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sábado, 13 de fevereiro de 2010

As formas de tratamento em Famigerado de Guimarães Rosa

Por prof. Eliorefe Cruz Lima

CONSIDERAÇOES INICIAIS

Qualquer que seja o tipo de comunicação , ela será determinada pelas circunstâncias ou condições reais da enunciação,isto é, pela situação social. A enunciação é o resultado da interação de dois indivíduos do mesmo grupo social ou não . Para que haja uma comunicação eficiente , é importante que os interlocutores tenham consciência de que essa comunicação poderá variar de acordo com uma série de fatores como variações geográficas (ou diatópicas - os chamados regionalismos,provenientes de dialetos ou falares locais) ;sociológicas (ou diastráticas - variedades devidas ao tipo de falante como idade,sexo,profissão,posição social,grau de escolaridade,); contextuais,sincrônicas , diacrônicas ; variações do tema de um diálogo,os elementos emocionais que podem alterar a linguagem habitual dos interlocutores ( cf. Bakhtin ,1929/1986:112; Preti,2003:11-40).
Considerando essa diversidade na língua ,este trabalho tem por objetivo analisar as formas de tratamento utilizadas pelas personagens do conto Famigerado, de Guimarães Rosa.
Este conto constitui-se num episódio cômico: um médico do interior (narrador da história) recebe a visita de quatro cavaleiros rudes do sertão. Seu líder,o jagunço Damázio, conhecido assassino da região, quer que o médico o esclareça a respeito do significado da palavra “famigerado”. O médico, temeroso de revelar o verdadeiro sentido da palavra, mente, pois teme a violência de Damásio contra o “moço do Governo” que assim o havia chamado. Ele explica que “famigerado” quer dizer “célebre”, “notório”, “notável”.
Damázio, depois de tranqüilizado com a resposta do médico, agradece e vai embora.
Nesse conto podemos opor o poder da força, Damázio, ao poder da instrução, o conhecimento do médico. Caso o médico tivesse revelado o sentido dicionarizado do termo “famigerado”,levando em consideração o contexto no momento da enunciação ,estaria, por certo, infligindo uma sentença de morte ao “ moço do Governo.”
O autor descreve o confronto em palavras entre o perigoso jagunço, que, aflito, deseja saber o significado da palavra “famigerado”, e o temeroso médico, homem culto, que diante dele “tinha que entender-lhe as mínimas entonações,seguir seus propósitos e silêncios” para dar-lhe uma reposta agradável . Como recursos, Guimarães Rosa utiliza, de forma singular, regionalismos, neologismos, registros da oralidade e inventivas construções sintáticas e morfológicas, a fim de tratar da própria linguagem e de seu reflexo como instrumento de diferenciação social. Guimarães Rosa tematiza, no conto, a importância da linguagem como seu conhecimento ou não determina as posições sociais.

OS PAPÉIS SOCIAIS

Para confrontar as duas personagens do conto citado, é imprescindível inseri-los,cada um, em seu contexto sociocultural para compreendermos o motivo das variações do léxico no diálogo. Para tanto, vamos inserir as duas personagens cada um em seu papel social. Este, segundo Goffiman (2004:24), “é a promulgação de direitos e deveres ligados a uma determinada situação social.” Sobre papel social, Preti (2004:180) também se posiciona:

O conceito sociológico de papel está ligado ao de status e ambos se referem à participação do homem no grupo social.Assim, é natural entender que cada indivíduo tem uma participação dentro de um grupo (seja ele um grupo restrito ou primário, como a família; ou um grande ou secundário,como o Estado ,por exemplo).Mas, podendo pertencer a vários grupos sociais, pode ocupar também várias posições sociais.Poderá, por exemplo, ao mesmo tempo, ser o pai, na família,; o professor,na escola;o jogador,na equipe esportiva;o pregador,na igreja etc.

E dependendo do status que o indivíduo ocupa na sociedade, este “deve subordinar-se a certos comportamentos (...) ligados à sua representação física, à sua aparência, ao seu vestuário. E, também, à sua linguagem, componente importante na criação de sua imagem.” (op.cit. 2004:181).


Assim, definidos o que são papeis sócias e status,antes de analisarmos as formas de tratamento, nosso principal objetivo deste trabalho, podemos concluir que o médico tinha um status social de maior prestígio: era culto,tinha o poder do domínio pela palavra,vocabulário culto,emprego adequado dos tempos e modos verbais( uso do mais-que-perfeito) conjugação adequada do verbo pronominal ( uso da ênclise )Já o jagunço, seu papel social era de menor prestígio representado pela forma inversa da linguagem do médico,conforme segue:


Médico
Uso adequado da ênclise e dos tempos verbais; organização gramatical cuidada da frase;vocabulário culto de maior prestígio etc.:

“Parou-me à porta o tropel.”
“Saudou-me a seco...”
“Convidei-o a desmontar...”
“ ...tinha o ar de regê-los...”
“Desfranziu-se ...”
“Latejava-lhe um orgulho indeciso.”
etc
Uso do mais-que-perfeito:
“Carregara a celha.”
“Saíra e viera,aquele homem...”
“Tudo enxergara...”
“..quem dele não ouvira?...”
etc.

Jagunço
Uso inadequado da ênclise,simplificação gramatical da frase ,vocabulário de menor prestigio etc:

“ Eu vim preguntar ...uma opinião sua explicada.”
“Saiba ...que,na Serra,por ultimamente,se compareceu um moço do Governo...”
“...me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é....”
“...saí ind´hoje da Serra,...pra mor de lhe preguntar a pregunta ,pelo claro...
“Tem nenhum ninguém...”
“Mais me diga...”
“...me fale...”
“...me faz mercê...”
“...lhe preguntei...”
etc.

Lembramos que o falante ideal é aquele que adapta a linguagem às mais diversas situações de comunicação. Assim, podemos perceber ao longo do conto que o médico não só usa o vocabulário culto como o popular também como forma de se aproximar mais do jagunço: “ - Olhe: eu,...hum,o que eu queria mesmo uma hora destas era ser famigerado –bem famigerado,o mais que pudesse!...”. Aqui,o médico usou,conforme Marcuschi (cf.1997:13,68), um “marcador conversacional pre-posicionado ”. E uma “ hesitação ou sinal de atenção não lexicalizado, como forma de orientar o ouvinte”: “olhe” e “hum .”
Além disso, o narrador-personagem (médico) faz uso de algumas palavras e expressões próprias da região: “rente” ; “...um alazão;bem arreado,ferrado,suado” ; “desprezivo” ; “ O medo me miava” ; “estranhão” ; “uma jereba papuda” ; “ urucuiana “ ; “grossudo”; etc. E quanto ao jagunço ,este manteve sua a linguagem invariável,mostrando,assim, que não tinha competência lingüística para reformular sua fala. Por outro lado, ele tinha a consciência de que nas relações de poder as formas de tratamento variam conforme o status da pessoa na sociedade. No diálogo ,ele manteve um certo distanciamento social no uso da forma de tratamento , vosmecê. Sobre isso Preti (2004:184) afirma:

De uma maneira geral,pode-se dizer que as formas de tratamento estão ligadas a fatores diversos,como intimidade,solidariedade,polidez,afetividade,reverência,hierarquia,poder. Podem ocorrer nos diálogos ou nos vocativos e, nestes, apresentam uma grande variedade, aberta às mais inesperadas situações de comunicação. Em português, o sistema de tratamento pode ser representado: 1)por formas pronominais, ou seja, pelos pronomes (tu,vós); 2)por formas pronominalizadas,isto é, com valor de pronomes pessoais(você,o senhor,,Vossa Excelência,Vossa senhoria e suas variações) ; 3) por formas nominais,constituídas por nomes próprios,prenomes,nomes de parentesco ou equivalentes antecedido de artigo,uso praticamente restrito ao português de Portugal ou,ainda,por uma grande variedade de nomes empregados como vocativos ou formas de chamamento.

No século XIX a forma pronominalizada de tratamento vossemecê já era arcaica,mas indicadora de respeito. Ao usá-la, na época, era uma forma de cortesia maior do que você.(cf. op.cit. 2004:193). No caso do texto em analise,o jagunço não usa a forma pronominalizada vossemecê ,mas vosmecê,uma outra forma pronominalizada mais antiga,mas que tem o mesmo valor de respeito:

Médico

“...como o sr. me vê...”

Jagunço
“Eu vim preguntar a vosmecê...”
“Vosmecê é que não me conhece...”
“Saiba vosmecê que...”
“Vosmecê agora me faça a boa obra...”
“Saiba vosmecê que saí ind´hoje...”
“...vosmecê me fale,no pau da peroba,...”
“sim senhor...”
“Vosmecê declare.”
“Vosmecê mal não veja em minha grossaria...”
“Vosmecê agarante,pra paz das mães?...”

Observando o quadro dos pronomes, podemos perceber que o diálogo é quase assimétrico,pois o jagunço exerce uma certa pressão sobre o médico ao solicitar o significado da palavra famigerado. O jagunço não apresenta um boa desenvoltura na fala,pois apresentava-se rude,indeciso,pensativo ao ponto de redigir “seu monologar.” Percebemos, ainda, que entre os dois interlocutores manteve-se o distanciamento social, não houve mudança significava nas formas de tratamento. Apenas houve uma troca de vosmecê por senhor que também é uma outra forma pronominalizada de tratamento que demonstra respeito. Entretanto houve uma mudança bastante significativa na forma de tratamento quando o jagunço fala para os seus companheiros após ouvir a definição de famigerado e também quando ele se inclui no discurso: “ - Vocês podem ir,compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição....” “ - A gente tem cada cisma de dúvida boba,dessas desconfianças....Só para azedar a mandioca...”
Os pronomes vocês e a gente demonstram uma certa familiaridade e intimidade entre o jagunço e seus companheiros. Mas na interação entre médico e jagunço houve uma reciprocidade no respeito. Em certo momento do diálogo ambos se tratam por senhor,demonstrando assim, que não havia entre si afetividade nem intimidade,pois a situação de comunicação naquele momento não admitia um tratamento informal.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante de tudo que foi exposto acreditamos ter alcançado o objetivo proposto: mostrar que realmente a linguagem é uma forma essencial no desempenho do papel social de um indivíduo. No ato de comunicação o falante pode refletir o tempo em que vive,a região em que está,condição sociocultural,profissão,grau de escolaridade,sexo,faixa etária, ou aspecto da personalidade como timidez,agressividade etc. (cf. Preti,2004:183).
Assim, vimos que na comparação da linguagem entre as duas personagens do conto,médico e Damázio,podemos vê uma relação de distanciamento social .Ambos usaram pronomes de tratamento que denotavam respeito,pois o momento situacional ,o tema tratado,a falta de intimidade entre os dois , tudo isso contribuiu para manter o distanciamento social.. Por outro lado,vemos que no conto há um processo de interação com o jogo de imagens: o exterior do jagunço molda o interior do médico não por palavras,mas por expressão: “Eu tinha de entender –lhe as mínimas entonações,seguir seus propósitos e silêncios....” Também vimos que há um jogo de poder pela força física e outro pela força da palavra: o jagunço,com seu palavreado rude,seco e expressões fisionômicas pavorosas ; o médico tinha a perspicácia de “ler” as entoações,gestos,silêncios como forma de se precaver de algum perigo iminente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem, 3.ed.,São Paulo:Hucitec,(1929)(1986) .

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana.Trad. Maria Célia Santos Raposo. 12.ed.,Petrópolis:Vozes,2004.

PRETI, Dino. Papeis sociais e formas de tratamento em A ilustre casa de Ramires, em Eça de Queiroz. In: Estudos de língua oral e escrita. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004.

----------Sociolingüística: os níveis de fala, 9.ed.,São Paulo:Edusp,2003.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Análise da conversação, 3.ed.,São Paulo:Ática,1997.

Texto de apoio

ROSA, João Guimarães.Famigerado. http://www.feranet21.com.br/livros/resumos_ordem/famigerado.htm Acesso em: 30/04/2005

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