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sábado, 13 de fevereiro de 2010

O dialogismo com o interlocutor e com a história no texto jornalístico

Por prof. Eliorefe Cruz Lima

Considerações iniciais

Este trabalho tem o objetivo de abordar como se dar o diaologismo com o interlocutor e com a história no texto jornalístico.Para tanto, faz-se necessário definir o que seriam os termos Dialogismo, Polifonia e Intertextualidade. Para estas definições tomamos como base os textos Discurso e mudança social ; de Norman Fairclough ;Dialogismo,Polifonia e Enunciação e Contribuições de Bakhtin às teorias do discurso ,de Diana Luz de Barros;As vozes bakhtinianas e o diálogo incluso,de Beth Brait; O texto como objeto histórico,de José Luiz Fiorin,; e Discurso e leitura ,de Eni Orlandi.

01.Apresentação do corpus

O corpus deste trabalho é formado por uma notícia de jornal veiculada no jornal Folha de São Paulo, do dia 15 de março de 2005,cuja título é Vinte anos depois ,de JORGE BORNHAUSEN.E para comprovar como o texto citado faz intertextualidade com outros textos,fizemos um confronto com os seguintes textos:
O navio negreiro,de Castro Alves;Romanceiro da Inconfidência ,de Cecílcia Meireles;A conspiração,de Kenneth Maxwell; e alguns textos da Bíblia,intitulados: Deus manda Samuel ungir a Davi como rei; Jesus anda por cima do mar ; Os pastores de Belém; João Batista; Admoestações e promessas finais – conclusão; e O sermão da montanha – as beatitudes.
Vale ressaltar que o texto (corpus) faz referência a muitos outros textos ,que não seria possível abordá-los, aqui ,na íntegra. Mas,foram utilizados apenas alguns como exemplificação.


02.Considerações teóricas

Antes de fazermos o confronto entre o texto Vinte anos depois com os outros textos citados, vale lembrar que uma das concepções de leitura é atribui sentidos ao texto.E esse sentido, o leitor não dar simplesmente lendo o texto sem fazer a intertextualidade. Parafraseando o livro Discurso e leitura, Eni Orlandi afirma que uma leitura compreensiva depende da historicidade do leitor..E ao ler um texto, o leitor deve procurar saber em que condições, circunstâncias e contextos históricos e culturais o texto foi escrito.
O sujeito leitor não é a fonte do discurso. Ele é apenas reprodutor de outros discursos já preexistentes. E que os efeitos discursivos de outros locutores resultam no apagamento do sujeito-autor que tem a ilusão de ser a fonte do seu discurso, ou seja, “o que eu digo tem o sentido que eu quero. O que eu disse só pode significar X.” No entanto, cada leitor que ler um determinado texto, dar vários outros significados que o autor não previu. Assim, o leitor, torna-se co-autor do texto, criando novos discursos, deixando o primeiro sujeito-autor, “apagado”. Vemos cumprir, assim, a leitura polissêmica. Desse modo ,a questão da legibilidade de um texto se torna pessoal,ou seja,um mesmo texto pode ser compreensível,coerente para um determinado tipo de leitor ,já para outro não,pois isso depende de sua historicidade de vida - de seu acervo cultural de leitura ,de conhecimento de mundo - para descobrir as outras vozes que permeiam um dado texto,e que essas vozes ajudam-no a dar sentidos ao texto. (cf. Orlandi, 1998).
E ainda sobre isso, em O texto como objeto histórico, José Luiz Fiorin acrescenta que “o discurso é tecido a partir do discurso do outro. Todos são(...) ‘ atravessados,’ ‘ocupados,’ ‘ habitados,’ pelo discurso do outro.”( In Bastos,2000:67). Assim,para o leitor observar esses discursos do outro,é desejável que ele tenha uma historicidade. E todas essas considerações acima,poderíamos dizer que isso seria um conceito de intertextualidade. Foucault,(apud Fairclough,s.d.p.133) conceituou a intertextualidade como algo que “não pode haver enunciado que de uma maneira ou de outra não reatualize outros.” E Bakhtin, (op.cit.p.134) também declara:

Nossa fala ... é preenchida com palavras de outros,variáveis graus de alteridade e variáveis graus do que é de é de nós próprios. Essas palavras carregam com elas suas próprias expressões ,seu próprio tom avaliativo,o qual nós assimilamos,retrabalhamos e reacentuamos.

Kristeva,(op.cit.p.134),também dar um conceito interessante,dizendo que a intertextualidade implica ‘ a inserção da historia(sociedade)em um texto e deste texto na história.’ E,por ‘inserção da história em um texto’, Fairclough explica que Kristeva quis dizer “ que o texto absorve e é construído de textos do passado.” E por ‘ a inserção do texto na história,’ “ela quer dizer que o texto responde,reacentua e retrabalha textos passados e, assim fazendo,ajuda a fazer história e contribui para processos de mudança mais amplos,antecipando e tentando moldar textos subsequnetes.”
Fairclough também fala de dois tipos de intertextualidades: a manifesta e a constitutiva.
Na intertextualidade manifesta, os “outros textos estão explicitamente presentes no texto”. Essa manifestação explícita é marcada ou sugerida por aspa ou verbo dicendi.Já a intertextualidade constitutiva não é mostrada linermente na superfície do texto,ela é mais diluída ,cabendo ao leitor,nas entrelinhas,perceber de que forma se dar essa intertextualidade. Sendo, assim ,a mais difícil de ser detectada. Exige-se ,do leitor, mais conhecimento e sensibilidade de perceber a heterogeneidade discursiva no texto.Sobre isso Brait(2003:14) parafraseia Bakhtin dizendo

que tudo é dito,tudo que é expresso por um falante,por um enunciador,não pertence só a ele. Em todo discurso são percebidas vozes, às vezes infinitamente distantes, anônimas, quase impessoais, quase imperceptíveis, assim como as vozes mais próximas que ecoam simultaneamente no momento da fala.

E quanto ao Dialogismo,este está ligado à dimensão de sentido do discurso. Poderíamos chamar de “ o princípio constitutivo da linguagem e a condição do sentido do discurso” (Barros,2003:2)) não mostrada na superfície textual. Seria a condição de sentido que cada leitor ou ouvinte dar ao discurso de acordo com sua concepção de mundo.
E,com relação à Polifonia ,esta estaria ligado às vozes em confronto .São

as diferentes vozes instauradas num discurso(...) um princípio de estruturação em que as idéias ,os pensamentos,as palavras configuram um conjunto que se instaura através de várias vozes,ecoando cada uma de maneira diferente(...)não é o conjunto das idéias como algo neutro e idêntico a si mesmo,mas a variação do tema em muitas e diferentes vozes ,produzindo um polivocalismo,um heterovocalismo (... )as múltiplas vozes sociais urdidas nessa tessitura.”(op.cit.p.22,23)

E “nessa tessitura” podemos incluir os dialetos territoriais e sociais,os discursos profissionais e científicos,linguagem familiar,idade,camada social,etc. Assim,podemos perceber que os conceitos de diaologismo,intertextualidade e polifonia estão imbricados – todos estão ligados de forma complementar. Ficaria difícil analisar cada conceito isoladamente um do outro.

03.Análise do corpus

Para concretiza as teorias acima,agora vamos observar,na integra,o texto Vinte anos depois. Para facilitar a leitura e a compreensão da análise,foram feito alguns destaques(em negrito) em palavras,frases ou expressões no texto original.

Texto( corpus).

Vinte anos depois
JORGE BORNHAUSEN

A primeira lembrança que me ocorre, hoje, recordando o 15 de março de 1985, não é dos que celebravam -finalmente havíamos conseguido uma manifestação plebiscitária informal do povo brasileiro, transformando a votação do Colégio Eleitoral numa verdadeira eleição direta de Tancredo Neves. Mas é dos "homens de pouca fé", poucos, mas arrogantes e descrentes na força da democracia (que, por ironia, 18 anos depois os levaria ao poder, legitimamente, conquistando pelo voto o que certamente não teriam alcançado pela arrogância de 1985).
A Nova República é um compromisso que jamais se esgotará. Ungiu-nos a todos os que ajudamos a implantá-la

Esses pobres de espírito, insensíveis à virtude da esperança, recusaram o que à grande maioria do povo pareceu a saída do país, sem sangue, ódio e vingança, para liqüidar o regime de 1964 e substituí-lo por uma nova ordem, verdadeiramente democrática, que abrigasse, sem exceção, todas as tendências, ideologias, partidos e organizações que se dispusessem ao jogo civilizado da política.
Quando, mulheres e homens de boa vontade, apostamos na experiência e vocação política de Tancredo Neves e o adotamos como profeta e guia, líder e evangelista, promovíamos um prodígio popular, sem mágicas ou ilusionismo, qual seja, fundar um regime democrático na contramão do formalismo e da liturgia do elementar processo da eleição direta, que nos era negada. Poucas vezes no mundo a adesão da população -sem o caráter perverso do populismo- tornou dispensável, por força da emergência, a manifestação eleitoral, e ungiu um presidente da República como se tivesse ocorrido o essencial sufrágio universal.
Passados 20 anos, tudo parece ter sido um passeio no parque, mas foi um processo que exigiu inteligência, malícia e coragem. Não nos esqueçamos do arreganho desvairado do atentado do Riocentro, à direita -a busca do caos pelo regime esgotado e em processo de liqüidação por alguns dos seus próprios fiadores militares-, nem da tentativa de assalto ao Palácio dos Bandeirantes, à esquerda, pelos que supunham ter condições de tentar o golpe oportunista.
Não se deve, porém, esquecer o que houve de astúcia, competência, visão estratégica e capacidade de associar -de forma humilde, dedicada, fraternal, um fenômeno somente viável pela condição humana- cidadãos tão diferentes entre si como os dedos das mãos e os rostos da multidão.
Tudo tinha começado na campanha das Diretas-Já. Homens como Ulysses Guimarães -quando este país fará justiça e reconhecerá sua grandeza?-, Leonel Brizola, Franco Montoro e o próprio Tancredo aproveitaram a chance de ouro. A campanha pelas Diretas-Já, a um só tempo conspiração de bastidores e movimento de rua, tornou-se o estuário em que todas as águas, à esquerda e à direita, foram se jogando, confiantes e esperançosas.
O 24 de abril de 1984, quando faltaram apenas 27 votos para a emenda constitucional das Diretas, embora tendo alcançado a esmagadora maioria da Câmara, tornar-se vitoriosa, foi o início da jornada para o 15 de março de 1985. Não o esqueço porque foi o dia do meu engajamento no movimento, com uma declaração antecipada do voto -que não teria a chance de dar, pois, derrotada na Câmara, a emenda não chegou a ser votada no Senado.
Dali pra frente foi a escalada que culminou no 11 de junho de 1984, quando tive a oportunidade de um gesto pessoal e decisivo. Acompanhando posição anterior do senador José Sarney -e seguindo um script de rebeldia e renúncia-, renunciei à vice-presidência do PDS. Não estava só. Éramos um grupo solidário e firme que constituiria a Frente Liberal, depois transformado em PFL, sob a liderança conjunta de Marco Maciel, Aureliano Chaves, Guilherme Palmeira, José Sarney e eu.
O certo é que, naquele mesmo 11 de junho, hora depois, o deputado Ulysses Guimarães me procurou e entrei de corpo e alma na conspiração de que jamais me apartei, até hoje, porque a Nova República é um compromisso que jamais se esgotará. Ungiu-nos a todos os que ajudamos a implantá-la e nos desafia a cada a dia testemunhar pelos que já morreram, pelas gerações que virão e por nossa própria honra e razão.
A arquitetura da Nova República seguiu linhas de profunda sabedoria. Regra nº 1: não excluiu ninguém. Neste país nunca um movimento político assumiu tal abrangência. E os comunistas de linha albanesa, stalinistas depois de Stálin, maoístas além de Mao? -perguntava-se. Tancredo os ouviu e deu-lhes garantias. E os generais que fizeram sua ascensão aos mais altos comandos durante o regime de 1964? Tancredo os ouviu e deu-lhes garantias. As condições, porém, eram inegociáveis: as regras da democracia, a submissão à vontade popular e a legitimidade da representação parlamentar.
Tudo, porém, teria de ser naquele momento. Antes, teria sido abortado; depois, teria degenerado. Que a democracia,a liberdade, o avanço civilizatório, o espírito e a visão profética dos companheiros protagonistas de 1984/85 não abandonem jamais este país. Amém.


As palavras e expressões do texto citado como a conspiração , a liberdade, o avanço civilizatório, o espírito e a visão profética dos companheiros,fazem-nos lembrar, respectivamente , do espírito aventureiro,da guerra,da luta pela liberdade, na transição do Arcadismo ou Escola Mineira para o Romantismo e a Poesia Condoreira - Escola literária de Pernambuco,caracterizada pelo estilo elevado,sublime,hiperbólica,a chamada poesia arrebatada,com metáforas audaciosas,e linguagem eloqüente. Também é chamada de poesia social, denunciadora das grandes desigualdades. Castro Alves era conhecido como o poeta dos escravos, pois ,em suas poesias sempre tinha como temática a liberdade dessa gente sofrida.A conspiração , visão profética dos companheiros, fazem ,especialmente,referência à Inconfidência Mineira – luta pela independência do Brasil.
A conspiração se contextualiza no seguinte trecho:
‘ Pelas oito horas de uma noite fria e chuvosa do fim de dezembro de 1788,um mensageiro levava uma carta dirigida a Inácio José de Alvarenga Peixoto. (...) A mensagem convocava Alvarenga para um encontro,combinado,na casa de Francisco de Paula Freire de Andrade,comandante dos Dragões. E o objetivo da reunião era fomentar uma revolução. Quando passou a chuva,Alvarenga subiu a colina para a casa de Freire Andrade (...). O tenente-coronel estava esperando com mais quatro conspiradores: o Dr. José Álvares Maciel,filho do capitão-mor de Vila Rica e cunhado do dono da casa; o Padre José da Silva de Oliveira Rolim; o alferes Joaquim José da Silva Xavier e Carlos Correia de Toledo,vigário de São José.Os seis reuniam-se para formalizar os planos de um levante armado contra a coroa portuguesa. Eram todos nascidos no Brasil,e todos eram agentes de revolução em andamento. Nada foi coordenada a estratégia do movimento.Os conspiradores esperavam que a derrama fosse imposta em meados de fevereiro de 1789. Contando com a inquietação geral do povo eles se propunham a instigar um motim sob cuja cobertura,e com a conivência dos Dragões,o governador seria assassinado e se proclamaria uma república independente. O alferes Silva Xavier deveria provocar a agitação em Vil Rica. Teria o auxílio de companheiros que chegariam antecipadamente à cidade em pequenos grupos,com armas escondidas debaixo dos casacos. Quando os Dragões fossem convocados para enfrentar a multidão, Freire de Andrade deveria atrasar-se até que o alferes tivesse partido para Cachoeira. Introduzindo-se na escolta do governador ele prenderia e executaria Barbacena, voltando então para Vila Rica. Freire Andrade, ã frente dos Dragões, faria face à multidão perguntando-lhe o que pretendia. E o alferes, mostrando a cabeça do governador, bradaria que queriam a liberdade. A seguir seria proclamada a república e lida uma declamação de independência. E só havia que esperar a derrama para fixar o dia da revolta. Se a conspiração fosse descoberta, todos deveriam negar qualquer conhecimento dela. Não haveria nada escrito.’
(Kenneth Maxwell. A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira. In: NICOLA,1998: 206,vol. 1)

“liberdade” - esta palavra remete-nos ao Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles e Navio Negreiro,de Castro Alves.
Em o Romanceiro da Inconfidência, conforme José de Nicola (1998:207)

Cecília Meireles ,em pleno século XX,reconstruiu o episódio da Inconfidência Mineira,extraído de um fato passado e limitado geográfica e cronologicamente valores que são eternos e significativos para a formação da consciência de um povo. A própria autora afirma que é ‘uma historia feita de coisas eternas e irredutíveis: de ouro,amor,liberdade,traições....’ E exatamente para o mais eterno desses valores – a Liberdade – a poetisa dedica uma das mais belas estrofes de nossa literatura.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
(...)
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
Liberdade ,ainda que tarde
Ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva
e sobe na noite imensa.
E os seus tristes inventores
Já são réus – pois se atreveram a falar em Liberdade.
Liberdade,essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda.

E, em Navio Negreiro, Castro Alves dialoga com Cecília Meireles em relação à Liberdade , conforme segue:
(...)
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
(...)
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

As palavras e expressões "homens de pouca fé", “ pobres de espírito,” homens de boa vontade,” “profeta e guia, líder e evangelista,” “ungiu” e “Amém,” remetem-nos à dimensão do mundo religioso. São palavras e expressões que dão um tom retórico,oratório,eloqüente. Transmite a idéia de autoridade.

Contextualizando todos os termos por parte teríamos:

"homens de pouca fé" – Esta frase se refere ao texto Jesus anda por cima do mar,
conforme se comprova a seguir:

Desembarcando, viu Jesus uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos.
Ao cair da tarde, vieram os discípulos a Jesus e lhe disseram: O lugar é deserto, e vai adiantada a hora; despede, pois, as multidões para que, indo pelas aldeias, comprem para si o que comer.
Jesus, porém, lhes disse: Não precisam retirar-se; dai-lhes, vós mesmos, de comer.
Mas eles responderam: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.
Então, ele disse: Trazei-mos.
E, tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a relva, tomando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou. Depois, tendo partido os pães, deu-os aos discípulos, e estes, às multidões.
Todos comeram e se fartaram; e dos pedaços que sobejaram recolheram ainda doze cestos cheios.
E os que comeram foram cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças.
Logo a seguir, compeliu Jesus os discípulos a embarcar e passar adiante dele para o outro lado, enquanto ele despedia as multidões.

E, despedidas as multidões, subiu ao monte, a fim de orar sozinho. Em caindo a tarde, lá estava ele, só.
Entretanto, o barco já estava longe, a muitos estádios da terra, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando por sobre o mar.
E os discípulos, ao verem-no andando sobre as águas, ficaram aterrados e exclamaram: É um fantasma! E, tomados de medo, gritaram.
Mas Jesus imediatamente lhes disse: Tende bom ânimo! Sou eu. Não temais!
Respondendo-lhe Pedro, disse: Se és tu, Senhor, manda-me ir ter contigo, por sobre as águas.
E ele disse: Vem! E Pedro, descendo do barco, andou por sobre as águas e foi ter com Jesus.
Reparando, porém, na força do vento, teve medo; e, começando a submergir, gritou: Salva-me, Senhor!
E, prontamente, Jesus, estendendo a mão, tomou-o e lhe disse: Homem de pequena fé, por que duvidaste?
Subindo ambos para o barco, cessou o vento.
E os que estavam no barco o adoraram, dizendo: Verdadeiramente és Filho de Deus! (Mateus 14.14-33)


“ pobres de espírito” – refere-se à passagem das bem-aventuranças em - O sermão da montanha – as beatitudes – conforme segue:


Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos;
e ele passou a ensiná-los, dizendo:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós.
Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. ( Mateus 5.1-12)

“ homens de boa vontade”- Esta expressão faz referência ao texto Os pastores de Belém
quando viram a estrela do oriente,ocasião do nascimento de Jesus,conforme segue:

Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite.
E um anjo do Senhor desceu aonde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles; e ficaram tomados de grande temor.
O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo:
é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor.
E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura.
E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo:
Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra e boa vontade para com os homens!
E, ausentando-se deles os anjos para o céu, diziam os pastores uns aos outros: Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer.
Foram apressadamente e acharam Maria e José e a criança deitada na manjedoura.
E, vendo-o, divulgaram o que lhes tinha sido dito a respeito deste menino.
Todos os que ouviram se admiraram das coisas referidas pelos pastores.
Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração.
Voltaram, então, os pastores glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes fora anunciado. (Lucas 2.8-20)

“profeta e guia, líder e evangelista” – Exata expressão refere-se a João Batista quando pregava no deserto entes de Jesus começar seu ministério.Embora ,no texto que segue ,não haja,gramaticalmente , a expressão em negrito,semanticamente dar a idéia de profeta,guia,líder e evangelista.

Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia e dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.
Porque este é o referido por intermédio do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.
Usava João vestes de pêlos de camelo e um cinto de couro; a sua alimentação eram gafanhotos e mel silvestre.
Então, saíam a ter com ele Jerusalém, toda a Judéia e toda a circunvizinhança do Jordão;
e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados.
Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?
Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento;
e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão.
Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.
Eu vos batizo com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.
A sua pá, ele a tem na mão e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível. (Mateus 3.1-12)


“ungiu” – Dentre as várias passagens da Bíblia que fala de unção,esta é especial por falar da unção de Davi como rei e há ligação com a eleição do presidente da República do Brasil.. Dentre os vários irmãos, só Davi - considerado o mais humilde,pastor de ovelhas - foi o escolhido para reinar em Israel. Veja o contexto:

Deus manda Samuel ungir a Davi como rei

Disse o SENHOR a Samuel: Até quando terás pena de Saul, havendo-o eu rejeitado, para que não reine sobre Israel? Enche um chifre de azeite e vem; enviar-te-ei a Jessé, o belemita; porque, dentre os seus filhos, me provi de um rei.
Disse Samuel: Como irei eu? Pois Saul o saberá e me matará. Então, disse o SENHOR: Toma contigo um novilho e dize: Vim para sacrificar ao SENHOR.
Convidarás Jessé para o sacrifício; eu te mostrarei o que hás de fazer, e ungir-me-ás a quem eu te designar.
Fez, pois, Samuel o que dissera o SENHOR e veio a Belém. Saíram-lhe ao encontro os anciãos da cidade, tremendo, e perguntaram: É de paz a tua vinda?
Respondeu ele: É de paz; vim sacrificar ao SENHOR. Santificai-vos e vinde comigo ao sacrifício. Santificou ele a Jessé e os seus filhos e os convidou para o sacrifício.
Sucedeu que, entrando eles, viu a Eliabe e disse consigo: Certamente, está perante o SENHOR o seu ungido.
Porém o SENHOR disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração.
Então, chamou Jessé a Abinadabe e o fez passar diante de Samuel, o qual disse: Nem a este escolheu o SENHOR.
Então, Jessé fez passar a Samá, porém Samuel disse: Tampouco a este escolheu o SENHOR.
Assim, fez passar Jessé os seus sete filhos diante de Samuel; porém Samuel disse a Jessé: O SENHOR não escolheu estes.
Perguntou Samuel a Jessé: Acabaram-se os teus filhos? Ele respondeu: Ainda falta o mais moço, que está apascentando as ovelhas. Disse, pois, Samuel a Jessé: Manda chamá-lo, pois não nos assentaremos à mesa sem que ele venha.
Então, mandou chamá-lo e fê-lo entrar. Era ele ruivo, de belos olhos e boa aparência. Disse o SENHOR: Levanta-te e unge-o, pois este é ele.
Tomou Samuel o chifre do azeite e o ungiu no meio de seus irmãos; e, daquele dia em diante, o Espírito do SENHOR se apossou de Davi. Então, Samuel se levantou e foi para Ramá. (I Samuel 16.1-13)

“Amém” - Esta uma palavra que,na Bíblia, sempre fecha,conclui um texto,uma oração, para afirmar o que foi dito como “certamente”, “é assim.” Entre as várias passagem que encontramos a palavra “amém”, achamos por bem utilizar o último texto da Bíblia como fechamento de todo o livro sagrado. Este treco denota bem a questão de uma afirmativa retórica,eloqüente, muito utilizada no meio político.
Vejamos o contexto:

Admoestações e promessas finais – conclusão

Disse-me ainda: Estas palavras são fiéis e verdadeiras. O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou seu anjo para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer.
Eis que venho sem demora. Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro.
Eu, João, sou quem ouviu e viu estas coisas. E, quando as ouvi e vi, prostrei-me ante os pés do anjo que me mostrou essas coisas, para adorá-lo.
Então, ele me disse: Vê, não faças isso; eu sou conservo teu, dos teus irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus.
Disse-me ainda: Não seles as palavras da profecia deste livro, porque o tempo está próximo.
Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se.
E eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras.
Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim.
Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras [no sangue do Cordeiro], para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas.
Fora ficam os cães, os feiticeiros, os impuros, os assassinos, os idólatras e todo aquele que ama e pratica a mentira.
Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas às igrejas. Eu sou a Raiz e a Geração de Davi, a brilhante Estrela da manhã.
O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida.
Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro;
e, se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das coisas que se acham escritas neste livro.
Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente, venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus!
A graça do Senhor Jesus seja com todos. (Apocalipse 22.6-21)

Considerações finais

Diante do que foi exposto ficou evidente como a intertextualidade,dialogismo e polifonia manifestaram-se conjuntamente ao longo do texto analisado. Ficou claro que o tipo de intertextualidade que prevaleceu em todo o corpus foi a constitutiva – as marcas não mostradas, como aspa ,o discurso direto e o verbo dicendi. Apenas a expressão “homem de pouca fé,” apareceu como intertextualidade manifesta,como o uso de aspas,por exemplo.
Percebemos que todos os recursos utilizados pelo autor do texto foram propositais, com objetivos de dá um tom eloqüente, audacioso.E por fim,dar credibilidade ao seu discurso.Portanto,fica comprovado,que realmente o “o discurso é tecido a partir do discurso do outro. Todos são (...) ‘ atravessados,’ ‘ocupados,’ ‘ habitados,’ pelo discurso do outro.”( In Bastos,2000:67). E para compreender esse fenômeno,o leitor deve ter historicidade e sensibilidade para ver e sentir os efeitos da intertextualidade,do dialogismo e da polifonia presentes no texto.

Referencias bibliográficas

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Bibliografia de apoio

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