Páginas

sábado, 13 de fevereiro de 2010

SEMINÁRIO: A LÍNGUA PORTUGUESA NO SÉCULO XX: UMA PERSPECTIVA HISTORIOGRÁFICA: POLÍTICA LINGÜÍSTICA NA AMÉRICA LATINA

Por
BRANCA GRANATIC
CÉLIA REGINA NUNES
ELIOREFE CRUZ LIMA
ISABEL GUESELHA DE ALMEIDA CASCELLI
MARIA DA PENHA BRANDIM DE LIMA


Linguagem – Prática política e social

Falar é uma prática social e política. Nesse sentido amplo a palavra político considera as relações sociais e históricas ligadas ao poder. Podemos considerar , ainda, a palavra política no sentido administrativo, ou seja, a política da linguagem ou política lingüística.
A noção de política lingüística permeia desde a tematização formal do planejamento de uma política lingüística assumida como organizacional, até processos menos evidentes inseridos de forma implícita.
As leituras realizadas fazem parte de uma reflexão da política lingüística da América Latina.

Lingüística e Política
Alberto Escobar

Havia necessidade de se abordar a questão da língua com atitude crítica e com a ajuda dos colegas do Departamento de Lingüística da Universidade de São Marcos a pesquisa foi realizada para reconhecer a pluralidade lingüística do país. O debate interessa a opinião pública em seu caráter de variedades de línguas, como também, na pluralidade cultural da sociedade peruana.
O ensino do Espanhol resulta da condição do país dominado. O Peru é um país que usa várias línguas além da oficial. Falantes do castelhano e das línguas vernáculas.
Isto significa que a maioria fala o castelhano, o espanhol, que outros setores falam outras línguas americanas e outros ainda falam castelhano e outras línguas vernáculas.
A situação seria outra se houvesse uma língua comum que todos falassem e outras línguas. Há uma barreira idiomática, essa barreira se transfere para o nível da desarticulação da sociedade peruana.
A coexistência de variedade lingüística evidencia a pluralidade cultural no mesmo solo. Várias culturas que com maior ou menor intensidade tem contato e exteriorizam condutas e valores semelhantes. O que justifica a condição multilingüística peruana e a pluralidade cultural.
As diferentes línguas também estão associadas a posições sociais e a língua oficialmente reconhecida pelo Estado é o castelhano, portanto, nos órgãos públicos, dependências oficiais, escola, registros públicos, Tribunais da Justiça se fala o castelhano .
As outras línguas não são escritas e não possuem livros ou qualquer forma escrita de penetração de massa.
A Constituição do Estado estabelece como língua oficial o castelhano- o espanhol. A língua foi trazida da Europa por colonizadores espanhóis, consolidada no período colonial e após a independência, utilizada pelos grupos de poder social e econômico. As línguas americanas nunca alcançaram nenhum estatuto oficial. Os grupos subordinados são os que a utilizam.
O multilingüismo exibe uma realidade em termos sociolingüísticos, uma hierarquização que coincide com uma sociedade dominada.
Antes da chegada dos europeus havia diversidade lingüística porém era marcada dentro de uma distribuição regional e micro-regional com tendências a se desenvolver em três línguas gerais: o “proto-quechua, o proto-aru ( proto-jaqi) e o puquina. A partir da chegada dos espanhóis em 1532, surge um quadro dual por um lado as línguas de origem americana e de outro as de origem castelhano.
A oposição lingüística coincide com a questão social senhores e servos; dominadores e dominados. Há um reordenamento sociolingüístico e a discriminação desse reordenamento aparece na língua e na cultura. A independência não apaga essa tendência. O castelhano assume posição de prestígio e expande-se em número de falantes. O quechua e o aymara diminuem os falantes e o puquina desaparece.
Temos hoje um conjunto de falantes hispânicos ( dentre os quais há variedade de região e grupo) e por outro lado falantes da variedade de quechua, aymara e outras línguas amazônicas.
Se pensarmos na vantagem de uma língua oficial de comunicação , percebemos a importância de uma língua comum. Se pensarmos no aspecto pluricultural, uma língua oficial não precisa ser única. Seria conveniente para uma sociedade articulada por uma identidade ter uma língua nacional, seria a erradicação da barreira lingüística, de grande importância para a consciência ideológica e política.
Para se obter uma situação homogênea não é simples, nem em termos geográficos, nem sociais e nem psicológicos. A seguir, mostrar-se-á uma coletânea de dados do Plano de Fomento Lingüística na Comunidade de Quinua embora a mostra seja pequena, é reveladora.
Para os monolíngües:
- os com mais de 50 anos responderam que não tem tempo, que foram impossibilitados ou que estudariam para que fim?
- os com menos de 50 anos manifestaram interesse em aprender a ler e escrever.
Exemplos:
Caso a: A entrevistada M.M, de 46 anos “ para conversar com pessoas e escrever”. Gostaria que os filhos aprendessem quechua e também o castelhano por sofrer muito por não saber. Nunca saiu da sua comunidade. Mandaria seus filhos estudarem numa escola secundária.
Caso b: A entrevistada J.Ch., 28 anos. Gosta do espanhol e quer aprender porque hoje em dia todos falam castelhanos e nós queremos compreender. Gostaria de ler e escrever em quechua e castelhano para compreender os familiares e outras pessoas. Gostaria que os filhos fossem para Ayacucho para realizar estudos secundários mas gostaria que eles também soubessem ler e escrever em quechua para compreender os familiares.
Caso c: Entrevistado F.V. , 39 anos, gostaria de aprender espanhol por se sentir ignorante. Há um tempo atrás foi perto de Lima trabalhar mas, aprendeu apenas palavras soltas. Gostaria de ir novamente a Lima e que seus filhos também tivessem essa oportunidade .
Caso d: O entrevistado N.H., 34 anos, gostaria de falar em espanhol, porém, não falar e escrever. Trabalha na costa numa fazenda algodoeira. Não pretende que seus filhos aprendam a ler e escrever em quechua, não acha necessário . Não mandaria seus filhos para escola secundária.
A variante sexual nos permite chegar a algumas conclusões diversas, as mulheres dão importância ao conhecimento da língua oficial para suprir limitações e para uma comunicação mais ampla. Com relação à educação dos filhos , elas também se preocupam com que os filhos não se limitem à escola primária. Se preocupam com a aprendizagem da cultura própria mas também, com o progresso que poderá advir da aprendizagem do espanhol. Reconhecem a própria cultura mas não descartam uma perspectiva futura pessoal e social.
Os homens entrevistados quando querem aprender a ler e escrever o espanhol , é para não serem tratados como ignorantes. Querem melhorar sua auto-imagem , não pensam na melhoria de um contexto geral apenas individual. Parecem que renegam sua própria imagem, a do grupo, da língua e da sua cultura. Se consideram incapazes por terem tido experiências frustrantes. Os homens embora queiram aprender o castelhano, têm sentimento de incapacidade e inaptidão causado pela discriminação que já sofreram.

Para os bilingües:
Os entrevistados desse grupo têm conhecimento do espanhol andino regional e o quechua.
Os entrevistados serão divididos por sexo como ocorreu com os monolingües.
Caso a : A entrevistada E.C., 33 anos, sabe falar espanhol e gostaria de aprender a escrever. Não pôde viajar para costa, quisera trabalhar em Lima para educar seus filhos. Crê ser melhor que seus filhos sejam alfabetizados em castelhano.
Caso b: A entrevistada N.Q., 39 anos quer melhorar o castelhano que fala e aprender a ler. Não deseja que os filhos sejam alfabetizados em quechua.
Nos dois casos , elas acreditam que a aprendizagem do castelhano lhes permitirá ganhar e em conseqüência economizar mais dinheiro , acreditam que o aprendizado do quechua as rebaixará e de nada servirá.
As declarações dos homens bilingües correspondem tanto para os que já viajaram para costa de maneira ocasional (trabalhos temporários) como os que nunca saíram de Quinua, eles reconhecem o interesse em familiarizar-se com o castelhano sem que para eles o quechua seja um indício de menos valia.
Caso c: O entrevistado V.R., 28 anos. Viajou até Pisco e trabalhou na costa mas não gostou de sair de Ayacucho. Quer aprender mais castelhano mas ao mesmo tempo ser ajudado por quechua pois conhece essa língua. Mandaria seus filhos para Huamanga para aprender o castelhano.
Caso d: O entrevistado A.S. , 27 anos quer se aperfeiçoar no castelhano por achar necessário. Trabalhou em Santa Clara, Huncayo, Tambo y Huanta. E queria trabalhar em Callao onde há fábricas. Disse que seus filhos deveriam aprender quechua por ser a língua dos familiares.
Caso e: O entrevistado F.H., 44 anos declara que gostaria de melhorar o espanhol para poder retrucar, contestar os que falam espanhol. Não trabalhou na costa mas conhece Lima. Gostaria que seus filhos aprendessem a ler e escrever em quecha por poderem precisar no futuro.
Nos entrevistados, com menos de 30 anos prevalece o sentido prático e progressista, o entrevistado com mais de 44 anos tem medo do ridículo e leva em conta a inferioridade.
Todos acreditam que o emprego do quechua, em determinadas condições, pode facilitar as relações sociais ao lado do conhecimento do espanhol. O espanhol assegura uma melhor colocação profissional e o quechua atesta e preserva a identidade cultural e facilita e amplia o vínculo familiar.
O censo de 61 concluiu que para uma povoado de cinco anos com cerca de 8.235.000 pessoas. 60 % era monolingüe em espanhol e 40% eram bilingüe: quechua e espanhol.
Esse exemplo de Quinua e muitos outros que há no planalto e outros grupos machinguengas que vivem no vale de Mantaro e no estreito de Huaylas ; é imprescindível ações para que se cultive não só o espanhol mas também se preserve o quechua .
Em resumo, existe uma angústia que provém dos grupos que associam a necessidade do castelhano com uma melhor condição social e econômica.
A questão principal estabelece que esse multilingüismo expressa uma situação desintegrada do país, é que um meio de sanar essa política pode ser educacional.

A Língua Imaginária e a Língua Fluida: dois métodos de trabalho com a linguagem
Eni Pulcinelli Orlandi /Tania C.C. de Souza

As línguas indígenas não devem ser tidas de maneira preconceituosa como línguas totalmente diversas das da civilização. Também não podemos projetar sobre elas modelos de sistematização de uma língua ideal , ou seja, o português em primeira instância e o latim em última.
Aos objetos-ficção chamar-se-ão de línguas-imaginárias. São as línguas-sistemas, normas, coerções, as línguas-instituição, a-históricas. São resultantes de sistematização que faz com que percam a fluidez.
Trabalhar-se-á com a produção de uma língua-imaginária, ou melhor, duas: o tupi-jesuítico e o português-brasileiro. Distinguir-se-ão duas vertentes para se atestar a língua-imaginária:
1. A consideração da língua Tupi e da Lingüística Antropológica;
2. A relação do contato e do empréstimo.
Tupi e Lingüística Antropológica
O Tupi dos missionários não é exatamente o que era falado, por ter se tornado uma sistematização simplificada para ter função utilitária: propaganda religiosa.
Segundo Mattoso Câmara, o missionário fez um trabalho de disciplinação da língua tupi de interpretação do tupi de acordo com certos preconceitos sobre a gramática geral. Fez uma simplificação e estabeleceu a gramática ( José de Anchieta e Luís Figueira). Os missionários e os estudiosos de língua não tencionavam apenas estudar porém também aperfeiçoar a língua indígena segundo os padrões ocidentais.
A língua–imaginária tem um retorno sobre o real. A gramática é feita pelo gramático e missionário que transformam a língua que é , como crêem que deva ser.
A Lingüística só começou a levar em conta esse trabalho de normatização e adaptação progressiva do homem sobre os produtos naturais à medida que foi se enquadrando nas ciências sociais e antropológicas. A Lingüística Antropológica recebe esse nome por etnocentrismo , quando se trabalha com língua indígena ou posições culturalistas está no domínio da Lingüística Antropológica.
A língua imaginária tem efeito sobre o real e não é inofensiva. Ela impõe coerções, paradigmas e controla o uso. Ela não aceita qualquer fato da língua em qualquer situação.
Essa inferência produz apagamento do tupi no português, o cientista lida com um simulacro e não questiona o real histórico do contato. Neste contexto, a própria escolha do tupi como modelo já é uma forma de apagamento e redução que tem conseqüências históricas importantes.
A relação de contato e os empréstimos
O mais importante é o contato índios e sociedade e os processos discursivos que envolvem esse contato. O que já prenunciou-se é que houve um apagamento da cultura indígena no confronto com a civilização. A língua indígena ( primitiva) é tida como oposto ou em dissemetria com a língua do dominador, uma posição já de inferioridade à língua do dominador. As línguas européias e as línguas indígenas são percebidas sempre em relação à gramática.
Nesse estudo se propõe o contrário, a ênfase ser dada ao processo discursivo e a como se deu o apagamento.
No trabalho de Hamel e Sierra (1984), é feito um procedimento de deslocamento conceptual que é semelhante ao que aqui será proposto.
Este conceito é o da diglossia que é redefinida em termos de conflito. Captam no conceito a relação diglóssica como tensão das práticas discursivas e representações. Sem neutralidade.
Estudam as produções discursivas por meio das práticas discursivas do espanhol e do otomi. Analisam o deslocamento, a resistência e a vitalidade da língua minoritária e demonstram que a delimitação entre discurso dominante e dominado em relação à construção da hegemonia e da simultaneidade não coincide com as fronteiras entre o espanhol e o otomi.
A língua indígena foi introduzida nas escolas através de listas de tupinismos, ou seja, descaracterizada, restrita, não demonstrando assim a realidade histórica e cultural entre as línguas indígenas e a língua portuguesa. Até mesmo quando se fala em empréstimos relaciona-se as línguas européias ou asiáticas , quando se trata da língua indígena , não se menciona nem empréstimos, nem língua e sim palavras.
Esse estudo envolve processos de linguagem que não são neutros por estarem historicamente determinados e se inscreverem em relações políticas e ideológicas.
Para se estudar as línguas indígenas, faz-se necessário tê-las de forma dinâmica, em funcionamento e não configurá-la por meio da tradução de palavras isoladas. Não podemos jogar sobre essas línguas instrumentos já moldados, comprometidos com a idéia de sistema. Há necessidade de um estudo a partir de unidades vivas e atuantes enquanto textos, na sua historicidade.
O conceito que surge é o de língua fluida , ou seja, a observação da língua por meio dos processos discursivos, das práticas discursivas efetivas. Se por um lado a língua imaginária é a que os analistas fixam na sistematização, a língua fluida é livre de sistemas e fórmulas.
Depreende-se daí a verdadeira importância da convivência histórica da língua portuguesa com as línguas indígenas, que não se restringe a acrescentar alguns tupinismos ou topônimos, ou meros afixos, mas do que herdarmos uma riqueza vocabular , a riqueza da cultura envolta de nossa fauna e nossa flora. Nessa perspectiva não foi só a língua indígena influenciou a portuguesa como também ocorreu o contrário .
O tupi teve no Brasil um período áureo foi a língua da catequese e também a língua das bandeiras porém à medida que o colonizador fazia progressos, o tupi ficou confinado aos sertões.
Nesse processo de aculturação, não se reconhece a evolução histórica. Como se o contato das duas línguas tivesse sido quase inexistente e o que sobraram foram apenas palavras.
Acelere-se o extermínio do povo por meio do apagamento da língua. Como disse Gandavo, uma língua tão primitiva que não possuía o F, L, R, ou seja, fé, lei e nem rei.
Nega-se ao léxico incorporado o estatuto de empréstimos, tanto que estes ao serem incorporados amoldaram-se às regras da morfologia portuguesa, recebendo flexão de gênero, número e grau.
A não-caracterização dos empréstimos lingüísticos – um fator científico- é um argumento para descaracterizar o tupi como língua. Esses empréstimos são tidos como brasileirismos.
Embora não queiram admitir, os vestígios desses empréstimos estão presentes e são evidentes no exemplo do sufixo –rana-. É um sufixo que modaliza os nomes, dando-lhes o sentido de “como se fosse”. Por influência da tribo Assurini , em Belém, pode-se presenciar alguém dizer a palavra “netarana” , ou seja, como se fosse neta. Pensando o português: tatarana ( como se fosse fogo), cajarana ( como se fosse cajá) e sagarana (como se fosse fogo). Esse fato nos evidencia que há no português um processo produtivo de derivação na língua portuguesa que é resultante do contato com os indígenas. A partir desse indício concreto que aparece em rana, propomos uma metodologia e a construção de técnicas visíveis que evidenciem esse contato com as línguas indígenas.
O texto termina com uma indagação de Milner (1983) no qual constantemente Pêcheux se apóia, ele diz: “ Ou dito de outra maneira, não seria a língua senão uma máscara arbitrariamente construída e que não toca nenhum real?

BIBLIOGRAFIA

ORLANDI. E. O. Política Lingüística na América Latina.(org) Campinas, S.P: pontes, 1988.

Nenhum comentário: