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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Os empréstimos lingüísticos descaracterizam a língua ou não?

Por prof. Eliorefe Cruz Lima

Considerações iniciais

Este trabalho tem o objetivo de abordar a questão tão em voga – a descaracterização da língua materna – no caso , o português, por meio dos empréstimos lingüísticos estrangeiros. Para tanto,vamos mostrar que esta questão é motivo de discussão desde quando uma língua é reconhecida como idioma oficial e de identidade nacional de um país. O problema da descaracterização do idioma pelos estrangeirismos, e a resistência contra essa invasão e uma política de defasa por meio de decretos não é uma preocupação apenas do Brasil. Isso acontece ou aconteceu em Portugal,Itália,Espanha ou em qualquer outro país do mundo.


01.Justificativa

Este trabalho nasceu em virtude de algumas discussões, em sala de aula, se os estrangeirismos descaracterizam a língua ou não. Isso se deu devido ao Projeto de Lei (PL) nº 1676/1999, do deputado federal Aldo Rebelo do PC do B. Este PL tem como ementa “a promoção, a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa e dá outras providências.” E o deputado justifica seu projeto dizendo que

a História nos ensina que uma das formas de dominação de um povo sobre outro se dá pela imposição da língua. Por quê? Porque é o modo mais eficiente, apesar de geralmente lento, para impor toda uma cultura - seus valores, tradições, costumes, inclusive o modelo socioeconômico e o regime político.
Foi assim no antigo oriente, no mundo greco-romano e na época dos grandes descobrimentos. E hoje, com a marcha acelerada da globalização, o fenômeno parece se repetir, claro que de modo não violento; ao contrário, dá-se de maneira insinuante, mas que não deixa de ser impertinente e insidiosa, o que o torna preocupante, sobretudo quando se manifesta de forma abusiva, muitas vezes enganosa, e até mesmo lesiva à língua como patrimônio cultural.

02. Fundamentação teórica

Para fazer uma abordagem sobre o assunto citado, resolvemos mostrar o que pensam alguns mestres da língua portuguesa, como o lingüista da Universidade de São Paulo(USP),José Luís Fiorin, no texto Política lingüística no Brasil, da revista Gragoatá;,Língua Portuguesa OK,entrevista concedia a Eliane Azevedo do Jornal do Brasil.; Camões não tem medo do Tio Sam: domínio de inglês é essencial para diplomacia, do gramático Evanildo Bechara, entrevista concedida a Laura Grrnhalgh de O Estado de São Paulo, e, de sua própria Moderna gramática portuguesa e outras fontes de apoio constantes no corpo e nas referências bibliográficas finais deste trabalho.

3. Contextualização histórica.

Na formação e desenvolvimento de uma língua deve ser considerado seu contexto cultural,histórico,social,político e econômico.E para a abordagem da descaracterização da língua portuguesa no Brasil pela invasão dos empréstimos lingüísticos, cabe esclarecer que essa questão é tão antiga desde quando o latim era a língua da civilização romana. Nessa época,por volta do século X ou IX,provável data de fundação de Roma, o latim já apresentava variações regionais e sociais. Essa variação era distintas pelo latim literário,utilizado na escrita e transmitida pela tradição escolar e o latim vulgar,usada por soldados,colonos e trabalhadores (cf. Filho 2002:7,8). Este ainda declara que “à expansão da civilização romana seguiu-se a difusão de seu idioma pelos territórios conquistados, que se latinizaram, isto é, assimilaram a cultura romana.” Para Filho (op.cit.p.8) ,

a fala da população romana não aristocrática foi inicialmente estudada por Fiedrich Diez,fundador da Lingüística Românica ,na primeira metade do século XIX,e foi por ele denominada de latim vulgar . Deve-se a Diez a constatação de que as línguas latinas modernas não derivaram do latim literário, como se supunha, mas do latim vulgar. Os estudos por ele inaugurados também viriam a constatar que o latim vulgar não foi uma degeneração do latim literário ou do sermo urbanus,mas uma variação tão antiga quanto a segmentação da sociedade romana em classes.
A conquista, por Roma, de um território determinava o envio, para lá, de grande número de falantes do latim.(...) Deslocavam-se magistrados, funcionários públicos e chefes militares encarregados da administração da nova província. Mas (...) estes, eram a maioria da população. Em grande parte, os latinos que iam para as regiões conquistadas eram soldados, colonos, ou trabalhadores, falantes, portanto, do latim vulgar.


04.Estrangeirismo: conceituação e a preocupação de descaracterização da língua

No mundo moderno de hoje, e globalizado, é impossível uma língua não absorver termos técnicos ou de uma outra área especifica. Esta absorção acontece por meio do estrangeirismo. Este é defino pelo gramático Bechara (1999:599) como “o emprego de palavras, expressões e construções alheias ao idioma que a ele chegam por empréstimos tomados de outra língua.”
E, são esses empréstimos lingüísticos que têm preocupado alguns setores da sociedade entre eles muitos lingüistas e alguns políticos. Estes, segundo Silva, (2002:3) “acreditam que a imposição cultural imposta por essas línguas poderiam impregnar o português de termos que a longo prazo desfigurariam o sistema” da língua.







05..Como e por que surgem os estrangeirismos

Em pleno século XXI, considerado a era da informática, o mundo globalizado, os meios de comunicação de massa, e agora o mais novo meio de comunicação em tempo real, a Internet, fica impossível qualquer país ficar alheio ou livre dos empréstimos lingüísticos.
Sobre isso Bechara (1999:599) declara que

Modernamente no mundo globalizado em que vivemos, onde os contatos de nações e de cultura são propiciados por mil modos, os estrangeirismos interpenetram-se com muita facilidade e rapidez. Para nós brasileiros os estrangeirismos de maior freqüência são os francesismos ou galicismos (de língua francesa), anglicismos (de língua inglesa), espanholismos ou castelhanismos (de língua espanhola),italianismos(de língua italiana).

Assim, fica evidente que a quebra de distâncias proporcionas pela mídia fica inevitável a invasão dos estrangeirismos. Além disso, os Estados de fronteiras do Brasil, como Rio Grande do Sul,Paraná e Santa Catarina são os mais volúveis aos espanholismos,por exemplo. Por outro lado, cabe ressaltar, que de certa forma, no Brasil, a televisão ajuda a planificar ou levar ao conhecimento das camadas mais distantes das grandes metrópoles, certas expressões, vocabulários, sotaques, costumes, etc. E isso acontece principalmente pelas novelas da Rede Globo.


05.1.Os estrangeirismos descaracterizam a língua ou não?

Se os estrangeirismos realmente descaracterizassem a língua, há muito tempo viveríamos em uma Torre de Babel como nos primórdios da criação do homem mencionada na Bíblia,ou não falaríamos mais a língua portuguesa. Mas não é o que acontece, pelo contrário, a invasão de estrangeirismos é um processo natural, é o resultado de um produto social e até enriquecedor da língua e não de degradação de um país como alguns pensam.Sobre isso Bechara (1999:599) diz que

os estrangeirismos léxicos que entram no idioma por um processo natural de assimilação de cultura ou de contigüidade geográfica, assumem aspecto de sentimento político-patriótico que,aos olhos dos puristas extremados,trazem o selo da subserviência e da degradação do país.. Esquecem-se de que a língua, como produto social, registra, em tais estrangeirismos, os contatos de povos.

Ainda, em entrevista ao Jornal da Ciência, Bechara foi lembrado de que o português estava sendo invadido por expressões inglesas ou americanizadas como background, playground, delivery, fast food, baby sitter, download,etc.E foi interrogado se isso não o preocupava. Ele respondeu:

Não. É preciso diferenciar língua e cultura. O sistema da língua não sofre nada com a introdução de termos estrangeiros. Pelo contrário, quando esses termos entram no sistema têm de se submeter às regras de funcionamento da língua, no caso, o português. Um exemplo: nós recebemos a palavra xerox. Ao entrar na língua, ela acabou por se submeter a uma série de normas. Daí surgiram "xerocar", "xerocopiar", "xerografar", enfim, nasceu uma constelação de palavras dentro do sistema da língua portuguesa. É até enriquecedor, pois incorpora palavras. Não há língua que tenha o seu léxico livre dos estrangeirismos. A língua que mais os recebe, curiosamente, é o inglês, por ser um idioma voltado para o mundo.

É importante observar e reafirmar, no tópico acima, que a descaracterização da língua não acontece, porque, quando os estrangeirismos “entram no sistema eles têm de se submeter às regras de funcionamento da língua”. E acrescenta, na mesma entrevista, que
as maiores mudanças ocorreram no vocabulário, porém a língua manteve seu sistema interno, sua morfologia e sua sintaxe. Também a fonética não tem tanta importância quanto a morfologia e a sintaxe
Ainda sobre o assunto, o lingüista e professor da USP, José Luís Fiorin, em entrevista ao Jornal do Brasil (2002:1, 3), indagado quais seriam os problemas lingüísticos do PL de Aldo Rebelo,também demonstrou a mesma posição de Bechara , de que as invasões dos estrangeirismos não descaracterizam a língua. E, dentre vários problemas lingüísticos do PL apresentamos quatro comentados por Fiorin:
O primeiro problema do PL que Firion apresenta seria a dificuldade de comunicação para o homem simples com a invasão dos estrangeirismos ligados ao campo da produção, publicidade de bens e serviços. Sobre isso, o professor acrescenta
que existe um preconceito sobre a capacidade de parte da população de aprender determinados setores do léxico, do vocabulário da língua. Até o Guga atingir os primeiros lugares do ranking do tênis mundial, ninguém sabia o que era game ou match point. Hoje, em qualquer botequim se discutem os games e match points. Por quê? Porque, quando uma parte do léxico passa a ser importante para uma pessoa, ela aprende. Ninguém vai deixar de saber o que é sale, delivery, off, mesmo que não fale inglês. (op.cit)


Assim, se determinado vocábulo interessa ao falante, faz parte do seu mundo social, cultural, ideológico, ele não vai deixar de entender, mesmo que esteja em outro idioma.
O segundo problema do PL diz respeito à descaracterização da língua quanto ao sistema fonológico. Quanto a isso, a descaracterização não ocorre por que


cada língua tem um sistema de sons para compor as palavras, com regras. Em português, a regra diz que não existem palavras que terminem em t ou g. Quando aparece um t ou um g numa palavra estrangeira, nossa tendência é colocar um i. A gente compra hot dog mas diz roti dogui. Isso significa que estamos importando as palavras estrangeiras, mas adaptando-as ao sistema fonológico do português. (op.cit)


O terceiro problema é com relação ao sistema gramatical. Nesse ponto acontece um fato curioso: sempre quando criamos verbos em cima de estrangeirismo, a única conjugação possível são os verbos de primeira conjugação


como em deletar ou printar. E como se conjuga? Naturalmente: deletei, deletarei, tinha deletado. Os termos em inglês estão entrando em nossa língua pela primeira conjugação, sem violar, portanto, nosso sistema gramatical.(op.cit)


E o quarto problema diz respeito ao fundo léxico comum. Este

é composto das palavras mais antigas da língua, que expressam noções que vêm de há muito tempo, sem mudanças. Pertencem ao fundo léxico comum palavras que definem as partes do corpo (cabeça, braço); os termos de parentesco básico (pai, mãe, irmão); noções religiosas ancestrais (alma, deus); nomes de cores; palavras que indicam vícios ou virtudes (bondade, vaidade, orgulho). Veja, tivemos a incorporação do termo brother (irmão). Só que, em português, brother significa amigo.(op.cit)

Assim, algumas palavras em inglês que entram na língua portuguesa, não estão substituindo palavras do fundo léxico comum.Portanto, segundo o que foi exposto, a língua não está sendo descaracterizada “ em seu sistema fônico, no sistema gramatical e no fundo léxico comum.” (op.cit)







Considerações finais

Diante do que foi exposto, podemos concluir que na prática social, em determinadas circunstâncias, como a profissão de certas classes trabalhistas como o economista, o advogado, o médico, o físico ,o professor de informática,de lingüística ,de literatura, ,etc, obrigam-nos a fazer uso de empréstimos lingüísticos ,neologismos,termos técnicos,etc. Mas tudo isso não vai atingir a língua em seu sistema fônico,gramatical e no fundo léxico comum,pois “enquanto o português for a língua que usamos nos momentos mais importantes e mais íntimos da vida,não corre perigo.” (2002:1,3).Tanto é verdade, se olharmos o primeiro texto escrito em 1198 (ou 1189), em língua portuguesa, a ‘ cantiga de guarvaia’ mais conhecida hoje como a Canção da Ribeirinha, de Paio Soares de Taveirós,cantiga inspirada em dona Maria Pais Ribeiro ,podemos perceber que seu sistema gramatical e sintático continuam iguais,apesar de ter seus 800 ou mais anos de existência.
Após a exposição desses argumentos, cabe ressaltar que não estamos insinuando o “vale tudo”, nem devemos ignorar as gramáticas normativas ou jogá-las no lixo. Mas combater “o estabelecimento do padrão escrito tradicional como única norma aceitável para todos os meios de comunicação, todas as regiões, todos os tipos de relação social” (Perini,2003). O falante, também, deve ter o bom senso de não demonstrar um certo esnobismo ou pedantismo no uso de estrangeirismos ou termos técnicos como forma de demonstrar refinamento ou modernidade, se em determinada circunstância isso não exigir,pois há uma ocasião adequada para tudo.Ter competência lingüística, ser um falante ideal - usar a língua adequadamente nas mais diversas situações de comunicação - seria o mais aceitável e louvável.











Referências bibliográficas

BECHARA, Evanildo.Camões não tem medo do Tio Sam:domínio de inglês é essencial para diplomacia.O Estado de São Paulo, 16 jan. 2005. Entrevista concedida a Laura Grrnhalgh.
-------------Moderna gramática portuguesa. 37.ed.,Rio de Janeiro:Lucerna,1999.

FIORIN, José Luis. Língua portuguesa OK.Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 março 2002. Caderno B.p.1,3.

FILHO, Paulo Bearzoti. Formação lingüística no Brasil.Curitiba: Nova Didática, 2002.

PERINI,Mário A . A norma oculta. Resenha de A norma oculta. Marcos Bagno.São Paulo: Parábola, 2003.Disponível em: www.marcosbagno.com.br
Acesso em 19 de fev. 2005.

SILVA, Antonio Carlos Pinho. Identidade brasileira e empréstimos lingüísticos. São Paulo, 2002, Monografia. (trabalho de conclusão de curso em língua portuguesa). COGEAE, PUC-SP.

Bibliografia de apoio

BELINE, Ronald. A variação lingüística. In: FIORIN, José Luis. Introdução à lingüística. São Paulo: Contexto, 2002.

FIORIN, José Luis.Política lingüística no Brasil, Gragoatá, Niterói,n 9, 2.sem. 2000.

MOISÉS, Massaud. Pequeno dicionário de literatura portuguesa.São Paulo: Cultrix, 1981.


POSSENTI, Sírio. Ideologias lingüísticas. Disponível em: www.marcosbagno.com.br
Acesso em 19 de fev. 2005.

RODRIGUES, André Figueiredo. Como elaborar referência bibliográfica. 2.ed.,São Paulo:Humanitas,2004.

SARAIVA, Antônio José & LOPES, Oscar. História da literatura brasileira. 2..ed.,Lisboa:Porto,s.d.

NICOLA, José de. Língua, literatura e redação.v.1, 13.ed.,São Paulo:Scipione,1998

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