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sábado, 13 de março de 2010

A EXPRESSIVIDADE DA GÍRIA: A GÍRIA DOS VENDEDORES DE CALÇADOS DE SÃO PAULO

Por prof. Celso Antônio Bacheschi

A expressividade da gíria: a gíria dos vendedores de calçados de São Paulo

Considerações iniciais

Em um diálogo ocorrido em um estabelecimento comercial de São Paulo, ouve-se o seguinte enunciado:

O s entrou, procurando forma h, e eu fui dar a matada, quando o M chegou, dizendo que era s procura e me deu uma bicicleta, mas que nada! O s era forma n: encaroçou, encaroçou e, no final, deu-lhe um noventa-e-seis.

O período acima é ”artificial” e foi elaborado apenas para ilustrar o caráter criptológico da linguagem dos vendedores das lojas de calçados de São Paulo. A seguir, apresentamos sua “tradução”:

O cliente entrou, procurando um sapato para homem, e eu fui atendê-lo, quando o Maurício chegou, dizendo que o cliente queria ser atendido por ele e tomou a minha vez, mas não era isso. O cliente, na verdade, não queria comprar. Deu-lhe muito trabalho e, no final, foi embora, sem levar nada.

Este trabalho não tem a pretensão de definir precisamente o que é gíria, nem de estabelecer critérios para se diferenciar gíria de jargão; parece-nos significativo, no entanto, que se faça uma certa delimitação do conceito de gíria com o qual se pretende trabalhar. A gíria, dentro dos limites que propomos, será entendida basicamente como linguagem peculiar àqueles que exercem a mesma profissão; portanto, trataremos, sobretudo, da gíria de grupo, ou seja, aquela utilizada pelo falante dentro de um grupo social específico e composta por vocábulos cujo significado foge à compreensão dos indivíduos que não pertencem ao grupo no qual ela é falada. Em posição à gíria de grupo, temos a gíria comum, que é aquela que, originária de um determinado grupo, por meio da interação social, passa a fazer parte do repertório de falantes que não fazem parte do grupo do qual ela se originou. Trataremos desta apenas nos casos em que, ainda que não seja um traço distintivo do grupo pesquisado, um signo de grupo, faça parte de seu vocabulário para fins de interação dentro do grupo. Para demarcar a questão de grupo social, observamos que a gíria dos vendedores de lojas de calçados é uma gíria de grupo secundário (Horton, P. B. & Hunt, C. L. 1981), ou seja, de um grupo constituído para um determinado fim, o que pode explicar o predomínio de vocábulos técnicos sobre os expressivos (Guiraud, P. 1956), como veremos a seguir. Finalmente, em oposição a essas definições, a linguagem de que a gíria não faz parte será chamada, doravante, de linguagem comum.
Este trabalho também não utilizará dados estatísticos quanto à ocorrência dos vocábulos nem de sua origem; mas ocupar-se-á, máxime, dos vocábulos do ponto de vista de sua formação.

1. Breve referencial teórico

Como referencial teórico deste trabalho, utilizamos os conceitos de grupo social presentes em Horton e Hunt (1981). Para análise dos vocábulos, foi utilizado o modelo de Cabello (1991) e o conceito de vocábulos técnicos e vocábulos expressivos de Guiraud (1956). Os conceitos de gíria de grupo e gíria comum foram retirados de Preti (1996).

2. Notícia sobre o material pesquisado

O corpus da presente pesquisa foi obtido por meio de entrevistas realizadas com vendedores e ex-vendedores de lojas de calçados de São Paulo entre os dias 4 e 18 de maio de 2004. Foram entrevistados treze vendedores e quatro ex-vendedores dos bairros de Tucuruvi, Vila Guilherme, Santana (Zona Norte), Alto da Lapa (Zona Oeste) e Vila Maria (entre a Zona Norte e a Zona Leste). Apresentamos, anexo à análise dos exemplos, um modelo do questionário utilizado.

3. Análise dos exemplos

3.1. Vocábulos técnicos e vocábulos expressivos

Entre os vocábulos citados nas entrevistas, há, em maior número, vocábulos técnicos, constituídos em grande parte por simples letras (r, s, l, m, n, h, t, p) ou grupos de letras (st), que, muitas vezes aparecem apostas à palavra-eixo forma (leia-se sempre “fôrma”). O emprego de letras pode ser tomado por abreviatura (h = homem, t = troca, m = mulher, l = ladrão, p = preferência), embora isso não ocorra na maioria dos casos, em que as letras têm, de fato, caráter próprio de código. Empregam-se também alguns números (nove, noventa-e-seis, treze) com o mesmo escopo das letras.
Quanto aos vocábulos expressivos, podemos destacar matada e mata-mata. Para compreendê-los, é necessário um breve esclarecimento. Existem, segundo os vendedores, dois sistemas de atendimento de clientes nas lojas de calçados de São Paulo. Há o sistema de vez, que é organizado como uma fila, em que cada vendedor tem a sua vez de atender o cliente, voltando, após o atendimento ao final da “fila”, independentemente de ter realizado a venda e o sistema de matada ou mata-mata, em que atende o cliente o primeiro vendedor que dele se aproximar. Nesse sistema, o vendedor pode, ao ver o cliente, caracterizar a “matada” através da expressão “s”, dirigida aos demais vendedores, que, nesse caso, tem o significado de “esse cliente é meu”, “sou eu quem vai atender esse cliente”. Matada e mata-mata parecem-nos claramente expressivos, designando, metaforicamente, o cliente como “caça”, “presa” e o vendedor como “caçador”, “predador”.
Outros vocábulos claramente expressivos são caroço e encaroçar, com sentido de “coisa desagradável”, “obstáculo”. O primeiro refere-se ao cliente que dá trabalho ao vendedor, experimentando vários modelos de sapato e, na maioria das vezes, saindo sem comprar; o caroço é o cliente que “encaroça”.
Bicicleta, que significa, nas lojas que adotam o sistema de vez, a ação de um vendedor atender o cliente na vez de outro, parece-nos também expressivo. Associando-se a bicicleta, metaforicamente, à velocidade, o vendedor mais rápido toma a vez do mais lento (ultrapassa-o). Essa interpretação, no entanto, não foi confirmada nas entrevistas.
A metáfora vitamina (cliente) também é bastante expressiva, pois o cliente, mediante a compra e, conseqüentemente, a comissão, representa o que sustenta o vendedor; portanto, metaforicamente, é o que o alimenta. Advirta-se que essa interpretação é nossa e não houve confirmação nas entrevistas.
Quanto ao termo ponta (o melhor vendedor), a associação parece clara: estar à frente. Note-se que essa acepção pode ser encontrada, na linguagem comum, em expressões como “tecnologia de ponta”.
A metáfora chiquita (mercadoria barata) é de uso depreciativo. Atente-se ao fato de que o diminutivo é freqüentemente empregado com sentido pejorativo (povinho, gentinha, timinho etc.).
Finalmente, temos cria (criança), que aparece nas expressões forma com cria [cliente (mulher) com criança] e forma h com cria [cliente (homem) com criança] e foi a única metáfora pesquisada em que há associação a animais; seu uso, porém, é antes criptológico do que pejorativo.
Os demais vocábulos expressivos são tomados da gíria comum. Entre eles, temos mula, mala (redução de mala sem alça, com idéia de coisa difícil de ser manejada), que, entre os vendedores de calçados, equivalem a “caroço”, embaçar (mesmo que “encaroçar”), encalhe (mercadoria pouco vendida), borrachudo, voador, turista e flutuante (cheque ou cheque sem fundos), rodar (perder a venda), estes nitidamente depreciativos, além de grana e pagode, este último associado a pagamento. Observe-se que os vocábulos da gíria comum ocorrem em número bastante reduzido, uma vez que, por não conter o caráter de código, não têm a mesma função da gíria de grupo. Dessa mesma forma, explica-se também o fato de os vendedores preferirem “encaroçar” a “embaçar”, “tomar um noventa-e-seis” a “rodar” e “caroço” a “mala”. O vocábulo treze foi a única ocorrência a revelar a penetração da gíria de outro grupo. Treze (ou código treze), na gíria policial, tem o sentido de “louco” e, na gíria dos vendedores, equivale a “caroço”. Não constituindo signo de grupo, seu uso parece bastante restrito, tendo sido citado uma única vez. A análise dos vocábulos expressivos não revelou a formação de grandes redes metafóricas.

3.2. Formação

Do ponto de vista da formação dos vocábulos, a gíria dos vendedores de calçados mostra-se limitada a poucos processos, sendo predominante a redução em casos como casa (de cliente da casa), vita (de vitamina), nove (de noventa-e-seis), mala (de mala sem alça, este da gíria comum) e, possivelmente, cria (de criança), embora esta última pareça de origem metafórica, a redução às letras iniciais do vocábulo em h (homem), t (troca), m (mulher), l (ladrão), p (preferência), n (noventa-e-seis). Há poucos casos de derivação sufixal: chiquita e borrachudo, ambos de uso pejorativo, além de vocábulos não formados na gíria como matada, flutuante e voador. Mata-mata é caso único de repetição. Os demais vocábulos caracterizam-se pela sua função de código, de linguagem secreta.

3.3. Palavra-eixo

Como palavra-eixo, encontramos forma, que é facilmente associada a sapato (peça de madeira que imita o pé, usada no fabrico de calçados) e que pode ocorrer isolada ou em combinações: forma, forma com cria, forma h, forma h com cria, forma l, forma m, forma n, forma r e forma t.

3.4. Construções verbais

Como observa Cabello (1991), o verbo preferido em construções da gíria é o verbo dar. No corpus pesquisado, ele aparece nas construções dar uma bicicleta, dar uma matada, dar um borrachudo ou dar um voador, dar um noventa-e-seis ou dar um nove e dar um r (vender o produto acima do preço, para ficar com a diferença) ao lado do verbo tomar, que ocorre em tomar uma bicicleta, tomar um noventa-e-seis ou tomar um nove.

3.5. Efemeridade

Em geral, a vida da gíria dentro da língua segue um percurso definido: a gíria surge no interior de um determinado grupo social como signo de grupo (gíria de grupo); com as interações entre os grupos, a gíria se difunde para grupos que têm contato com o seu grupo de origem, passando, assim, para a linguagem comum (gíria comum). Desse momento em diante, há duas possibilidades: a gíria cristaliza-se (como legal, cafona, bacana, já dicionarizadas como linguagem comum informal), ou se arcaíza (boco-moco, broto etc.). A partir do momento em que a gíria passa a fazer parte da linguagem comum, ela perde a sua função dentro do grupo e é rapidamente substituída. “Daí a grande efemeridade da gíria. É um vocabulário em constante transformação” (Preti, D. 1996). Essa efemeridade explica o fato de poucas palavras da gíria serem dicionarizadas.
A gíria dos vendedores de lojas de calçados de São Paulo foge a essa regra, porque, segundo a unanimidade dos depoimentos vendedores entrevistados, essa gíria nunca é usada fora do trabalho, conservando sua condição de gíria de grupo. Como a gíria não se torna conhecida por pessoas que não pertencem ao grupo, não há necessidade de substituição; e isso explica o fato, também apoiado na unanimidade dos depoimentos, de que não há substituição de palavras dessa gíria. Note-se que essas afirmações partiram, em alguns casos, de pessoas que estão no ramo de lojas de calçados há vinte anos ou mais; e alguns entrevistados, que afirmaram ter deixado o ramo há dez, doze e até mais de vinte anos, citaram os mesmos vocábulos que foram citados pelas pessoas atualmente em atividade no ramo.
É importante lembrar que, além das interações entre grupos, outro fator concorre para a passagem de vocábulos da gíria de grupo para a gíria comum: a aceitabilidade social. Nos casos pesquisados, como vimos, grande parte dos vocábulos são formados por abreviaturas ou simples letras, e tais formações são pouco comuns na gíria comum (excetuam-se c. d. f., fazer um h, hora h, este por associação a dia d). Vocábulos que expressam situações específicas da profissão, como casa, bicicleta, provavelmente jamais passariam à gíria comum com os mesmos significados, uma vez que seriam muito raras as oportunidades de emprego. Outros vocábulos, no entanto, dada a sua expressividade, poderiam perfeitamente passar à gíria comum. Caroço, por exemplo, tem o mesmo sentido de chato e pentelho; chiquita, de cacareco e tralha. Embora esta pesquisa seja bastante restrita e não autorize asserções peremptórias, parece-nos claro que o único obstáculo à passagem dessas gírias expressivas à gíria comum seja o fato de não serem usadas fora do ambiente de trabalho e que, em não ocorrendo essa passagem, a substituição não se faça necessária.

3.6. Abrangência

Quanto à abrangência da gíria dos vendedores de calçados, pode-se afirmar que os vocábulos pesquisados são empregados em várias regiões da cidade de São Paulo. Foram entrevistados vendedores de diferentes regiões, alguns com experiência em locais diversos dos locais em que atualmente trabalham e todos afirmaram que os mesmos vocábulos da gíria são empregados em todas as regiões da cidade.

3.7. Preconceito

Entre as pessoas entrevistadas na pesquisa, constatou-se uma aceitação irrestrita da gíria. Os vendedores consideram que a gíria facilita o seu trabalho, ressaltam a importância de não serem compreendidos pelos clientes e também destacam o seu caráter “divertido”, sua natureza cripto-lúdica. Houve depoimentos, porém, em que os vendedores afirmaram que seus chefes não aprovam o uso desse vocabulário e até um caso em que o gerente proibiu seu emprego, por considerá-lo “linguagem de malandros”. A proibição, entretanto, era respeitada apenas na presença do gerente. Apesar de o preconceito contra a gíria ter-se reduzido nos últimos anos com a penetração de vocábulos gírios na mídia, como demonstra Preti (2000), nota-se que ainda permanece a associação entre a gíria e a marginalidade.

3.8. Glossário
1. bicicleta: ação ou efeito de tomar a vez de outro vendedor;
2. borrachudo: cheque;
3. caroço: cliente que dá trabalho ao vendedor; cliente que não compra;
4. casa: cliente habitual;
5. chiquita: mercadoria de baixo valor;
6. código: preço;
7. embaçar: dar trabalho ao vendedor;
8. encalhe: mercadoria que está em estoque há muito tempo;
9. encaroçar: dar trabalho ao vendedor; “embaçar”;
10. flutuante: cheque;
11. forma (ô): cliente (mulher);
12. forma (ô) com cria: cliente (mulher) com criança;
13. forma (ô) h: sapato para homem; cliente homem;
14. forma (ô) h com cria: cliente (homem) com criança;
15. forma (ô) l: indivíduo que entra na loja com o objetivo de furtar;
16. forma (ô) m: cliente (mulher);
17. forma (ô) n: cliente que dá trabalho;
18. forma (ô) r: vender sapato de número diferente do qual o cliente procurava;
19. forma (ô) t: troca;
20. grana: dinheiro;
21. h: cliente (homem);
22. h com cria: cliente (homem) com criança;
23. mala: cliente que dá trabalho ao vendedor; cliente que não compra;
24. matada: atendimento, sistema em que não há uma ordem de atendimento para os vendedores; “mata-mata”;
25. mata-mata: atendimento, sistema em que não há uma ordem de atendimento para os vendedores; “matada”;
26. mula: cliente que dá trabalho ao vendedor; cliente que não compra;
27. n: venda perdida; “noventa-e-seis”;
28. nove: venda perdida; “noventa-e-seis”;
29. noventa-e-seis: venda perdida;
30. p: cliente habitual;
31. paçoca: cliente;
32. pagode: dinheiro;
33. ponta: melhor vendedor;
34. preferência: cliente habitual;
35. r: mercadoria pouco vendida; mercadoria que está em estoque há muito tempo; preço; vender sapato de número menor para não perder a venda;
36. rodar: perder a venda;
37. s: cliente;
38. s caroço: cliente que dá trabalho ao vendedor; cliente que não compra;
39. s procura: cliente à procura de um determinado vendedor;
40. st: troca de mercadoria;
41. t: troca de mercadoria;
42. treze: cliente que dá trabalho ao vendedor; cliente que não compra;
43. turista: cheque;
44. vita: cliente;
45. vitamina: cliente;
46. voador: cheque;

Considerações finais

É clara a consciência de que uma pesquisa como a que realizamos não é abrangente o bastante para nos permitir fazer afirmações sobre a totalidade dos vendedores de calçados da cidade de São Paulo, e não se está propondo que as constatações a que chegamos sejam aceitas como uma realidade incontestável. Acreditamos, porém, ter apresentado uma visão da gíria de um grupo social em suas características básicas, ressaltando, como traço peculiar, a sua permanência.

Referências bibliográficas

CABELLO, Ana Rosa Gomes. Processo de formação da gíria brasileira. São Paulo: Alfa, 1991.

GUIRAUD, Pierre. L’ Argot. Paris: P. U. F., 1956.

HORTON, Paul B.; HUNT Chester L. Sociologia. São Paulo: Makron, 1981.

PRETI, Dino. A gíria na cidade grande. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo, vol. 54, jan./dez., 1996.

________. (org.). Fala e escrita em questão. São Paulo: Humanitas Publicações, 2000.

3 comentários:

Anônimo disse...

vita è s com mais idade

Anônimo disse...

vitamina o mesmo

Anônimo disse...

nao xamamos loucos de 13 xamamos de x