na senhora; quando não, arrumo-lhe com as leis às costas e meto-o na cadeia. Queiram-se retirar.
INÁCIO JOSÉ, para Gregório — Lá fora me pagarás.
JUIZ — Estão conciliados. (Inácio José, Gregório e Josefa saem.) Sr. Escrivão, leia outro requerimento.
ESCRIVÃO, lendo — “O abaixo-assinado vem dar os parabéns a V.Sa. por ter entrado com saúde no novo ano financeiro. Eu, Ilmo Sr. Juiz de Paz, sou senhor de um sítio que está na beira do rio, aonde dá muito boas bananas e laranjas, e como vem de encaixe, peço a V. Sa. o favor de aceitar um cestinho das mesmas que eu mandarei hoje à tarde. Mas, como ia dizendo, o dito sítio foi comprado com o dinheiro que minha mulher ganhou nas costuras e outras coisas mais; e, vai senão quando, um meu vizinho, homem da raça do Judas, diz que metade do sítio é dele. E então, que lhe parece, Sr. Juiz, não é desaforo? Mas, como ia dizendo, peço a V. Sa. para vir assistir à marcação do sítio. Manuel André. Espera receber mercê.”
JUIZ — Não posso deferir por estar muito atravancado com um roçado; portanto, requeira ao suplente, que é o meu compadre Pantaleão.
MANUEL ANDRÉ — Mas, Sr. Juiz, ele também está ocupado com uma plantação.
JUIZ — Você replica? Olhe que o mando para a cadeia.
MANUEL ANDRÉ — Vossa Senhoria não pode prender-me à toa: a Constituição não manda.
JUIZ — A Constituição!... Está bem!... Eu, o Juiz de Paz, hei por bem derrogar a Constituição! Sr. Escrivão, tome termo que a Constituição está derrogada, e mande-me prender este homem.
MANUEL ANDRÉ — Isto é uma injustiça!
JUIZ — Ainda fala? Suspendo-lhe as garantias...
MANUEL ANDRÉ — É desaforo...
JUIZ, levantando-se — Brejeiro!... (Manuel André corre; o Juiz vai atrás.) Pega... Pega... Lá se foi... Que o leve o diabo. (Assenta-se.) Vamos às outras partes.
ESCRIVÃO, lendo — Diz João de Sampaio que, sendo ele “senhor absoluto de um leitão que teve a porca mais velha da casa, aconteceu que o dito acima referido leitão furasse a cerca do Sr. Tomás pela parte de trás, e com a sem-cerimônia que tem todo o porco, fossasse a horta do mesmo senhor. Vou a respeito de dizer, Sr. juiz, que o leitão, carece agora advertir, não tem culpa. porque nunca vi um porco pensar como um cão, que é outra qualidade de alimária e que pensa às vezes como um homem. Para V. Sa. não pensar que minto, lhe conto uma história: a minha cadela Tróia, aquela mesma que escapou de morder a V. Sa. naquela noite, depois que lhe dei uma tunda, nunca mais comeu na cuia com os pequenos. Mas vou a respeito de dizer que o Sr. Tomás não tem razão em querer ficar com o leitão só porque comeu três ou quatro cabeças de nabo. Assim, peço a V. Sa. que mande entregar-me o leitão. Espero receber mercê.”
JUIZ — É verdade, Sr. Tomás, o que o Sr. Sampaio diz?
TOMÁS — É verdade que o leitão era dele, porém agora é meu.
SAMPAIO — Mas se era meu, e o senhor nem mo comprou, nem eu lho dei, como pode ser seu?
TOMÁS — É meu, tenho dito.
SAMPAIO — Pois não é, não senhor. (Agarram ambos no leitão e puxam, cada um para sua banda.)
JUIZ, levantando-se — Larguem o pobre animal, não o matem!
TOMÁS — Deixe-me, senhor!
JUIZ — Sr. Escrivão, chame o meirinho. (Os dois apartam-se) Espere. Sr. Escrivão, não é preciso. (Assenta-se.) Meus senhores, só vejo um modo de conciliar esta contenda, que é darem os senhores este leitão de presente a alguma pessoa. Não digo com isso que mo dêem.
TOMÁS — Lembra Vossa Senhoria bem. Peço licença a Vossa Senhoria para lhe oferecer.
JUIZ — Muito obrigado. É o senhor um homem de bem, que não gosta de demandas. E que diz o Sr. Sampaio?
SAMPAIO — Vou a respeito de dizer que se Vossa Senhoria aceita, fico contente.
JUIZ — Muito obrigado, muito obrigado! Faça o favor de deixar ver. Ó homem, está gordo, tem toucinho de quatro dedos! Com efeito! Ora. Sr. Tomás, eu que gosto tanto de porco com ervilha!
TOMÁS — Se Vossa Senhoria quer, posso mandar algumas.
JUIZ — Faz-me muito favor. Tome o leitão e bote no chiqueiro quando passar. Sabe aonde é?
TOMÁS, tomando o leitão — Sim senhor.
JUIZ — Podem se retirar, estão conciliados.
SAMPAIO — Tenho ainda um requerimento que fazer.
JUIZ — Então, qual é?
SAMPAIO — Desejava que Vossa Senhoria mandasse citar a Assembléia Provincial.
JUIZ — Ó homem! Citar a Assembléia Provincial? E para quê?
SAMPAIO — Pra mandar fazer cercado de espinhos em todas as hortas.
JUIZ — Isto é impossível! A Assembléia Provincial não pode ocupar-se com estas insignificâncias.
TOMÁS — Insignificância, bem! Mas os votos que Vossa Senhoria pediu-me para aqueles sujeitos não era insignificância. Então me prometeu mundos e fundos.
JUIZ — Está bom, veremos o que poderei fazer. Queiram-se retirar. Estão conciliados; tenho mais que fazer. (Saem os dois.) Sr. Escrivão, faça o favor de... (Levanta-se apressado e, chegando à porta, grita para fora:) Ó Sr. Tomás! Não se esqueça de deixar o leitão no chiqueiro!
TOMÁS, ao longe — Sim senhor.
JUIZ, assentando-se — Era muito capaz de se esquecer. Sr. Escrivão, leia o outro requerimento.
ESCRIVÃO, lendo — Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V. Sa. mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher.
JUIZ — É verdade que o senhor tem o filho da égua preso?
JOSE DA SILVA — É verdade; porém, o filho me pertence, pois é meu, que é do cavalo.
JUIZ — Terá a bondade de entregar o filho a seu dono, pois é aqui da mulher do senhor.
JOSÉ DA SILVA — Mas, Sr. Juiz...
JUIZ — Nem mais nem meios mais; entregue o filho, senão, cadeia,
JOSÉ DA SILVA — Eu vou queixar-me ao Presidente.
JUIZ — Pois vá, que eu tomarei a apelação.
JOSÉ DA SILVA — E eu embargo.
JUIZ — Embargue ou não embargue, embargue com trezentos mil diabos, que eu não concederei revista no auto do processo!
JOSE DA SILVA — Eu lhe mostrarei, deixe estar.
JUIZ — Sr. Escrivão, não dê anistia a este rebelde, e mande-o agarrar para soldado.
JOSÉ DA SILVA, com humildade — Vossa Senhoria não se arrenegue! Eu entregarei o piquira.9
JUIZ — Pois bem, retirem-se; estão conciliados. (Saem os dois.) Não há mais ninguém? Bom, está fechada a sessão. Hoje cansaram-me!
MANUEL JOÃO, dentro — Dá licença?
JUIZ — Quem é? Pode entrar.
MANUEL JOÃO, entrando — Um criado de Vossa Senhoria.
JUIZ — Oh, é o senhor? Queira ter a bondade de esperar um pouco, enquanto vou buscar o preso. (Abre uma porta do lado.) Queira sair para fora.
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8 No texto está a forma E.R.M. Preferi a expressão por extenso para conservar o tom coloquial
9 Cavalo pequeno.

2 comentários:

Anônimo disse...

oq é embigada? Um simples choqe entre umbigos?

Anônimo disse...

nao entendi por que um monte de falas sendo que o texto que eu tenho so tem uma.