Páginas

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

As marcas da interação no texto jornalístico

Por prof. Eliorefe Cruz Lima


Considerações iniciais

Quando se pensa em uma notícia de jornal ,geralmente se espera que o discurso jornalístico seja estruturado, segundo alguns princípios teóricos desse tipo de gênero textual, de uma intenção objetiva,clara,e concisa da linguagem. Tem-se a objeção de que no texto jornalístico é o fato que assume a posição central,o que compete ao jornalista,apenas, a transmissão da notícia.Entretanto, o leitor avisado e perspicaz entende que essa objetividade e imparcialidade da linguagem jornalística é quase sempre impossível.,pois o autor do texto ,de certa forma, se deixa apresentar de maneira latente recorrendo ao uso das vozes dos outros ,determinado,assim, a intencionalidade da notícia.
Assim,este trabalho tem o objetivo de apresentar como acontecem os procedimentos que revelam os efeitos de subjetividade no texto jornalístico por meio dos recursos que a linguagem nos oferece.

Referencial teórico e Os diferentes tipos de relações que definem a interação

Para comprovar os efeitos de subjetividade no texto jornalístico,nos apoiamos no conceito bakhtiniano chamado dialogia.
A concepção de dialogia de Bakhtin é tratada enquanto diálogo entre os interlocutores,através da interação verbal como também a interação é mediada pelo texto.(cf. Barros,1997:28,29).
Barros ,(op.cit) apoiada em Bakhtin, comenta como se dá as marcas e as estratégias que definem a interação objetiva e subjetiva entre os interlocutores na comunicação. Ela apresenta três tipos de relações que contribuem na interação entre os interlocutores na perspectiva dialógica leitura/escrita :
1.Interação racional ou intelectual
2.Interação sensorial
3.Interação afetiva ou passional

Em seguida a autora define-os, assim:

“A interação racional ou intelectual, as estratégias de persuasão e de interpretação são, principalmente, os procedimentos discursivos que produzem efeitos de objetividade. (...) os objetos de comunicação são modalizados como proveitosos ou prejudiciais, obrigatórios ou dispensáveis, possíveis ou impossíveis, com base em suas qualidades ‘ objetivas. ’(...) a interação sensorial, as estratégias de persuasão e interpretação são procedimentos que visam à construção de efeitos de subjetividade, enquanto aproximação corporal ou sensorial, de ordens diversas - visuais, táteis, gustativas e outras.” (op.cit.)

Barros acrescenta que a interação sensorial pode levar os interlocutores à interação “ estésica” . Esta, “os objetos de comunicação são ditos belos ou feios,harmônicos ou desarmônico(...)conforme o quadro de valores de diferentes estéticas.” E finaliza que


“a interação afetiva ou passional,as estratégias de persuasão e de interpretação são constituídas por procedimentos que buscam o estabelecimento de efeitos de subjetividade afetiva. São estabelecidos laços afetivos de amor,de interesse,de confiança,de cumplicidade,de antipatia,entre os sujeitos que interagem.

Para análise do corpus faremos uso das interações sensorial e afetiva ou passional.

Apresentação do corpus.

O corpus deste trabalho é formado por uma notícia de jornal veiculado no jornal on line Folha de S. Paulo, publicado no dia 28 de outubro de 2004. Este corpus trata-se de um acidente com um motoqueiro que foi atingido por uma árvore que caiu na avenida no momento em que ele passava por ali. Esta notícia ganhou amplo espaço,três páginas e envolvendo dois autores diferentes, no caderno Cotidiano do jornal : C1 - Queda de árvore mata motoboy na Sumaré (Vitor Ramos Ricardo Westin);C3 - Vítima ganhou aliança da mulher na véspera (Fábio Schivartche); C5 - Árvore cai em Avenida de SP e mata motoboy ( Vitor Ramos e Ricardo Westin)

Todos os artigos demonstram a subjetividade dos autores,mas o C3 - Vítima ganhou aliança da mulher na véspera ,demonstra mais subjetividade pelos detalhes que nele aparecem.:

Vítima ganhou aliança da mulher na véspera
Motoboy atingido por árvore na Avenida Sumaré, morto aos 39 anos, voltou às ruas depois de fechar microempresa.

DA REPORTAGEM LOCAL.

Na última noite de sua vida, o motoboy Marcos Vinicius Cruz da Silva, 39, ganhou da mulher uma fina aliança folheada a ouro. Era a segunda que Ana Paula Gomes, 24, lhe dava em seis anos de casamento. A primeira, nenhum deles usava. Ele, porque apertava o dedo ao vestir a luva de motoqueiro. Ela, porque o metal se desgastou com os produtos químicos do salão de beleza onde trabalha. "Mas essa eu não vou tirar nunca", disse o marido a Ana Paula.
Juras de amor refeitas, ela brincou: "Vamos nos casar de novo?". Com um meneio de cabeça, ele concordou. E foram para a TV esperar o sono chegar. Horas depois Silva estava estendido no asfalto da Avenida Sumaré, vítima de um tronco de árvore que rachou e caiu sobre a pista.
Na noite de ontem, enquanto esperava para fazer o boletim de ocorrência, no saguão do 23º DP, em Perdizes, Ana Paula trocava a aliança de dedos incessantemente. Tremia. Dizia não saber se vai processar a prefeitura. Chorava. E falava, utilizando um pretérito ainda incrédulo, sobre os planos de vida do marido.
"Ele reclamava de cansaço no trabalho. Estava pensando em trocar de profissão. Mas temos dois filhos e ele sempre foi um cara responsável", conta.
Motoboy havia 18 anos, era o número 54 da empresa Free Way Express. Já havia tentado a sorte como microempresário, abrindo sua própria empresa de entregas rápidas. Traído pelo sócio, que desfalcava o caixa, fechou a firma um ano depois. E voltou às ruas com sua Honda Strada roxa, 200 cilindradas, disputando os faróis com outros 200 mil motoboys que circulam diariamente pela cidade.
Ontem, caída no gramado do canteiro central da Avenida Sumaré com a lataria levemente amassada e o espelhinho arrancado, a moto de Silva marcava os 79.104 quilômetros que eles percorreram juntos em quatro anos. Era sua companheira de até 14 horas de luta diária. Rendia cerca de R$ 1.500 por mês, mas lhe roubava a dedicação familiar.
"Ele só tinha os domingos com a família. E, ainda assim, muitas vezes passava o dia de folga limpando e cuidando da moto. Só ele tocava na máquina. Era a sua grande paixão", diz Ana Paula.
Considerado um motociclista cuidadoso por colegas, tinha outra imagem entre alguns vizinhos e parentes, que o apelidaram de "Louquinho". Adorava empinar a moto e, ainda solteiro, envolveu-se em alguns acidentes que não causaram ferimentos graves.
Na mochila, levava sempre a foto dos filhos Felipe, 5, e Giovana, 4. Já tinha programado uma viagem para o próximo domingo com toda a família. "Iríamos para a Praia Grande passar o dia no mar", conta Ana Paula.
Fã do rap dos Racionais, que ele cantarolava o dia inteiro, Silva chegava de noite tão cansado à sua casa no bairro de Vila Penteado, na zona norte da cidade, que geralmente pedia para ver um filme de vídeo e dormia no meio. Na terça-feira, alugou Drácula. Dormiu com a aliança no dedo.
Ontem, Cruz acordou cedo, por volta das 6h. Era seu 14.431º dia de vida. Como de costume, preparou a mesa para a família. Tomou o seu último café, calado. Deu um beijo no rosto da mulher, disse "tchau, até de noite" e foi trabalhar. Mas havia uma árvore em seu caminho.

Considerando a dialogia enquanto diálogo entre os interlocutores, através da interação verbal, esta interação dialógica ,no texto citado, se dá pelos detalhes dos fatos pessoais do dia a dia do casal - Marcos Vinicius Cruz da Silva e Ana Paula Gomes. Os vocábulos / expressões e detalhes descritivos ,em negrito, denotam a subjetividade do autor como forma de envolvimento e de se aproximar do leitor ,sensibilizá-lo,dar um “sentimento prazeroso de ser parte de algo” e “ a troca de detalhes que parecem insignificantes sobre a vida diária envia uma metamensagem de relacionamento e atenção” para a família que se envolveu no incidente:

“Na última noite de sua vida...”

“uma fina aliança folheada a ouro...”

“Era a segunda... em seis anos de casamento...”

“Juras de amor refeitas...”

“Horas depois Silva estava estendido no asfalto da Avenida Sumaré, vítima de um tronco de árvore que rachou e caiu sobre a pista.”

“Na noite de ontem, enquanto esperava para fazer o boletim de ocorrência, no saguão do 23º DP, em Perdizes, Ana Paula trocava a aliança de dedos incessantemente. Tremia. Dizia não saber se vai processar a prefeitura. Chorava. E falava, utilizando um pretérito ainda incrédulo, sobre os planos de vida do marido”

“Motoboy havia 18 anos, era o número 54 da empresa Free Way Express”

“Ontem, caída no gramado do canteiro central da Avenida Sumaré com a lataria ( da moto) levemente amassada e o espelhinho arrancado, a moto de Silva marcava os 79.104 quilômetros que eles (moto e motoqueiro) percorreram juntos em quatro anos. Era sua companheira de até 14 horas de luta diária. Rendia cerca de R$ 1.500 por mês, mas lhe roubava a dedicação familiar.”

“Na terça-feira, alugou Drácula. Dormiu com a aliança no dedo. “

“Ontem, Cruz acordou cedo, por volta das 6h. Era seu 14.431º dia de vida. Como de costume, preparou a mesa para a família. Tomou o seu último café, calado. Deu um beijo no rosto da mulher, disse "tchau, até de noite" e foi trabalhar. Mas havia uma árvore em seu caminho.”

Referências bibliográficas

BARROS, Luz Pessoa de. Interação em anúncios publicitários.In: Preti, Dino (Org.) Interação na fala e na escrita.São Paulo: Humanitas, 2002.

-------------Contribuições de Bakhtin às teorias do discurso. In BRAIT, Beth.Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Editora da Unicamp, 1997.

-------------- Dialogismo, polifonia, intertextualidade. (Orgs.) São Paulo: Edusp,,2003.

FAIRCLOUGH, Norman.Discurso e mudança social.Brasília: Editora da Universidade de Brasília, s/d?

TANNEN, Deborah. Você simplesmente não me entende: difícil diálogo entre homens e mulheres. São Paulo: Best Seller,s/d?

Nenhum comentário: