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segunda-feira, 22 de março de 2010

Como ser brasileiro em Lisboa (sem dar muito na vista) / Minhas bunda

Sim, eu sei que não será culpa sua, mas, se você desembarcar em Lisboa sem um bom domínio do idioma, poderá ver-se de repente em terríveis “águas de bacalhau”. Está vendo? Você já começou a não entender. O fato é que como dizia Mark Twain a respeito da Inglaterra e dos Estados Unidos, também Portugal e Brasil são dois países separados pela mesma língua. Se não acredita veja só esses exemplos:
Um casal brasileiro, amigo meu, alugou um carro e seguia tranquilamente pela estrada Lisboa - Porto, quando deu de cara com um aviso: Cuidado com as bermas. Eles ficaram assustados – que diabo seria berma? Alguns metros à frente, outro aviso: “Cuidado com as bermas". Não resistiram, pararam no primeiro posto de gasolina, perguntaram o que era uma berma e só respiraram tranqüilos quando souberam que berma era o acostamento.
Você poderá ter alguns probleminhas se entrar numa loja de roupas desconhecendo certas sutilezas da língua. Por exemplo, não adianta pedir para ver os ternos – peça para ver os fatos, paletó é casaco. Meias são peúgas, suéter é camisola – mas não se assuste, porque calcinhas femininas são cuecas. ( Não é uma delícia?). Pelo mesmo motivo, as fraldas de crianças são chamadas cuequinhas de bebê. Atenção também para os nomes de certas utilidades caseiras. Não adianta falar em esparadrapo – deve-se dizer pensos. Pasta de dentes é dentifrício. Ventilador é ventoinha. E no caso (gravíssimo) de você tomar uma injeção na nádega, desculpe, mas eu não posso dizer porque é feio.
As maiores gafes de brasileiros em Lisboa acontecem (onde mais?) nos restaurantes, claro. Não adianta perguntar ao gerente do hotel onde se pode beliscar alguma coisa, porque ele achará que você está a fim de sair aplicando beliscões pela rua. Pergunte-lhe onde se pode petiscar. Os sanduíches são particularmente enganadores: um sanduíche de filé é chamado de prego; cachorros-quentes são simplesmente cachorros. E não se esqueça: Um cafezinho é uma bica; uma média é um galão, e um chope é uma imperial. E, pelo amor de Deus, não vá se chocar quando você tentar furar uma fila e alguém gritar lá de trás: "O gajo está a furar a bicha!" Você não sabia, mas em Portugal chama-se fila de bicha. E não ria.
Ah, que maravilha o futebol em Portugal Um goleiro é um guarda-redes. Só isso e mais nada. Os jogadores do Benfica usam camisola encarnada – ou seja, camisa vermelha. Gol é golo. Bola é esférico. Pênalti é penálti. Se um jogador se contunde em campo, o locutor diz que ele se aleijou, mesmo que se recupere com uma simples massagem. Gramado é relvado, muito mais poético, não é?(...)
Para entender as crianças em Portugal, pedagogia não basta. É preciso traçar também uma outra linguística. Para começar, não se diz crianças, mas miúdos. (Não confundir com miúdos de galinha, que são chamados de miudezas. Os miúdos de galinha portuguesa são os pintos). Quando um guri inferniza a vida do pai, este não o ameaça com a tradicional “dou-lhe uma coça!”, mas com "Dou-te uma tareia!", ou então com o violentíssimo “Eu chego a roupa à pele!"
Um sujeito preguiçoso é um mandrião. Um indivíduo truculento é um matulão. Um tipo cabeludo é um gadelhudo. Quando não se gosta de alguém, diz-se: "Não gamo aquele gajo". Quando alguém fala mal de você e você não liga, deve dizer: “Estou-me nas tintas", ou então: "Estou-me marimbando” (...) Um homem bonito, que as brasileiras chamariam de pão, é chamado pelas portuguesas de pessegão. E uma garota de fechar o comércio é, não sei por que, um borrachinho.
Mas o meu pior equívoco em Portugal foi quando pifou a descarga da privada do meu quarto de hotel e eu telefonei para a portaria: "Podem me mandar um bombeiro para consertar a descarga da privada"? O homem não entendeu uma única palavra. Eu devia Ter dito: “Ó pá, manda um canalizador para reparar o autoclisma da retrete".
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CASTRO, Ruy “Como ser brasileiro...” Viaje bem revista de bordo da VASP, ano Vlll n.3/78

Minhas bunda

A parte carnosa do corpo formada pelas nádegas.


A principal diferença entre a revista Playboy americana e a Playboy brasi¬leira é a língua? Errado. É a bunda.
Na americana, temos seios, úberes, verdadeiras tetas que mal cabem nas páginas duplas. Na nossa, temos bundas. Bundinhas de penugem loira, bundinhas de contorno marrom, até bundinhas cor-de-rosa.
Americano não gosta de bunda? Eu diria que americano não conhece a bunda. Aliás, no mundo inteiro, não existem bumbuns como os nossos, ou melhor, como as nossas. A bunda é um produto interno e bruto tipica¬mente brasileiro. Às vezes, a revista americana faz edições especiais sobre seios. Aqui, fazemos verdadeiros compêndios sobre (e sob) bundinhas. Narcisamente, o brasileiro adora a própria bunda.
Mas de onde veio a nossa bunda? Não das alvas portuguesas, muito menos das esparramadas italianas e, menos ainda, das desbundadas japone¬sas. Muito menos das amassadas índias. Sempre me intrigou esta tanajúrica pergunta. Quem arrebitou com pincel de ouro, com formão de prata, a bundinha brasileira?
Tinha essa dúvida até conhecer Cabo Verde, um país de dez vulcâni¬cas ilhas na costa oeste da África. Quase fora do mapa. Foi lá que tudo começou.
O país tem, atualmente, mais ou menos, 300 mil bundas ambulan¬temente espalhadas pelo arquipélago. Bundas livres de Portugal desde 1975. E a bunda brasileira, antes de chegar aqui, passou por lá, vindo do continente africano. Ou seja, foi lá que inventaram a fórmula, lúdico, o molde mais que esteticamente perfeito. A bunda politicamente correta. Tenho certeza dessa afirmação e vou tentar provar.
Foi em Cabo Verde que surgiram as primeiras mulatas. Apesar de a palavra mulata ter origem espanhola, o conteúdo foi uma criação dos ingleses, holandeses e dos franceses que por lá passavam desde o começo do século XVI, com seus navios negreiros trazendo escravos para o Brasil. Lá era o point no meio do Atlântico. E lá os brancos deixaram o sêmen (do latim sêmen, que significa semente) para a fabricação das mulatas com suas respectivas bundas. Gostavam tanto das cabo-verdianas que Sir Francis Drike, pirata-mor daqueles tempos, chegou até a saquear o país em 1590 a tal Companhia das Índias Ocidentais. O saque durou sete anos e milhares de sementes foram im(plantadas). Tinham sacado a bunda.
Esta mistura deu a cor atual das nativas. Não são negras como vizinhas senegalesas, são marrons. Ou castanhas, como preferem. E lindas. As cabo-verdianas são lindas. Uma espécie de Sônia Braga bem queimada. Olhos claros como dos piratas bisavós. Uma porção de Patrícia França.
Fica difícil descrever a bunda das mulheres de Cabo Verde. Tem que ver para crer. São Tome não acreditaria em seus próprios olhos. Mas olhando uma delas passar, você percebe que ela está no doce balanço a caminho do mar (do Brasil).
Um dia estava com um amigo português, o cineasta Paulo de Souza, especialista em cinema africano, numa praça de Mindelo, a capital intelectual do país e das bundas (a capital do país chama-se Praia, pode?). Eis que passa na nossa frente uma bunda vestida com uma minissaia verde. Justíssima. Não tivemos dúvida. Seguimos a bunda por vários quarteirões em homenageante silêncio, até que ela entrou numa casa e nós voltamos para a praça sem a necessidade de dizermos nenhuma palavra um para o outro. Era uma obra-prima da natureza aquela menina. De noite, lá pelas duas da manhã, estou eu no meu hotel a dormir e batem na porta. Era o Paulo que havia ido a uma boate. Estava trêmulo, suado:
— Vem, vem, lembra daquela bunda?
— Estava sonhando com ela.
— Veste, veste! Ela está na boate. A bunda está dançando na boate. E lá fomos nós dois para a boate. Não só a "nossa" bunda de verde (agora num fulgurante amarelo) dançava, mas uma infinidade delas, espetáculo.
Só que, no princípio, era o verbo e não a carne e, naquele tempo, na época do tráfico dos escravos, quando surgia a bunda no meio do Atlântico, qual ilha vulcânica, a bunda ainda não se chamava bunda. Como, aliás, até hoje em Portugal não se chama. Bunda só no Brasil. Em Portugal a bunda é um cu.
Mas foi na mesma África que fomos buscar a sonoríssima e mais do que adequada palavra bunda. Diz a lenda que a origem seria das danças dos africanos. Ficavam as mulheres dançando no meio e o crioléu em volta batendo tambor e fazendo som com a boca: bun-da!,bun-da! Mas isso é lenda. Na verdade, a palavra veio da língua quimbundo (kimbundu), da palavra bunda (mbunda, tubundas, elebunda?), lá para os lados de Angola, local onde viviam os bantos, raça negra sul-africana à qual pertenciam, en¬tre outros, os negros escravos chamados no Brasil angolas, cabindas, benguelas, congos, moçambiques.
Nós, brasileiros e cabo-verdianos, nascemos com a bunda virada para a lua.
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( PRATA, Mário. Minhas bunda. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007).


Prof. Eliorefe Cruz Lima (Org.)

5 comentários:

Alan Brizotti disse...

Grande Eli!!! Fantástico texto!

Alexandre Pitante disse...

Paz,

Parabéns, pelo seu trabalho neste blog. Que Deus em Cristo Jesus lhe continue abençoando poderosamente.

Estou seguindo o vosso blog.

Aproveito pra lhe convidar a visitar meu blog também. Avivamento pela Palavra é um blog voltado aos amantes da Bíblia sagrada como Verdade Absoluta e que só através Dela seremos mais crentes e mais cheios do Espirito Santo. Comente, pois seus comentários são muito importante para mim poder estar sempre em melhorias no meu blog.

http://www.alexandrepitante.blogspot.com/

Siga-nos também.

Fica com Deus.
Um abraço, Alexandre Pitante.

Prof. Eliorefe disse...

A paz pastor,é uma honra ser seguido por vc.Esperosermos grandes amigos

Ricardo disse...

Ha aqui uma série de erros de palavras que não sao assim escritas no Português nem tao pouco faladas. exemplos :

Café é café ( bica pode ser usada em Lisboa, e cimbalino ou italiana( se for muito curto ) no Porto ). não se diz "nao gamo o gajo" porque gamo é de gamar (roubar) mas "não gramo o gajo". Fraldas de Crianças sao Fraldas descartaveis, so sao cuecas se nao forem descartaveis, sejam de adulto ou criança. O termo encarnado é um termo usado unicamente em Lisboa, para todo o Portugal existe apenas vermelho. Autoclismo e nao autoclisma.

Prof. Eliorefe disse...

Valeu Ricardo pelas observações.Vou corrigir.Vc mora ai em PT?