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sábado, 13 de março de 2010

EMPRÉSTIMOS: ACEITÁ-LOS OU “DELETÁ-LOS”?

Por prof. CELSO ANTÔNIO BACHESCHI

Considerações iniciais

É escusado dizer que a língua é parte integrante da cultura de um povo. É por intermédio da língua que vemos o mundo, e o uso da língua é onipresente em nossas atividades sociais cotidianas. O próprio significado da palavra “vernáculo” – “aquilo que é próprio de determinado povo” e “a língua falada por determinado povo” – atesta a forte ligação entre língua e cultura.
No entanto, a língua, como a cultura, não é estática; e um dos fatores que levam a alterações culturais e lingüísticas – que caminham pari passu – é o contato entre povos de culturas e línguas diversas. Esse não é um fato novo, fruto da globalização; prova disso é o fato de que muitas palavras do grego nos chegaram através do latim. A influência grega na língua latina foi tão forte, que as letras k e z foram incorporadas ao alfabeto latino no século I, para serem empregadas na grafia de certas palavras gregas. A língua latina, contudo, não se descaracterizou devido a essa “ameaça externa”; ao contrário, enriqueceu-se, frutificou e gerou pelo menos dez “descendentes diretas”, entre elas, o português. Além disso, forneceu grande parte do léxico de outras línguas modernas como o alemão e o inglês. O declínio do latim e do grego clássico foi simples fruto da evolução desses idiomas.
O português vem recebendo influência de diversas línguas desde seus primórdios. Uma língua de camponeses, que dispunham de um léxico limitado para as necessidades do dia-a-dia, para fornecer meios que permitissem a expressão de conceitos mais elevados, teve de ampliar seu léxico; e, no caso do português, era natural que se recorresse à língua matriz, o latim. Isso explica o fato de os cultismos terem feições latinizadas, em comparação com as palavras que percorreram, na boca do povo, todo o longo caminho desde a origem latina até sua forma atual. Paralelamente, novas palavras são formadas dentro da própria língua portuguesa por meio de processos conhecidos (composição, sufixação, derivação regressiva etc.).
Uma terceira fonte vem então compor o léxico da língua portuguesa: o empréstimo. Esta fonte, no português, também não constitui inovação contemporânea. Os árabes, que dominaram a Península Ibérica entre os séculos VIII e XV, contribuíram com várias palavras, algumas delas de uso cotidiano como “zero” e “açúcar”. Com a influência da cultura provençal, mais palavras eram incorporadas ao português. O espanhol, dada a proximidade geográfica, naturalmente foi outra fonte de empréstimos. No Brasil, a língua portuguesa recebeu também a influência de línguas indígenas locais e africanas. Além dessas línguas, ainda são fontes do léxico português muitas outras como o alemão, o francês, o inglês, o italiano, o japonês, o chinês, o sânscrito, o persa, o cingalês, o malaio e outras. Apesar de todas essas influências, não sentimos dificuldades ao lermos, hoje, um soneto camoniano, composto no século XVI, porque a sintaxe da língua pouco se alterou de lá para cá.

1. A defesa da língua

A primeira medida de política lingüística adotada no Brasil ocorreu ainda no período da Colônia, quando o Marquês de Pombal, temendo pelo desaparecimento da língua portuguesa em nossas terras, proibiu o uso da língua geral – ou das línguas gerais, que eram línguas indígenas amplamente faladas no Brasil. Se essa medida foi correta ou não, parece-nos totalmente inócuo discutir.
No século XIX, a França era o grande centro irradiador de cultura do mundo. No Brasil, os escritores franceses alcançavam grande sucesso (considerando o pequeno público leitor brasileiro), e tudo que fosse francês era tido como moderno e progressista (cf. Hallewell, 1985: 129). Em conseqüência, multiplicavam-se os galicismos que se integravam ao português. Os defensores do purismo da linguagem dessa época propunham listas de neologismos, cunhados a partir do latim, para substituí-los. Um dos poucos a serem aceitos foi cardápio, formado pelo filólogo Castro Lopes, para substituir o galicismo menu. A influência também se fazia sentir na sintaxe, e os puristas condenavam o uso de expressões como estar ao telefone. A reação foi baldada, e o abajur triunfou inexoravelmente sobre o lucivelo e o quebra-luz. Em alguns casos, como bufê (ou bufete), a reação foi contrária; e muitos falantes preferem a forma francesa, seja por ignorar a forma aportuguesada, seja por achar a forma gálica mais “chique”.
No século XX, com o advento do futebol, vários anglicismos foram introduzidos no português. Propôs-se substituir o próprio nome do esporte, que passaria a chamar-se ludopédio, mas a tentativa novamente não obteve sucesso. Com o tempo, as palavras foram-se conformando ao gênio da língua portuguesa e gerando outras, como goleiro, de gol (< inglês goal) + -eiro. A palavra gol, no entanto, não se adaptou ao sistema flexional do português; e o plural gols, tachado de barbarismo, prevaleceu sobre as formas gois e goles (cf. Houaiss, 2001). Com o desenvolvimento da tecnologia norte-americana, os anglicismos proliferaram; e alguns deles, como air bag, até hoje não têm formas vernáculas equivalentes. O grande afluxo logo gerou modismos, como o anglicismo sintático de expressões como “vou estar fazendo”. Também quanto aos anglicismos, algumas formas aportuguesadas parecem, por algum motivo, menos prestigiadas que suas correspondentes “puros-sangues”, como no caso do vocábulo recorde, em cuja pronúncia freqüentemente ocorre o hiperbibasmo, à moda ianque: *récorde.
Recentemente, o Deputado Federal Aldo Rebelo propôs um projeto de lei para combater o uso de palavras e expressões estrangeiras, prevendo punição aos infratores. O projeto, a nosso ver, contém alguns equívocos. Em primeiro lugar, porque pressupõe que a língua seja homogênea e estática, enquanto a sabemos heterogênea e dinâmica. Além disso, parece interpretar ipsis litteris a imagem de Saussure segundo a qual todos os falantes de uma língua dispõem de um mesmo “dicionário”, do qual fazem uso a cada ato de fala, esquecendo-se de que língua é sintaxe, e não léxico. Sabe-se que o inglês e o alemão, como já dissemos, sofreram, devido à ocupação romana, profunda influência do léxico latino e, ainda assim, não se tornaram línguas neolatinas, nem a estas se assemelham quanto à estrutura sintática. A influência estrangeira sobre a sintaxe portuguesa é praticamente desprezível e, muitas vezes, não se sustenta devido a sua própria estranheza, como no caso do quasímodo “vou estar fazendo”. A isso ainda se pode acrescentar que parte considerável dos estrangeirismos são modismos e, como tal, não perduram. Aqueles que perduram, como sinuca (< inglês snooker), geralmente acabam-se conformando à língua portuguesa quanto à fonologia, à flexão e, finalmente, ao sistema ortográfico (com raras exceções, como o citado plural gols). Por fim – e este nos parece o maior equívoco –, o projeto parece estar baseado no princípio simplista da onipotência da lei, segundo o qual basta que se crie uma lei para que um determinado problema seja resolvido.

2. Mas, afinal, por que se usam estrangeirismos?

Partindo do conceito saussuriano de significante e significado, ou seja, a associação que se faz entre um conceito e uma imagem acústica (Saussure, s/d: 79), podemos compreender uma das razões dos empréstimos: com o surgimento de um novo conceito, este, ao difundir-se para além das fronteiras do país em que surgiu, carrega consigo a imagem acústica à qual é associado em sua origem.
No caso de um país como o Brasil, em que o hábito é receber palavras por empréstimo, quatro caminhos podem ser seguidos:

1. conservação pura e simples do estrangeirismo em sua forma original, como show;
2. aportuguesamento do estrangeirismo, como contêiner, adaptando-o ao sistema flexional vernáculo (plural: contêineres);
3. tradução do estrangeirismo, como disco rígido por hard disc;
4. criação de neologismo para substituir o estrangeirismo, como em cardápio por menu.

As opções 3 e 4, a nosso ver, só têm possibilidade de prosperar quando a forma vernácula é amplamente acolhida pelos meios de comunicação em massa. Numa breve pesquisa nos manuais de redação dos jornais de maior circulação no Brasil, constatamos que não há um posicionamento em relação ao emprego de estrangeirismos, mas apenas listas indicando como grafá-los.
Grande parte dos estrangeirismos, no entanto, não surge em função de novos conceitos, técnicas e produtos. Há os que não trazem nenhum significado novo, não vêm suprir nenhuma necessidade de expressão e vão de encontro ao conteúdo do item 4 da enumeração acima, ou seja, são palavras estrangeiras que são empregadas em substituição às vernáculas. Dificilmente encontraremos um falante que possa explicar coerentemente por que prefere fashion a moda, delivery a entrega, pole position a primeira posição; ou saiba diferenciar inicializar de iniciar.
Lembremo-nos dos dois significados da palavra “vernáculo”, com que iniciamos estas considerações, e concluiremos que o âmago da questão está na relação entre o povo e a língua. Língua é tradição, e o povo que valoriza suas tradições valoriza sua língua, o que não implica necessariamente propostas xenofóbicas ou antiimperialistas de banimento de estrangeirismos. O Brasil definitivamente está longe de ser um país em que existe apego às tradições. Não cultuamos grandes figuras históricas, não reconhecemos o valor de nossos melhores escritores, temos baixa auto-estima, e convivemos com uma opinião geral de que qualquer produto importado é, por definição, melhor que o nacional. Isso também explica por que, mesmo em produtos feitos no Brasil para o mercado interno, lê-se “power” e não “ligar”, “open” e não “abrir”, “push” e não “aperte”, sem esquecer o singular caso do botão “delete” dos teclados, que deu origem ao verbo “deletar”. Os nomes de batismo são particularmente reveladores da nossa cultura, dada a valorização que se dá aos nomes grafados de modo divergente do sistema ortográfico do português (com ph, th, ch – como Christina –, k, w, y e consoantes geminadas como nn, ll, pp, tt etc.), a Washington, Jefferson, Michele e, às vezes, a criações teratológicas como Maicon (por Michael), Deivid, Ueliton etc.
São conhecidos os casos de personalidades públicas de destaque que alcançaram grande popularidade porque “falavam bem”, “falavam difícil”. Essas pessoas sabiam que o cidadão comum – que julga não saber “falar bem” – valoriza o que, muitas vezes, não compreende. O mesmo ocorre quanto ao empréstimo. Um falante, ao construir um enunciado cheio de intercalações de termos técnicos e em língua estrangeira, sente que se está colocando acima do “povo comum” e julga que será visto como uma pessoa sofisticada, que provavelmente conhece o exterior e domina uma língua de maior prestígio. Sendo a língua um instrumento de poder, o estrangeirismo gera, no falante, uma impressão de estar associando-se aos poderosos.

Considerações finais

Vimos que o empréstimo não constitui uma inovação das línguas contemporâneas, uma vez que já era comum na Antigüidade, assim como o foi no português arcaico e em outras línguas. Isso nos leva a concluir que – hoje, talvez, mais do que ontem – se trata de um fato contra o qual é inútil lutar, por mais que os abusos e as formações estranhas ao espírito do português possam incomodar-nos.
A questão do empréstimo está diretamente ligada à questão do prestígio, e o que se passa em relação à língua é um reflexo da sociedade. Devemos sempre apoiar as iniciativas que visem a valorizar a língua portuguesa, sem confundi-las com a xenofobia ideológica, nem recorrer a soluções punitivas. Concluímos, finalmente, que só se muda a relação que entre a sociedade e a língua, mudando-se a própria sociedade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HALLEWELL, Laurence. O Livro no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz, 1985.

HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico Houais da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 1 CD-ROM.

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Lingüística Geral. 11. ed. São Paulo: Cultrix, s/d.

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