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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Pequeno manual para redação

Pequeno manual para redação (Por Davi Fazzolari)
Mesmo com a imensa variedade de temas que os principais vestibulares do país costumam apresentar para a redação, a cada ano são comuns as escolhas dos grandes debates abertos e aquecidos pelas variadas mídias e, por isso, não surpreendem quem acompanha a formulação das provas durante determinado período. Muitas vezes, a escolha nasce de polémicas bastante elementares, ao redor de questões ligadas à injustiça social - a "temas sociais" -, outras, de verdadeiros dilemas da hummanidade - "temas filosóficos"*. Mas tanto em um caso como em outro, as formulações que se lêem nas propostas se valem de textos de apoio que, de certa forma, conduzem o candidato à leitura crítica dos fatos.
O tema é apenas parte do jogo. As boas propostas de redação costumam tomar como base o uso de repertório do próprio candidato.** Isso quer dizer que o conhecimento acumulado com leituras variadas que fez até então é fundamental não só para a compreensão da prova como para o desenvolvimento mais adequado da opinião.
Um tema como o do mundo digital (Puvest 2008) levou bons candidatos a pensar em suas leituras, e a banca avaliadora pôde ler trechos produzidos a partir das obras de Dostoiévski ("...Mente! mente que vais chegar à verdade!"), Machado de Assis ("O pior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado"), Carlos Drummond de Andrade ("...Como vencer o oceano/se é livre a navegação/mas proibido fazer barcos?")... Muitas vezes, as famosas listas de "leitura obrigatória", se bem exploradas pelo candidato, já forman um repertório razoável para a elaboração de bons parágrafos argumentativos. O bom cinema, o teatro, boas matérias jornalísticas também compõem esse importante banco de referências de cada autor.
Plano de texto
Ainda que o tempo oferecido para a elaboração da redação, em um vestibular, seja sempre uma grande preocupação do candidato, fazer um pequeno plano de texto tende facilitar as coisas. O tempo que o plano toma costuma ser devolvido na etapa final da produção do texto. Como o texto opinativo é composto de seções quase obrigatórias, o plano de texto ajuda a organizá-las.
Uma ideia prática para formular o plano de texto é questionar o tema. Dessa forma, as perguntas exploram a proposta, e as possíveis respostas esboçam os parágrafos.Vamos ver um exemplo.
A Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2009, apresentou uma proposta que pedia a elaboração de um "texto dissertativo argumentativo" no qual o candidato deveria desenvolver "reflexões a respeito do olhar
sobre a normalidade/anormalidade". Para auxiliar o estudante, três textos de naturezas próximas, mas com linguagens diferentes, serviam de "aquecimento". O primeiro era um trecho de uma conhecida canção dos
Mutantes ("Dizem que sou louco / Por pensar assim / Se eu sou muito louco / Por eu ser feliz/ Mais louco é quem me diz/ Que não é feliz, não é feliz."); o segundo, urna consideração da psicanálise extraída de E. Meninger (Normalidade é a habilidade de se adaptar ao mundo exterior com satisfação e para dominar a tarefa de culturação."); e, por fim, duas frases do poeta Carlos Drumnod de Andrade, extraídas de sua Prosa Seleta ("A. loucura é diagnosticada pelos sãos, que não se submetem a diagnóstico. Há um limite em que a razão deixa de ser razão, e a loucura ainda é razoável."/ "Somos lúcidos na medida en que perdemos a riqueza de imaginação.'')
Levando em conta os textos e sem copiá-los, um bom plano de texto poderia estabelecer as etapas da dissertação (apresentação, desenvolvimento e desfecho) a partir, por exemplo, das seguintes reflexões:
Apresentação
Somos razoáveis quando saímos de casa com automóveis mesmo sabendo dos constantes engarrafamentos na cidade? Estamos de que lado da fronteira normal/ anormal quando optamos pelo transporte particular em tempos de alertas sobre a poluição e o aquecimento global?
Certas afirmações, se publicadas fora de seu contexto original, podem ser lidas como verdadeiras loucuras proferidas por alguém fora de sua razão.
A ética condena o desmatamento, mas o gosto estético de certas camadas sociais alimenta-se do mogno e de madeiras nobres. Isso não será "uma loucura"?
Desenvolvimento
Lemos a loucura nas obras literárias com mais entusiasmo do que lemos o comportamento ponderado das personagens.
A loucura, aliás, costuma ser associada a artistas — músicos, poetas, pintores, dramaturgos. Toda loucura será genial?
O gosto da maioria define o comportamento cultural de determinada comunidade. A ação repetitiva, contudo, é mais associada à loucura ou à razão?
No cinema, as personagens que fogem da razão costumam envolver nais os espectadores. Algumas apenas nos divertem, outras provocam profunda reflexão.
Mais que os comportamentos lineares, tidos como normais, as contradicões costumam instigar o espírito humano. Um comportamento fora dos padrões pode provocar medo, raiva, inveja, admiração, respeito...
Desfecho
O que define a normalidade ou a anormalidade é a cultura de um povo e de uma época. Variando local e época, certos comportamentos podem ser considerados adequados ou loucos. Será razoável ler como excludentes normalidade e anornalidade?
Leitura e intertextualidade
Uma das etapas mais exigentes da prova de redação — e, às vezes, a menos valorizada — é a capacidade de leitura do candidato. Decodificar, compreender, interpretar e, finalmente, extrapolar os limites dos textos oferecidos pela proposta de redação pode ser o fator decisivo para o sucesso da redação. O candidato que percebe as intenções da antologia e dos seus autores consegue, rapidamente, estabelecer relações entre as linguagens e contemplar a expectativa da banca avaliadora.
A prova de redação da Unicamp 2009, por exemplo, reuniu excertos extraídos das mais variadas fontes, das mais variadas linguagens, ligados por temáticas comuns. Assim, o candidato foi submetido a um exame
preliminar do tema proposto, a partir de um contundente texto jornalístico que questionava a prática de maus-tratos aos animais, mesmo depois de aprovada a Lei 9.605, de 1998, que protege a fauna silvestre e exótica, domesticada ou não. Em seguida um não menos contundente artigo publicado na Revista Pesquisa Fapesp defendia o uso de cobaias animais em estudos científicos, gerando um debate ao redor da Lei Arouca,
aprovada no Senado em 2008, que prevê o uso de seres vivos criados para fins científicos, matéria específica, aliás, do terceiro texto da antologia. O quarto texto – verdadeira provocação ao candidato – condenava as generalizações e a adoção de crenças absolutistas que costumam afirmar que só um especialista pode opinar, com qualidade, sobre um tema, dentro do âmbito científico. Mais dois materiais - sendo um deles uma fotografia- abordavam o poder da opinião da comunidade científica.
Para o candidato atento era nítida a intenção da antologia de expor opiniões opostas acerca do uso de cobaias por cientistas. Assim, era convite claro ao posicionamento crítico do jovem autor pré-universitário.
FUVEST 2009: uma breve análise
A proposta de redação traz como tema as fronteiras em sentido amplo: geográficas, psicológicas, culturais... O assunto é rico numa época como a nossa, em que a informação e a cultura estão globalizadas, mas os conflitos persistem pelo planeta

Analisemos, agora, a proposta de redação do último vestibular da Fuvest. "As fronteiras", levadas à
diversificada leitura - "geográficas", "psicológicas", "do pensamento", "da ciência", "da linguagem" -, mostrou-se tema bastante expressivo para ser explorado em nossos tempos. Ao mesmo tempo em que muitos países tentam promover unificações políticas e comerciais, outros intensificam as defesas de seus territórios e posses, renovando um processo histórico de segregação externa e interna. Por outro lado, o respeito à fronteira, no trato de questões culturais, costuma ser bem recebido em nome de certa independência identitária.
A proposta apresentou três peças de natureza distinta para compor o tema geral. A primeira era uma fotografia, que destacava a demarcação de fronteira geográfica entre Holanda e Bélgica em solo
aparentemente urbano. A segunda, o verbete "fronteira", extraído do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, e, para encerrar a antologia, uma consideração de caráter científico acerca das possibilidades
semânticas do termo fronteira.
A primeira peça da antologia procurava conduzir o candidato atento à leitura de uma imagem aparentemente simples. Ao mesmo tempo em que se destacava, de modo bastante concreto, o limite entre
um país e outro, revelava-se sua pouca importância, assemelhando-se, a demarcação de fronteira, à mera decoração de solo urbano, a um ponto tal de entrecruzarem- se essas duas possibilidades. De certa forma, a fotografia expunha os dois lados não apenas de dois países, mas os dois lados do tema geral da prova.
Nesse momento já seria possível elaborar uma série de questionamentos e começar a rascunhar um pequeno plano de texto: "Qual é a real importância das demarcações? As fronteiras promovem apenas separações ou poderiam gerar aproximações dos núcleos humanos? O contato com outros povos pode promover integração cultural? As diferenças entre nações fronteiriças tendem a ser menores do que as verificadas entre países de continentes diversos, mesmo se importantes conflitos armados nascem
em estados fronteiriços?"
As quatro definições que formam o verbete promovem algumas importantes reflexões, dada a extensão semântica do verbete fronteira. Momento de possível rascunho de ideias que, em seguida, poderiam alimentar os argumentos. "Por derivação, seria possível explorar as fronteiras até seus próprios limites. Quem (ou o que) determina as fronteiras da amizade ou dos relacionamentos amorosos? Como seria possível mapear fronteiras morais? Quando se estabelece uma fronteira? Quais seriam seus principais agentes curiosamente, civilização
e barbárie, em alguns casos, são resultado de limitações obrigatórias."
O último texto da antologia, sem nenhuma assinatura, procurava explorar a diversidade da palavra, reforçando o que as definições do dicionário, do texto anterior, já haviam apontado. De um lado, as fronteiras geográficas e, de outro, as fronteiras em seu "sentido figurado", sugerindo, assim, as possibilidades de trabalhar com fronteiras internas e externas. Além disso, esse último texto apresentava uma reflexão sobre a dinâmica das fronteiras - "As fronteiras geográficas são passíveis de contínua mobilidade, dependendo dos movimentos sociais e políticos de um ou mais grupos de pessoas." – e abria campos de ideias para os candidatos quando lembrava que "existem fronteiras psicológicas, fronteiras do pensamento, da ciência, da linguagem etc."
Após a antologia, a prova apresentou suas exigências formais. A primeira parte do enunciado determinava que o texto deveria ser uma dissertação elaborada "com base nas ideias sugeridas acima [na antologia]".
O candidato deveria escolher "uma ou duas" [ideias] como tema e utilizar "informações e argumentos que dessem consistência a seu ponto de vista".
A última fase do enunciado apresentava as instruções técnicas - de modo um tanto infeliz. A orientação "Procure seguir estas instruções" precedia os verbos "lembrar" e "dar", no modo imperativo, o que poderia causar alguma dúvida. Polémicas à parte, essa etapa determinava o uso da "modalidade escrita culta da língua portuguesa", do "título" e da extensão do texto - 20 a 30 linhas -, formato que tem sido regra nos últimos vestibulares elaborados pela Fuvest.

Proposta
FRONTEIRA
substantivo feminino
1. parte extrema de uma área, região, etc., a parte limítrofe de um espaço em
relação a outro. Ex: Havia patrulhas em toda a f.
2. o marco, a raia, a linha divisória entre duas áreas, regiões, estados, países, etc.
Ex.: O rio servia de f. entre duas fazendas.
Derivação: sentido figurado, o limite, o fim de algo de cunho abstrato.
Ex.: Havia chegado à fronteira da decência.

Fonte: Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Adaptado.

As fronteiras geográficas são passíveis de contínua mobilidade, dependendo dos movimentos sociais e políticos de um ou mais grupos de pessoas. Além do significado geográfico, físico, o termo "fronteira" é utilizado também em sentido figurado, especialmente quando se refere a diferentes campos de
conhecimento. Assim, existem fronteiras psicológicas, fronteiras do pensamento, da ciência, da linguagem, etc.

Com base nas ideias sugeridas acima, escolha uma ou até duas delas, como tema, e redija uma dissertação em prosa, utilizando informações e argumentos que dêem consistência a seu ponto de vista.

Procure seguir estas instruções :
- Lembre-se de que a situação de produção do seu texto requer o uso da modalidade escrita culta da lingua portuguesa
- Dê um título para sua redação ,que deverá ter entre 20 e 30 linhas.
.................
* "Tema social" e "terra filosófico" são expressões genéricas muito usadas em salas de aula do 3° ano e dos cursos pré-vestibulares corro recursadidático
para classificar, respectivamente, os temas com inclinação ao debate histórico e ideológico - geralmente motivados pelos variados probímas enfrentados
pelas sociedades contenporâneas - e os temas gerados por olhares mais antropológicos, resgatados com base na observação dos variadoicomportamentos
culturais. Assim, ê muito comum que um assunto ligado ã discriminação socioeconõmica receba o rótulo de "tema social", enquanto umapropostsde que a
redação discuta a "am iiade" ganhe o carimbo de "tema filosófico".
**. O repertório de leitu rs do aluno é fundamental para a originalidade de sua argumentação. Um candidato que, de modo adequado, trabalhe na òrm ulaçãi de argumentos
com uma obra literária - reconhecida pela crítica especializada - ou com o pensamento de importantes historiadores, geógrafos e econonistas, ou linda que apresente conceitos importados diretaemnte da filosofia trará densidade às sua ideias e, provavelmente, produzirá um texto com maiores chances de aprovação.
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ATUALIDADES VESTIBULAR 1° SEMESTRE 2009 p 151,156,157.
Prof. Eliorefe Cruz Lima

Um comentário:

Anônimo disse...

muito bom mesmo parabens!!!